Vale a pena ver na Netflix: NÃO OLHE PARA CIMA (Don’t Look Up)
Nota 8
“Não olhe para cima”.
É óbvia a referência com o que vivemos nos últimos dois anos:
“Não se vacine.”
“Não existe Covid-19.”
“Cientistas estão mentindo.”
É até curioso que o personagem de Leonardo DiCaprio cite Carl Sagan logo no início: os negacionistas começam sua seita desmistificando e desmentindo os divulgadores da ciência, e Carl Sagan foi um dos maiores que existiram. Recomendo a todos a leitura de “O Mundo Assombrado pelos Demônios” – mais necessário ainda hoje do que há quase 20 anos, quando o li.
Este filme é uma clara paródia, ou metáfora, do mundo que estamos vivendo há dois anos, nesta pandemia. A diferença é que não há um meteoro prestes a extinguir a humanidade em seis meses. O que temos é um vírus – bastante letal, antes de criarem a vacina para ele –, dizimando milhares de pessoas ao redor do planeta.
No filme, a briga, claramente política, ocorre entre os que fazem campanha para que as pessoas “não olhem para cima”, e outras tantas pessoas clamando o mundo a ver o que está claramente diante de seus olhos – em dados momentos nem precisa mais de telescópio e o escambau, mas apenas dos olhos e do cérebro.
Não difere tanto assim do que vivemos hoje. No começo a Covid-19 era uma incógnita, uma coisa para cientistas e seus microscópios, e seus equipamentos que sempre parecem tão inacessíveis ao povo comum. Mas eis que todos começamos a ver com nossos próprios olhos – as pessoas morrendo, mas também as pessoas ficando com sintomas leves depois da vacinação, e a ocupação dos leitos caindo drasticamente depois da imunização em massa. A coisa toda, a ruim e a boa, se tornou palpável.
Mas a loucura política, a guerra de informação, a campanha de cada lado, os gritos de guerra de cada lado – aqueles baseados na ciência e aqueles baseados na fé cega, ou sei lá em quê –, continuam. Até hoje. Dois anos se passaram, e o meteoro ainda não caiu, dizimando tudo. O vírus também não acabou com a humanidade, porque muito foi feito nesse meio-tempo, incluindo as vacinas. Que pena, talvez. Sobrevivemos todos, com nossas loucuras, num mundo cada dia mais segregado, raivoso, emburrecido. Uns gritando, desesperados: “Olhe para cima! Está quase atingindo todo mundo!”. E outros, por seu turno, rebatendo: “Não olhem! Não existe nada disso! Está tudo bem!”.
Claro que tendo a concordar com os primeiros, porque contra fatos não há muitos argumentos. Ninguém é dono da verdade, mas 2+2 ainda é 4.
Mas, olha, ainda acho que a comunicação – eu como profissional da comunicação – é o grande problema entre um grupo e outro, o grande problema deste planeta e o retratado no filme. Ou a falta de comunicação. Ou a falha de comunicação.
Não adianta você estar certo se não sabe comunicar isso.
E não me perguntem como resolver este problema. Sei lá. Isso também me exaspera. O cometa está caindo na nossa direção, é visível para todos, mas as pessoas ainda preferem não enxergá-lo.
Isso vale também para o nazismo rebrotando. Para o pessoal falando mal de vacina (uma tecnologia existente há mais de 100 anos, que já salvou tantas vidas!). Para o bolsonarismo. Meu deus, pra tanta coisa! Às vezes fico pensando que a vida atual, o mundo atual, nos dividiu a todos em algoritmos burros, em oito-oitenta, em preto-ou-branco, não há mais nuances possíveis, não há mais cinzas, não há mais discussão, debate, diálogo, conversa, troca. São só dois grupos loucos – pelo menos um deles baseado em fatos científicos – se digladiando.
E isso é o fim da humanidade. Num sentido literal ou metafórico.
Gostem ou não deste filme, ele nos traz todas estas tantas reflexões importantes.

Quantos filmes fazem isso? Então, nesse sentido, “Não Olhe para Cima” é importante, é relevante, é interessante, mesmo que às vezes meio bobo.
Veja esse filme. Por sorte, ainda terá dois dos melhores atores do momento na sua tela: Leonardo DiCaprio, um monstro, e Jennifer Lawrence, sempre incrível. E Meryl Streep e Cate Blanchett, maravilhosas. E Jonah Hill e Mark Rylance e Timothée Chalamet, que ajudam a compor. Vão todos te fazer pensar. Ter raiva. Lembrar alguém que você conhece. Te fazer tremer. O mundo ainda não acabou na sua geração. Nem deve ser na do seu filho. Mas o cometa está ali, caindo.
Quer você queira, quer não.
Assista ao trailer do filme:
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Republicou isso em THE DARK SIDE OF THE MOON….
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Cris, gostei principalmente da citação a Carl Sagan. O mundo nunca esteve tão assombrado pelos demônios. Quando li o livro, ainda antes de você, a ciência parecia poder nos salvar. Mas, agora? Nesses tempos de fake news, de mentiras trombeteadas pela Internet, sei não. E eu que já cheguei a pensar que a Internet era um avanço para a humanidade. Nem sei para onde olho, agora.
O filme é excelente, e você fez dele uma excelente leitura.
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Pois é, a internet trouxe muita coisa boa, mas também reuniu os malucos do mundo todo…
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