Saia justa de Aécio e Gilmar no WhatsApp

Amigos de longa data! Nesta imagem, Gilmar Mendes visita Aécio Neves, então governador de Minas, em 2009. Foto: Omar Freire/Imprensa MG/Divulgação

Texto escrito por José de Souza Castro:

Mal assumiu o governo de Minas em 1983, Tancredo Neves começou a articular a sucessão do general Figueiredo na presidência da República. No ano seguinte, derrotada a luta pelas Diretas Já, ele foi indicado candidato pela Aliança Democrática. Em 1985, Tancredo foi eleito presidente do Brasil. O que ele mais temia, durante suas articulações, era ter seu telefone grampeado pelo governo federal.

Quando precisava falar com um correligionário ao telefone, sempre que podia o governador usava o telefone do amigo Murilo Valle Mendes, na mansão do presidente da Construtora Mendes Júnior no Bairro das Mangabeiras, vizinha ao palácio construído pelo governador Juscelino Kubitschek e que serviu de residência a todos os governadores mineiros. Entre eles, o neto de Tancredo, que parece não ter aprendido com o avô naquele tempo, mesmo sendo seu secretário particular.

Houvesse aprendido, Aécio Neves não teria se metido neste ano de 2017 numa saia justa com o ministro Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“O relatório da Polícia Federal, tornado público pelo STF, revelou que 46 ligações foram realizadas via WhatsApp entre os telefones de Aécio Neves e Gilmar Mendes, de fevereiro a maio de 2017. Uma das ligações aconteceu no dia em que Gilmar deu uma decisão favorável ao tucano”, informa nesta semana o jornal “Folha de S.Paulo”.

Um dos telefonemas entre Aécio e Gilmar foi grampeado no dia 26 de abril pela Polícia Federal, com autorização do STF, no âmbito da Operação Patmo. O senador mineiro pede a Gilmar Mendes que telefone para o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e lhe diga para acompanhar a posição de Aécio, que é “mais sensata”, num projeto de lei que seria votado naquele mesmo dia no Senado, tratando de abuso de autoridade.

Além de prometer telefonar a Flexa Ribeiro, Gilmar disse a Aécio que já havia telefonado para os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Antônio Anastasia (PSDB-MG). Quatorze segundos depois de encerrar o telefonema com Gilmar, Aécio ligou para Flexa Ribeiro e avisou que “um amigo nosso em comum” ligará e fará umas ponderações. Aécio, Flexa e Anastasia faziam parte da Comissão de Constituição e Justiça do Senado que acabou aprovando o texto defendido por Aécio e Gilmar.

Vinte e dois dias depois, Aécio foi afastado do Senado (e substituído por Tasso Jereissati na presidência do PSDB) por ordem do Supremo. Motivo, a gravação feita por Joesley Batista, do frigorífico JBS, sobre um pedido de R$ 2 milhões feito por Aécio para arcar com os custos da própria defesa na Lava Jato. Em delação premiada, Joesley afirmou ainda que pagou R$ 63 milhões como propina em 2014, quando Aécio era candidato a presidente.

Segunda-feira, em entrevista em Porto Alegre, Gilmar disse ser ilegal a divulgação de interceptações que não sejam úteis ao processo, classificando-a de “fofocagem no plano das instituições”. E ensinando: “É um certo assanhamento, uma certa irresponsabilidade, só que feita não por ativistas, mas por gente que tem responsabilidade institucional: delegado, ministro, juiz… isso não pode se fazer. Isso é abuso de autoridade.”

É o mesmo Gilmar Mendes que no dia 18 de março do ano passado suspendeu a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil, com base numa interceptação telefônica feita ilegalmente pela Polícia Federal entre o ex-presidente da República e a então presidente Dilma Rousseff. A decisão foi proferida em ação apresentada pelo PSDB e pelo PPS.

Classificando a nomeação de Lula como uma falsidade e sem entrar no mérito da divulgação ilegal de uma gravação telefônica ilegal, Gilmar Mendes afirma na sua decisão: “O objetivo da falsidade é claro: impedir o cumprimento de ordem de prisão de juiz de primeira instância. Uma espécie de salvo conduto emitida (sic) pela Presidente da República”.

O erro de concordância não vem ao caso. Irrelevante, diante de tudo que já se viu e ouviu de Aécio Neves e Gilmar Mendes – dois tucanos que se cheiram.

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