Se a esquerda vence as eleições, o que vem a seguir?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Sou um otimista e, sendo assim, acredito que o PT e seus aliados à esquerda elegerão o próximo presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva ou seu representante, Fernando Haddad. E que o eleito tomará posse no dia 1º de janeiro próximo.

Sou menos otimista sobre o que acontecerá em seguida. O que o novo governo fará para poder governar, sobretudo se a maioria dos atuais deputados e senadores for reeleita? Gente que comeu o melado do fisiologismo durante os governos petistas, lambuzou-se desde 2016 e quer mais, muito mais.

A esquerda, por sua vez, aprendeu a lição dos males de uma política de alianças para governar. Coisa que Lula e Dilma, esta muito menos, praticaram até com certo gosto. Apostaram no mel das alianças com políticos da direita e ganharam o fel do impeachment e da destruição das conquistas sociais sonhadas pela esquerda e verbalizadas durante o Fórum Social Mundial realizado no Brasil no começo deste século e que repercutiu intensamente, por um tempo, na América Latina.

A reação a isso, pela direita internacional, foi mais forte. E aos avanços da esquerda seguiram-se os retrocessos. Não mais com o uso das Forças Armadas, e sim do Legislativo e principalmente do Judiciário.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em recente entrevista, diz que a intervenção externa nos governos latino-americanos que se inspiraram no Fórum Social Mundial só começou em 2009 com o golpe das Honduras, porque antes os Estados Unidos estavam completamente envolvidos, desde 2003, na guerra do Iraque.

Mas, quando voltaram a olhar para o seu quintal, viram que havia surgido aqui algo que se opunha ao princípio fundamental de toda a diplomacia e domínio dos Estados Unidos – “que se resumem a uma expressão: acesso aos recursos naturais”.

Seria ineficaz, desta vez, lançar mão da ameaça comunista tão ao gosto do Exército. Por isso, se empenham nos golpes institucionais usando o Judiciário. A CIA e outras organizações capitalistas, como os institutos Millenium e Mises, faziam há décadas grandes investimentos no Ministério Público dos países do continente. “Estudei isso”, diz Boaventura, “por conta do caso colombiano no qual, para se fazer a tal luta contra a corrupção, contra a guerrilha, se fez um Judiciário musculoso, muito agressivo, inquisitorial e nada respeitoso em relação aos processos em nome da luta contra as drogas e contra o terror”.

Depois do sucesso na Colômbia, o modelo se repetiu no Paraguai e, como eu havia previsto em fevereiro de 2015, no Brasil.

Neste momento, como ficou evidente na decisão do Superior Tribunal Eleitoral que na sexta-feira negou o registro da candidatura Lula, a democracia no Brasil nunca esteve tão frágil. E continuará assim, caso a esquerda, se afinal vencer as eleições, adotar mais uma vez uma política de alianças com políticos da direita.

E quem o diz não sou eu. Recorro-me mais uma vez ao sociólogo português, para quem se um governo de esquerda pensar em alianças, nesse momento, vai ser traído em um segundo momento.

“E não é preciso esperar por um Temer, vai ser uma coisa muito mais grotesca e mais rápida”, adverte Boaventura. “Vão ter que aprender que não há e não vai haver uma conciliação de classes nos próximos tempos porque a direita mostrou que efetivamente isso não é um arranjo de conjuntura, ela quer continuar a ter o poder todo nas mãos, o poder político, econômico e social”.

Como eu disse, a direita se lambuzou. Mais ainda, no pré-sal, que “já está profundamente minado”, reconhece o sociólogo português. Boaventura só vê uma saída para a esquerda, caso retorne ao governo: o enfrentamento.

Como enfrentar essa direita tão fortalecida nos últimos anos, eis a questão. Se alguém souber, que se manifeste.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios