O que o correspondente do ‘Guardian’ descobriu após 5 anos no Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Correspondente do jornal britânico The Guardian na América Latina desde 2012, o jornalista Jonathan Watts, que morou neste tempo no Rio de Janeiro, despede-se do Brasil de forma melancólica. Em cinco anos, ele se convenceu de que longe de sermos um novo modelo de desenvolvimento, nos transformamos num estudo de caso de como não dirigir um país.

Quando aqui chegou, depois de ter sido correspondente do mesmo jornal na China, afirma Watts ter encontrado um país cuja economia em expansão havia acabado de superar a do Reino Unido; o governo popular esquerdista estava reduzindo a desigualdade; o desmatamento da Amazônia diminuía; os negociadores brasileiros tinham exercido papel positivo nas negociações sobre clima e biodiversidade; e a cidade onde ia morar hospedaria o Rio +20 Earth Summit, a final da Copa do Mundo de 2014 e os jogos olímpicos de 2016.

Vindo de uma experiência com Estados comunistas do leste asiático (China e Coréia do Norte), Watts surpreendeu-se com o acesso fácil aos líderes da democrática América Latina. Sua meta era conseguir entrevistar no primeiro ano Dilma Rousseff, Marina Silva e Alfredo Sirkis. E encontrou-se com os três na primeira semana. Descobriu que o problema não era falar com políticos nesta parte do mundo, mas conseguir que eles parassem de falar.

Descobriu também que os cariocas pareciam menos focados em educação, cultura história, ciência e trabalho do que os moradores de Pequim. E que os brasileiros podiam ser extremamente conservadores. Votaram repetidas vezes em políticos mais direitistas e muitos foram às ruas para pedir a volta da ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985.

Watts surpreendeu-se com a burocracia grotesca que encontrou ao chegar aqui, com a desigualdade reinante ainda no Brasil – um legado duradouro da maior nação escravocrata do mundo – e com sobrepreço dos aluguéis e dos iPhones — “os mais caros do mundo”.

Os últimos cinco anos, reconheceu Watts, foram um período espetacularmente tumultuado, abrangendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a pior retração econômica em 100 anos, o maior escândalo de corrupção da história do país, os milhões saindo às ruas para protestar, uma inimaginável goleada de sete a um na Copa do Mundo, a epidemia de Zika na véspera da Olimpíada e o ressurgimento dos crimes violentos e da destruição ambiental.

Segundo o jornalista britânico, é impossível não se sentir entristecido com o país. Em certos aspectos, a história do Brasil de 2012 a 2017 tem sido o inverso da China de 2003 a 2013, diz.

Depois de descrever os desastres ambientais no Brasil e noutros países latino-americanos, Watts lamenta: enquanto cientistas se tornam mais alarmados, políticos estão ficando menos desejosos de agir. Em resposta às demandas do lobby da agroindústria, Dilma Rousseff relaxou o Código Florestal e o governo atual, de Michel Temer, estraçalhou o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, diluiu as regras de licenciamento e se move para reduzir o tamanho dos parques florestais e dos territórios indígenas.

Conhecemos relativamente bem tudo isso, apesar das deficiências de nossa imprensa, mas não deixa de chocar quando nossa triste realidade é relatada, competentemente, por um correspondente estrangeiro de um dos jornais mais importantes do mundo. Quem quiser ler o artigo no original pode acessar AQUI.

Ah, e por falar em deficiência de nossa imprensa, vale ler aqui o que se passa quase despercebido entre nós, em Minas.

Boa semana a todos.

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s