Texto escrito por José de Souza Castro:
“Lucro da Petrobras cai 15% no 2º trimestre, para R$ 316 milhões”, diz manchete do G1, portal do Grupo Globo. “Em relação ao 1º trimestre, queda foi de 93%”, acrescenta.
Na opinião do presidente da empresa, Pedro Parente, o resultado foi positivo, mas o segundo trimestre foi afetado por “motivos extraordinários”. Ficou por conta do próprio leitor descobrir que motivos foram esses. Para o site do jornalista Paulo Henrique Amorim, Parente derrubou o lucro da Petrobras “para vendê-la”.
Opinião que coincide com a da Federação Única dos Petroleiros (FIP), nesta nota divulgada mais tarde. Os quatro parágrafos iniciais são bastante esclarecedores (ao contrário da reportagem do G1):
“Os resultados da Petrobrás neste segundo trimestre confirmam os alertas da FUP e de seus sindicatos: a gestão Pedro Parente mente para a sociedade, mente para os acionistas e mente para os trabalhadores. Apesar de ter alcançado um lucro operacional de R$ 15 bilhões, 5% superior ao do primeiro trimestre, a empresa registrou lucro líquido de R$ 316 milhões, 93% abaixo do período anterior.
Só em antecipação de pagamento de tributos ao governo federal, a Petrobrás gastou R$ 6,2 bilhões, praticamente o mesmo valor obtido com a venda da Nova Transportadora do Sudeste (NTS): R$ 6,97 bilhões. Dinheiro que chegou aos cofres do governo justamente quando Temer precisava de caixa para cobrir os R$ 15 bilhões que liberou em verbas para salvar o seu mandato e aprovar a reforma trabalhista.
Pedro Parente, que assumiu a Petrobrás anunciando que não haveria mais interferência política na empresa, faz exatamente o oposto, direcionando a companhia para atender aos interesses do governo Temer e favorecer os grupos privados do setor de óleo e gás. Neste segundo trimestre, a Petrobrás amargou a menor produção de derivados dos últimos sete anos (1,798 milhões barris/dia), reflexo do desmonte das refinarias, que estão operando com carga cada vez mais reduzida, enquanto o país aumenta a importação de gasolina e diesel.
No primeiro semestre, a importação de derivados cresceu 33% em relação ao mesmo período do ano passado, beneficiando as importadoras. Ao reduzir a participação da Petrobrás no refino e na distribuição, a gestão Pedro Parente acelera o processo de desindustrialização da companhia, que deixa de ser uma empresa do poço ao posto, para se configurar como uma exportadora de óleo cru, passando a atuar do poço ao porto.”
Como já mostrei, Pedro Parente é o tipo de negociante que desdenha para vender. Ele tenta despistar, na última entrevista: “Tivemos um resultado bastante expressivo no primeiro semestre. Nosso lucro operacional aumentou 5% e por motivos extraordinários tivemos lucro líquido menor no trimestre, mas pela segunda vez tivemos lucro líquido no semestre, o que não acontecia há muito tempo”, afirmou.
Aos que encomendaram seu serviço, o presidente da Petrobras tem o que mostrar. Reduziu em um ano, em 18%, o número de empregados, que caiu para 63 mil, e em 7,6¨% o valor do investimento no segundo trimestre, em relação ao primeiro (para R$ 10,3 bilhões). Ativos foram vendidos a empresas multinacionais. O G1 prossegue: “O plano de negócios da Petrobras prevê arrecadar mais US$ 21 bilhões com a venda de ativos”, podendo também “realizar ainda neste ano a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da sua subsidiária BR Distribuidora, líder de distribuição de combustível no Brasil, com cerca de 8 mil postos em todo o país. Há cerca de dois anos, o UBS avaliou a unidade de combustíveis da empresa em cerca de US$ 10 bilhões”.
A justificativa do governo Temer para o desmonte da maior estatal brasileira é a necessidade de diminuir seu endividamento. Uma farsa, segundo a FIP:
“Mesmo com tantos ataques, a Petrobrás gerou no semestre R$ 22,7 bilhões de caixa, 70% a mais que no primeiro semestre de 2016, resultado que poderia ser melhor, não fosse a redução dos investimentos e do ritmo de exploração de petróleo nos campos fora do pré-sal. Cada vez fica mais claro que a empresa tem fôlego para sair da crise sem precisar se desfazer de ativos estratégicos. As alternativas que os petroleiros propuseram na Pauta pelo Brasil, como o alongamento da dívida, estão se confirmando como estratégias importantes para gestão da dívida.
Os problemas da Petrobrás não são estruturais, como tentou fazer crer Pedro Parente para justificar a falácia de que a companhia estava quebrada. A imagem que tentou construir de gestor técnico, cuja missão era “salvar” a empresa, não passa de uma farsa. O objetivo sempre foi tentar legitimar a privatização de todo o Sistema Petrobrás, o que não conseguiu fazer no governo FHC. Só não viu quem não quis.”
Muito esclarecedor este artigo de Leonardo Guerra, economista, e Günther Borgh, especialista em sistemas de produção industrial. Eles afirmam que a conta petróleo registrou neste ano superávit de US$ 3,8 bilhões, e comentam:
“Sem dúvida, este é um fato digno de destaque, mas que, além da nota oficial do Departamento de Estatística do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, nada mais se falou a respeito. Este silêncio sepulcral é muito preocupante, pois um fato extremamente caro para a sociedade brasileira passa despercebido neste momento de crise nacional onde todos se veem sem perspectivas para o futuro.”
Esse silêncio e a ausência de debate podem sair caro para os brasileiros. Entre os quais, poucos sabem que nos primeiros 16 anos deste século a produção nacional de petróleo cresceu quase três vezes, o que demonstra “uma enorme capacidade de superação de desafios e neste momento é oportuno lembrar os benefícios trazidos”, dizem os autores. “Em 2014, no ano da menor taxa de desemprego da história, 40% do investimento industrial estava associado ao pré-sal”, acrescentam.
Leonardo Guerra e Günther Borgh reúnem num artigo de pouco mais de mil palavras informações que dificilmente se encontram na imprensa comercial brasileira. Parece não interessar a ela que os brasileiros saibam o que estão perdendo. Não sabendo, se calam. Calando, consentem…
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