Os 100 anos bem vividos do professor José Mendonça

José Mendonça, em foto de arquivo da UFMG

Texto escrito por José de Souza Castro:

Há dois meses, ao defender a reforma da Previdência Social, Michel Temer disse que daqui a pouco o brasileiro viverá 140 anos. Evidentemente, não o levei a sério. Se sua praga vingasse, eu teria que viver ainda uns 67 anos. Não dá. Eu costumo lamentar quem tenha que viver 100 anos. Só conheço dois. Um vive se queixando, porque a morte o esqueceu, mas levou, bem antes, pessoas queridas, como as duas esposas e o amigo Juscelino Kubitschek. O outro é José Mendonça, cuja família vai comemorar seus 100 anos de vida no Espaço Floricultura, dia 9 de dezembro, em Belo Horizonte.

José Mendonça foi meu professor de Jornalismo na Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG) em 1969 e 1970. Devo ter sido um dos piores alunos que ele já teve. Eu era jovem e arrogante demais. Confundia sua simplicidade e humildade com ignorância. Eu, idiota. Ele, sábio – como vim a compreender só muitos anos depois.

Além de professor, ele era o chefe do Departamento de Jornalismo e diretor da sucursal do jornal “O Globo” em Belo Horizonte. Um dia, eu disse a outro professor, Plínio Carneiro, que jamais trabalharia naquele jornal. Já então, um paradigma de jornal reacionário. “Você ainda vai morder a língua”, ele riu.

Essa sim, uma praga que pegou. Na década de 1980, demitido do “Jornal do Brasil”, depois de 16 anos no então mais importante jornal brasileiro e, em seguida, do “Estado de Minas”, o maior jornal dos mineiros, como ele próprio propagava (mas que era outro jornal, eu dizia, onde jamais iria trabalhar) fiquei 40 dias desempregado e cheguei a pensar em comprar um caminhão para ser motorista e ajudar minha mulher a sustentar os quatro filhos.

Salvou-me da estrada uma oportunidade de recomeçar a carreira como repórter da sucursal de “O Globo”. José Mendonça não era mais o diretor e Plínio Carneiro havia morrido. Aceitou meu pedido de emprego o diretor de então, Rodrigo Mineiro. Afinal, foram dois anos muito gratificantes, nesse retorno à reportagem, ideologia à parte.

Chega, porém, de falar de mim.

José Mendonça foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas no começo da década de 1950. Foi também diretor do jornal “O Diário”, da Mitra Diocesana de Belo Horizonte, por muitos anos. Era, talvez, o mais importante jornal católico do Brasil.

Em 1957, foi um dos que convenceram a UFMG a criar um curso de Jornalismo – o primeiro de Minas. A Faculdade de Filosofia se opunha. Não entendia que seria possível elevar o baixo nível da imprensa mineira mediante um curso universitário. Uns três anos depois, porém, aceitou abrigar um curso sobre prática de jornalismo organizado pelo “O Diário”, com duração de apenas três meses. As vagas foram logo preenchidas. Veio a ser a semente do futuro curso de Jornalismo da Fafich. Não existia tal curso no Brasil reconhecido pelo Ministério da Educação. Foi uma luta, conduzida bravamente por José Mendonça, mas foi reconhecido pouco antes de eu me formar, em 1972. Saí do curso empregado em jornal.

José Mendonça fizera parte da Comissão de Constituição do Curso, indicado pelo Sindicato dos Jornalistas, juntamente com os jornalistas Anis José Leão e Adival Coelho de Araújo, como representantes do meio profissional. A ênfase do curso eram as disciplinas humanistas ministradas por professores da Fafich, ficando os profissionais de jornal com o ensino de redação e técnica de jornal. O curso começou em março de 1962. Plínio Carneiro estava, como aluno, na primeira turma. O curso tinha duração de três anos, aumentada para quatro em 1965. Três anos depois, com a Reforma Universitária feita pelo regime militar, foi criado o Departamento de Comunicação da UFMG. José Mendonça foi seu primeiro diretor, de 1969 a 1974.

Dois de seus alunos, Manoel Marcos Guimarães, que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais e assessor de imprensa da UFMG, e Flávio Friche, um de meus colegas bem sucedidos na profissão, juntamente com a historiadora Maria Auxiliadora de Faria, escreveram em 2009 uma biografia dele – “José Mendonça: a vida revelada” –, publicada pela Editora UFMG.

Segundo os autores, o professor Mendonça manteve “absoluta dedicação a todos os empreendimentos de que participou, sempre de maneira discreta, porém firme, sem qualquer sinal de vaidade ou de procurar atrair holofotes”. Não nasceu em Belo Horizonte, mas há 81 anos mora aqui. Formado em Direito, começou em jornal em 1938, no “O Diário”. Antes de entrar no Globo, foi correspondente da “Folha de S.Paulo”.

Há muitos anos não o via. Espero revê-lo na festa dos 100 anos – fui convidado, com muita honra. Em julho deste ano, o professor Anis José Leão escreveu em seu blog – um tanto desativado, segundo ele, por causa de velhice e doença – que havia acabado de visitar o velho amigo em companhia de Manoel Marcos Guimarães.

“Ele está muito esquecido e repetitivo”, escreveu Anis, “mas reconhece prontamente as pessoas de sua relação. Em dezembro próximo, ele fará 100 anos. Amigos comuns me disseram que a mudança dele, da casa para apartamento em outro bairro, abateu algo do seu ânimo”.

Não desanime, professor. Não leve em conta os maus presságios de Temer para os brasileiros desassistidos da Previdência, de que falei no início. Mas, se tiver de viver ainda muitos outros anos, que seja você, e não ele. E que a seu lado continuem Maria Teresa, a esposa, e as filhas queridas. Elas que estão a promover sua festa – uma prova de que foram 100 anos bem vividos.

É hora, pois, de comemorar com uma cerveja bem gelada, como nos velhos tempos.

Saúde!

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