‘Tia Julia e o Escrevinhador’: várias histórias dramáticas dentro de um romance maior

Tem coisa mais melodramática do que o rapazinho de 18 anos que se apaixona pela irmã da mulher do tio, uma divorciada de 30 e poucos? Isso numa Lima dos anos 50, quando divórcio denotava o mesmo escândalo do Brasil da mesma época. Parece coisa de novela mexicana, mas é também uma história real, vivida pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, autor do livro.

Esse romance autobiográfico tem tantas aventuras e desventuras que bem poderia ter saído da cachola de um roteirista de folhetim. Para aumentar a dramaticidade da narrativa, Llosa intercala cada capítulo com folhetins ultratrágicos, saídos da cachola de um roteirista que é um dos personagens do livro. Assim, temos várias histórias – ficcionais – dentro de uma história real. E essas ficções, além de extremadas ao máximo, com personagens e situações inusitados, vão se entremeando umas nas outras, costurando personagens num ritmo frenético que, se a gente lê com muitos intervalos de tempo, acaba até se perdendo.

Não sei como o próprio Llosa não se perdeu ao escrever o livro. Ele conta no prólogo que levou quatro anos no texto, vivendo em quatro diferentes países, às vezes interrompido por longas pausas. Realmente, é preciso muita habilidade. Ainda mais para não exaurir o leitor com tantos excessos e tantos melodramas, colocados propositalmente em todo canto. O autor admite que despejou nos episódios “excessos, cafonices e truculências característicos do gênero, mantendo a distância irônica indispensável, mas sem que se tornassem caricatura.” E confessa também: “O melodrama foi uma das minhas fraquezas precoces, alimentada pelos dilacerantes filmes mexicanos dos anos 50, e o tema deste romance me permitiu assumir isso, sem escrúpulos.”

Percebe-se. Temos incesto, ratos devorando bebês, padres insanos – e muito mais. Lá pelas 300 páginas do livro, já fui me cansando um pouco dessas histórias “dilacerantes”, lendo com uma certa ânsia para que passassem logo e eu pudesse prosseguir no romance entre Marito e tia Julia, no próximo capítulo – sendo este já suficientemente cheio de emoções.

Dito isso, é um bom livro, escrito com aquela maestria do Llosa, mas só para os mais fortes, que aguentam overdose de novelas, e não se cansam de mais um pouco da piração do narrador.

“Tia Julia e o Escrevinhador”
Mario Vargas Llosa
Ed. Objetiva
463 páginas
De R$ 45,59 a R$ 64,90

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