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Conto enviado por leitor: ‘Nestor, o advogado do diabo’

O conto de hoje foi escrito e enviado pelo Caique de Oliveira Sobreira Cruz, que é baiano de Salvador. Ele me disse que é advogado trabalhista, formado na Universidade Católica de Salvador, pós-graduado em sociologia na Universidade Estácio de Sá e também escritor. Ele tem 26 anos. O conto que ele me enviou é muito interessante. Boa leitura!

 

Foto: Andre Hunter / Unsplash / Divulgação

Nestor, o advogado do diabo

Por Caique de Oliveira Sobreira Cruz

 

— Maldição, logo será meia-noite, é chegada a hora de me preparar para os meus debates infindáveis com o meu inimigo, até mesmo pelo fato de que este horário de meia não tem nada, é inteira com tudo incluso, sem direito a carteirinha de estudante, a demora é sacrossanta nestes casos, por isso, não pode ser metade em nenhum requisito, apesar da singela contradição de, também, como dizem alhures, ser a noite uma criança. Bom, de toda sorte, devo me arrumar corretamente para poder receber Nestor, que já pode estar a caminho neste momento. Ele analisa até as minhas vestes, não posso vacilar nos meandros primários, ou não chegaremos nas questões últimas decisivas. Ele sabe papear e tapear melhor do que ninguém, então, que venha! — Exclamou José, sozinho em seu quarto.

José vestiu-se como se estivesse indo para uma sala de audiência em algum tribunal, com terno, gravata, camisa social, calça social, tudo combinando, como havia devidamente se aconselhado com algum desses grandes nomes da moda do passado, apesar de que, estava de meia, havia deixado seu par de sapatos social dentro do guarda-roupa, talvez, o rigor do traje formal não o tenha permeado em todas as circunstâncias. Mas, de fato, nada mais naquela noite o podia diferenciar de um burocrata da área jurídica que, com suas vestimentas, acredita estar acima dos outros indivíduos de sua sociedade, como uma espécie tragicômica de micropoder. Com toda a pompa, só lhe faltava a toga para que eu pudesse encerrar a narração do enredo com total agrura. Passou-se um bom tempo até que, ao decair do crepúsculo, próximo à média madrugada, José ouviu passos suaves como de alguém descalço, atento, percebeu, adiante, batidas singelas em sua porta.

— Boa noite, senhor, posso entrar? Desculpe-me o atraso, é que nesta noite você demorou a me dar a oportunidade de aparecer neste recinto que eu estimo com louvor, considero quase como minha casa, e sabes disso. — Pronunciou Nestor em voz tão suave e baixa que somente José pôde ouvir naquela casa, mesmo tendo mais 4 moradores nela.

— Deixe de tolice e entre de uma vez, seu escroque! Você sempre adentra, como diriam os portugueses, neste “sítio”, sem nenhuma permissão. Nós sabemos muito bem que se eu disser não, você vai abrir esta porta da mesma forma, não me faça perder o resto de paciência que ainda tenho contigo, pois, no dia de ontem, passei por uma situação muito incômoda e não tenho tempo para esses introitos, vamos logo, chegue mais perto e vamos discutir, pôr em dia o que temos de colocar. — Bradou José.

— Meu caro Zé, compreendes muito bem como funciona o meu procedimento, eu começo do particular para, somente depois, chegar ao universal. Por partes, constituindo as interligações entre os pedaços até formar o todo coerente. Portanto, vamos com calma. Devagar com a dose, meu amigo. Não venha com este andor, pois vou com o barro!

— Se você fosse mesmo por partes, não me trataria já de início com tamanha intimidade, quem és tu para me denominar de Zé? Dei-lhe permissão para apelidar-me? Não! Mas, ainda assim, o faz, então, não venha querer bancar o filósofo pra cima de mim, com isto de particular e universal, a palhaçada aqui acabou! Vamos direto ao assunto!

— Tudo bem, José, como queiras. Trataremos logo das questões centrais. E eu, como bom e experiente conselheiro que sou, irei mais uma vez lhe guiar pelo caminho mais coerente em termos racionais, para que não cometa mais nenhuma infâmia por aí. Vejo que está trajado devidamente para essa nossa entrevista, aprendeu muito bem com o seu mestre, sinto-me orgulhoso, apesar de ainda me tratar com linguajar vulgar, rebaixado e denunciante, como se eu fosse um inimigo na tocaia, pronto para liquidá-lo. Neste aspecto, precisamos rever este modus operandi, excelência. — Comentou Nestor.

— Pois é, seu sacripanta! Notou muito bem que estou vestido conforme você sempre exigiu, também treinei todo o linguajar que gosta que assovie em teus ouvidos, porém, dado à sua embromação costumeira, e à minha situação desastrosa atual, perdi a compostura antes das corujas sequer emergirem para nós. Mas, deixemos isto de lado e o senhor já pode, com toda a sua galhardia, iniciar o inquérito por intermédio do seu douto juízo. — Afirmou José, sem ainda controlar a sua inquietação.

— Pois bem, sua postura cumprindo meus rituais em relação aos trajes me deixou venturoso e, somente por isto, descartarei sua condição de não versar com o vocabulário que eu admiro. Vamos começar, portanto, a nossa “audiência” particular, diga-me, José, você já se convenceu de que sua opinião no caso de sua prima começar a trabalhar, mesmo na pandemia, é correto da parte dela, pois o trabalho dignifica o homem?

— Não, não estou absolutamente convencido disso! Ainda acredito ter sido uma postura muito arriscada, mas não quero tratar disso hoje! — Exclamou José.

— Bom, se ainda não está convencido do seu erro analítico, mesmo depois de tantas brigas no seu seio familiar por causa desta questão, então, devemos discutir sim sobre ela, pois está em aberta. Aproveitando a sua teimosia, pergunto-lhe logo sobre mais um tema sem desfecho, você aceitou a ideia de que informar a morte de seu avô aos seus pais, mesmo neste momento tão difícil para a humanidade, foi o correto? Pois devemos agir sempre com a verdade, nunca esconder nada, a mentira é a vilã de nossa história.

— Nestor, já lhe avisei, poupe-me do prefácio, vamos logo ao conteúdo do livro, ou melhor, seguiremos logo ao posfácio. Você sabe que já discutimos essas e mais dezenas de outras questões por diversas noites e não vou mudar minha posição, nem sempre a verdade é o certo, eu uso a justa medida Aristotélica, às vezes uma mentira é mais necessária e conveniente do que a verdade imediata, como é neste caso em que me perguntas, não podemos viver sob a égide de uma rígida régua inflexível. E eu também já sei suas opiniões quanto a tudo isso, sempre fazendo o papel do advogado do diabo contra mim. O que eu quero discutir agora é um fato novo. — José disse, fitando com veemência os olhos de Nestor — Lá no meu trabalho, eu passei um pouco do horário de retorno às atividades após o almoço e o meu supervisor me deu uma bronca esdrúxula por causa de 5 minutos de atraso, xingou-me de tudo que é possível ao nosso vocábulo, eu o respondi à altura e ele me disse para passar amanhã no RH que eu seria demitido. Mas, levei a questão ao gerente e ele disse que eu errei e se me desculpasse com o supervisor estaria tudo resolvido. Espie, o mesmo gerente todos os dias atrasa mais de 1h na volta do almoço e o mesmo supervisor atrasa por 30 minutos. Ele quem errou em querer me demitir por algo que todos lá fazem e eu o fiz pela primeira vez, em quase uma década, ontem. Ele que me deve desculpas, não o contrário. Diga-me o que acha?

— Bom, Zé, você está errado novamente. Primeiro que infringiu uma regra da sua empresa sobre o horário de almoço, segundo que desacatou um superior hierárquico seu. O gerente está certo, cumpra o que ele disse e ponto final, mantenha o seu emprego. Ainda lhe ponho em contradição, você sempre diz que os funcionários inferiores sempre estão cumprindo ordens dos funcionários superiores, portanto, se você deveria retrucar e xingar alguém não seria o supervisor, nem mesmo o gerente, mas sim, o dono da empresa.

— Ah, vá para o averno, aquele de Dante, seu miserável, junto com Neleu, Aquiles e Agamenão, sua trupe. Junte-se à “besta”, pois seus propósitos se assemelham. Você, todas as vezes, está contra mim, aponta o erro em minha direção, sempre jogando a culpa em meu colo, não aguento mais! E é verdade que estou em contradição, eu bem sei que o sistema hierárquico é corrompido por natureza, mas, não posso nada contra o dono, nunca nem o vi, ele é inalcançável, minha única batalha possível é contra aqueles que estão próximos, como o supervisor que comete o mesmo “erro” que o meu e ainda tem a audácia de me insultar. Quando eu acordar, irei lá e não pedirei nenhuma desculpa, serei demitido, mas com honra. Vou viajar para longe e procurar alguma empresa séria para trabalhar, e ainda escaparei de todos os problemas e brigas que você tentou reaver neste diálogo, sumirei! E quanto a você, Nestor, prepare-se, pois logo seus “conselhos” não serão mais possíveis, eu pararei de tomar meus remédios psicoativos que me causam como efeito adverso esses pesadelos contínuos onde tu apareces. Vossa Senhoria submergirá!

Foto: Paweł Czerwiński / unsplash / Divulgação

 

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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