‘Meu Pai’: dentro da cabeça de alguém com demência

Cena do filme 'Meu Pai', com Anthony Hopkins.

Vale a pena assistir: MEU PAI (The Father)
Nota 8

Cena do filme ‘Meu Pai’, com Anthony Hopkins.

Seis anos depois de dar o Oscar de melhor atriz a Julianne Moore por sua atuação brilhante em “Para Sempre Alice“, o Alzheimer agora deve trazer a segunda estatueta de melhor ator para a prateleira de Anthony Hopkins por este papel tão pungente.

A diferença é que, neste filme “Meu Pai”, nós somos transportados para dentro da cabeça de alguém com demência. O roteiro e a edição – ambos também indicados ao Oscar – são construídos de tal forma que nós também não sabemos muito bem o que é fato e o que é imaginação, não sabemos bem quem é Paul, quem é James, se a filha vai ou não para Paris, se o relógio sumiu ou está escondido em algum lugar.

Pequenos lapsos da memória deste senhor de 83 anos são apresentados para nós, num vaivém temporal e cognitivo que nos causa angústia talvez na mesma medida da que sente, quando mais lúcido, o personagem principal.

O filme é absolutamente angustiante. E triste. Porque ninguém quer ficar como Anthony. Todos, assim como ele, querem ter a certeza de que são perfeitamente independentes e donos de sua vida e de sua casa, seja aos 20 ou aos 83 anos. Por outro lado, muitos acabam realmente ficando como o Anthony do filme – totalmente vulnerável, frágil como uma porcelana, dependente dos outros até para se situar sobre que dia é hoje e quem eles são.

Essa equação não fecha: uma terceira pessoa, geralmente um filho, acaba tendo que cuidar para que tudo dê certo. Com todo o amor embutido nessa missão, mas também toda a dor e tristeza de ver alguém que você ama agindo como uma criança (quando não um vegetal). Olivia Colman, também indicada ao Oscar, cumpre bem o papel de filha dividida pelo amor e pela exaustão, embora seja difícil competir com o brilho de Hopkins neste filme.

“Meu pai” também concorre pelo design de produção e na categoria principal, de melhor filme do ano. Apesar de tocante e muito bem feito, tiro dois pontinhos da minha nota porque acho que o roteirista-diretor poderia ter encontrado uma forma de nos mostrar mais claramente, ao fim de tudo, o que foi ilusão e o que foi realmente vivido pelo personagem. Como deixou algumas pontas soltas no ar – imagino que propositalmente –, nossa angústia nunca passa.

O fim também é desalento puro. Eu gostaria de ter podido respirar um pouco depois desta jornada desesperadora, se fosse possível.

Assista ao trailer do filme:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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