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‘A morte da esposa do reverendo’, por Felipe Oliveira

O conto que publico hoje foi escrito e enviado pelo leitor Felipe Oliveira, de 28 anos, que mora em São Paulo (SP). Ele é estudante de ciências da religião.

Se você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises etc, pode enviá-los para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

Leia a seguir o conto do Felipe.

 


 

Foto: Joshua Eckstein / Unsplash

 

“Eis que havia, numa pequena cidade do interior de São Paulo, um pastor de uma pequena capela congregacional, umas das pouquíssimas ainda existentes. Reverendo Thomas Oliveira, pastor já há 35 anos na mesma igreja.

Uma igreja simples, com poucos membros, um pouco mais de 50 pessoas que ali congregam. A maioria delas ele mesmo discipulou e batizou. A membresia da igreja crescia de forma orgânica: os filhos dos membros iam crescendo e se tornando membros, ao passo que também se desenvolviam e casavam-se e tinham filhos, e seus filhos também eram enxertados à membresia da pacata capela.

Naquele domingo em especial, haveria o batismo de um bebê, filho de um casal, membros da igreja.

O reverendo tinha sérios problemas com álcool e, quando bebia, era violento com a esposa e os filhos. Ele bebia ao final de todo culto, e já aconteceu algumas vezes em que ele chegava à igreja para o sermão já bêbado.

Mas, naquele domingo, ele estava sóbrio. Não beberia pois haveria o batismo e ele não queria problemas, como o risco de afogar a criança na pia batismal, por exemplo.

Domingo, às sete da manhã, o relógio despertou pontualmente. O sol já entrara pela janela sem permissão prévia. Os raios amarelados e quentes perturbavam o sono da esposa do pastor, que sempre dormia ao lado da janela do quarto e tinha o costume de dormir com ela aberta, dado o calor que fazia nas noites de verão naquela cidade do interior.

Ela já estava acordada quando o despertador tocou. Cutucou o marido uma vez. Sem sucesso, ela repetiu o gesto, sussurrando baixinho:

– Thomas? Está na hora de levantar, não vá se atrasar para o sermão…

Ele se levantou. Sentou na cama, passou a mão nos olhos, limpando as remelas. A primeira coisa que lhe veio à mente foi a garrafa de whisky que ele guarda embaixo da cama. “Não, agora eu não posso beber. Mais tarde, talvez, não agora”, disse ele para si mesmo.

A esposa já havia passado a camisa do ofício pastoral na noite anterior. A camisa, que é conhecida como camisa de padre, preta com o colarinho clerical branco. Ele odiava usar colarinho clerical no calor.

Já na igreja, o sermão preparado pelo reverendo falava sobre fé e confiança em Deus. O culto acabou. Como sempre acontece, todos foram embora, para o famigerado e tradicional almoço em família. A família do reverendo também se adiantou, e ele ficaria sozinho na capela por mais algumas horas, concluindo o trabalho da
tesouraria da igreja.

Foto: Johnny Vigersten / Unsplash

Ele contava as ofertas arrecadadas no culto e notificava no caderno de ata. Ele havia trazido a garrafa de whisky com ele, já pensando nesse momento em que ficaria sozinho. Enquanto contava as cédulas de dinheiro – sempre eram notas de dois e cinco reais –, a cada contagem, um gole de whisky.

Foi ao final de um gole longo na garrafa de whisky que lhe apareceu Deus. Ele engasgou com a substância alcoólica, que, por conta do susto, lhe voltou da garganta à boca tão rápido que ele esguichou a bebida.

Apesar de nunca ter visto Deus antes, ele o reconheceu imediatamente.

– De..us, Deus?!

– Thomas, meu servo, atente-se às minhas palavras.

Seus joelhos tremiam como varas verdes, batendo um no outro. Parecia que o álcool evaporou de seu corpo, ele não conseguia dizer nada, espantado.

– Thomas, eu vou matar a sua esposa. Ela morrerá hoje à tarde. Matá-la-ei de forma súbita. Quando acontecer, eu quero que você não fique em luto. Não chore, não lamente a morte dela. Estas são as minhas palavras. Obedeça!

Em casa, Thomas contou à sua esposa o que tinha acontecido. Ela então, olhou para seu marido, passou a mão em seu rosto, e disse:

– Se essa é a vontade de Deus para mim, eu aceito seu desígnio. Quando eu chegar ao céu, eu vou perguntar a Deus: “Quem foi que criou essa bobagem de que sofrimento educa?”

Naquela tarde morreu a esposa do reverendo Thomas.”

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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