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Quando ter sangue bom é ruim

Uns seis anos desde a última vez, aproveitei meu dia de folga para doar sangue.

Demorei a doar de novo porque, naquela vez, cheguei a ter tonturas e passar mal durante a doação, tive que ficar deitada “de cabeça pra baixo” por uns minutos até me recuperar, e sempre fiquei com um certo medo de tentar de novo desde então.

Mas lá fui eu.

Primeiro, a espera até ser atendida pelo cadastro. Depois, a espera até fazer o teste de anemia (que dá uma picadinha no dedo anelar direito). Depois, a espera até ser entrevistada por uma enfermeira.

(As esperas são, em cada vez, curtas, mas mesmo assim fiquei pensando como é difícil ser voluntário por estas paragens.)

Na entrevista, perguntas como:

— Teve relações sexuais com um garoto de programa?

— Faz acupuntura?

— Tem tatuagem ou piercing?

— Faz ou já fez uso de drogas?

— Já recebeu sangue de alguém?

— Teve resfriado nos últimos 30 dias?

— Sente-se bem?

etc. Achei engraçado não perguntarem se eu bebi, se estou grávida e se dormi mais de oito horas na última noite.

Saí de lá, para a sala de doação, com um papel orientando coisas como:

“Se estiver sangrando pelo local da punção da agulha, não dobre o braço e aperte o local com um algodão.”

“Caso venha a sentir tontura ou mal estar após a saída do hemocentro, solicite auxílio a alguém e deite-se.”

“Se esses sintomas persistirem, peça que alguém lhe traga ao hemocentro ou a um pronto-socorro mais próximo.”

Já entrei na sala de doação tensa.

Lembrei que, toda vez que preciso fazer exame de sangue, as enfermeiras falam: “Nossa, como sua veia é fininha! Não acho ela…” e ficam me picando em vários lugares diferentes. Isso é um pesadelo pra mim.

Assim, fiquei aliviada quando a enfermeira Anne encontrou minha veia rapidinho e começou a operação.

“Quando tempo dura?”

“De 10 a 15 minutos”, assegurou.

Fiquei abrindo e fechando a mão, respirando fundo, de olho na novela “Mulheres de Areia” (quanta gente antiga, que nem atua mais!), pra tentar me distrair dos ponteiros do relógio e da sensação de sangue passando pelo tubinho de plástico acima da minha pele.

Na minha frente, uma menina estava já na terceira enfermeira tentando encontrar sua veia. Lembrei do meu pesadelo e da última doação e comecei a ficar nervosa.

“Tá acabando, Cris, só mais um pouco”, pensei, às 15h30.

Eis que Anne volta e olha, preocupada, para meu braço.

“Ué, parou de sair…” disse, já chamando a enfermeira Tereza, mais experiente.

“Será que perdeu a veia?”, disse uma das duas, mexendo com a agulhona, de forma dolorida.

“Não, é que coagulou o sangue, olha”, mostrou Tereza.

Comecei a suar frio. Será que é ruim coagular o sangue no meio da doação? O que quer dizer isso?

“Você pode tentar fazer um novo furo, mas veja se ela quer”, disse Tereza, olhando pra mim que, àquela altura, devia estar branca como um papel. “Não, acho que ela não quer.”

“Por que meu sangue coagulou?”

“Porque ele é bom”, disse Anne. “Se você um dia tiver um acidente, ou hemorragia, tem mais chances de viver.”

“Aposto que, quando você machuca, só passa uma pomadinha no lugar e sara logo, né?”, perguntou Tereza.

Respirei aliviada. Então meu sangue é bom, quem diria.

Ela mediu minha pressão. Lá embaixo. Me deu um suco e não me deixou sair até que a pressão subisse para 10 por 7.

Só conseguiram tirar 200 ml de mim. A bolsa tem 470. E, o pior, não dá para aproveitarem meu sangue, porque, pela quantidade, a concentração de coágulos é muito grande.

Ou seja, sofri por duas horas e os 200 mililitros de sangue tirados de mim, do tipo A+, o mais ordinário, não serão aproveitados por ninguém.

Me senti inútil por ter (e ser) sangue bom. E meus planos de doar medula óssea foram, temporariamente, deixados de lado agora…

Com flash
Sem flash.

É menos fresco que eu e quer doar sangue? CLIQUE AQUI.

(Principalmente se você tiver o mágico sangue tipo O-. Aí é quase obrigação ser doador! :P)

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

30 comentários em “Quando ter sangue bom é ruim Deixe um comentário

  1. Aaaai! Já fiquei assim uma vez, mas graças a deus minhas veias são fáceis.

    Quando eu tiver tomando menos remedinhos vou fazer uma doação.

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  2. Eu sempre desconfiei que você tinha sangue bom, Cris. Parabéns pela tentativa. Daqui a seis anos, quem sabe…

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  3. Cris, já comentei no face, mas reforço por aqui que vc realmente teve azar… Mas para que outros que pensarem em doar não pensem que é sempre assim… Eu faço doação de 4 em 4 meses, pois é o tempo que mulher precisa esperar para doar de novo, e nunca tive problema… é mesmo coisa de 10 a 15 minutos, muito tranquilo… E cada vez mais o atendimento tenho visto que fica melhor. Aqui no Hemominas o atendimento é excelente. Eles mandam seus exames depois na sua casa, mandam cartinha lembrando que passou os 4 meses e dando o telefone para agendarmos nova doação, o atendimento é atencioso, sem muitas esperas e o lanchinho uma delícia! Sugiro a todos para doarem sempre que puderem e não só quando um parente ou amigo precisar. Antes eu só doava quando alguém próximo precisava e depois vi que não preciso ir lá só nos momentos ruins, mas sempre que posso… Incentivo a todos experimentarem e tb não desanimarem se a primeira vez não for boa. A primeira vez que vamos, estamos sempre mais tensos e isso reflete na doação, pois sua pressão pode cair um pouco no final ou durante. Comigo tb foi assim, mas da segunda vez já foi tranquilaço. De qualquer forma, vc está ambarado por várias enfermeiras e médicos, que sabem lidar com isso, então relaxe… Ah, e fica a dica: das diversas vezes que doei, nunca olhei pro “cacete de agulha”. Quando a gente não olha, parece que tudo é mais tranquilo e rápido. Ver agulha, sangue e tudo mais deixa a gente mais nervoso e aflito pra acabar. Eu só viro pra enfermeira e falo: “pode fazer o que precisar, mas eu não vou olhar.” Viro a cara e daí a 10 minutos tá pronto. E salvei um (ou mais) vida(s). Fica a dica e doem tb!

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    • Na primeira vez eu passei mal, na segunda, meu sangue coagulou e desperdiçou os 200 ml retirados… enfim, não quero fazer campanha contra a doação (longe de mim! Acho lindo que vai doar a cada 90 dias!), mas vou demorar um pouco a encarar de novo. Ah, e nas duas vezes fiquei com essa “tatuagem” de viciado em heroína =/
      bjos

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  4. minha experiência é exatamente o contrário da sua

    doei uma vez só na vida (tenho aflição de agulhas) no hemominas

    achei o tratamento pelos funcionários tão bom que eu me senti num país de primeiro mundo

    o lance do sangue coagular nem sempre é bom. Quem tem ataque cardíaco fica tomando aspirina prá deixar o sangue mais ralo e evitar outros entupimentos

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  5. Cris, eu também tive o mesmo problema da última vez que doei! Meu sangue parou de sair, hehe… chato, né? Mas o cara não disse que o sangue era bom não, só perguntou se eu ainda estava viva :D. Não doei de novo ainda (na vida devo ter doado umas 4 ou 5 vezes) porque não me organizei, mas pretendo. O chato é que das últimas vezes que tirei sangue para exame foi uma luuuuta achar uma veia!
    Quanto à doação de medula óssea, nada a ver com doação de sangue, viu? A primeira coisa a fazer é se cadastrar na AmeO (Associação de Medula Óssea), e para isso só é preciso tirar um ou dois tubinhos, que ficam armazenados no banco. Quando eles acham alguém que pode ser compatível, fazem os demais testes de compatibilidade e, se der certo, só aí você doa.
    E a doação não tem nada a ver com a de sangue: tem internação por um dia, anestesia (acho que geral) e uma agulhona entra no seu osso da bacia – você não sente nada, claro. Enfim, dou o maior apoio para você se cadastrar, assim que seu braço se curar, hehe. Eu sou cadastrada há uns cinco anos e nunca me chamaram (tem que manter os contatos em dia), mas isso é porque realmente é muuuito difícil achar gente compatível. 😦

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  6. Quanta tortura para duas horas, Cris. Valei-me minha nossa senhora! E pior: passou por esse tormento todo para, no fim, o seu sangue não ser aproveitado. Mas, pelo menos, você ficou sabendo que ele é bom – ter e ser, como você disse.

    Portanto, a senhorita não deve se sentir uma inútil, pois não é. (Falando assim, vão pensar que a conheço há anos e pessoalmente, hehehehe) Só não estava em um “dia propício” para doar. Seu gesto foi fenomenal. 🙂

    Quem dera eu poder doar. Não posso porque meu IMC é bem baixo. Quem sabe um dia, quando eu ficar com o peso na medida. =D

    Beijos!

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      • Hahahahahahahahahahaha!

        E olha que eu sou muito bom de garfo, Cris! Como bastante mesmo. Família, amigos, o meu médico etc. todos ficam de cara. Faço cinco refeições ao dia, todas saudáveis. Mas não ganho massa, porque esta, em mim, é magra. Ou seja, sou aquele “magro de ruim”.

        Sou, digamos, feliz por ser magro, mas confesso que gostaria de ter uns “ossos fortes”, “cheinho”, hahaha. 56 kg para 1.83m é Freud. Meu IMC é 16, 7. O certo seria pesar a partir de 62 kg, ai seria considerado “normal”. Mesmo assim acho que eu não poderia doar sangue. Acredito que só de acima de 70 a 80 kg.

        Pense engordar isso tudo. Meio complicado, porque além de eu ter massa muscular magra, tenho intolerância à lactose, uma doença chamada Retocolite Ulcerativa – tomo remédio para controlá-la – e não pratico esporte (só trabalho, escrevo, leio freneticamente – jornal, sites, blogs etc. -, assisto seriados e filmes, escuto música a beça e componho songs na minha guitarra).

        Mas reza a lenda que o homem engorda depois que casa. Será? Hehehe!

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  7. Vixi! Acho meio difícil, Cris! Já fiz musculação duas vezes e não deu resultado. Nem ganhei, nem perdi. Acho que sou caso de ciência. Hehehe. Meu negócio é água. Vou voltar a fazer natação. Isso é faço, e acredito que no mês que vem, quando estarei mais folgado. É o único esporte que gosto de praticar. Fiz por 7 anos. Bons tempos aqueles.

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  8. poxaaa fiquei chateada hojee.. Queria tando doar sangue, foi a primeira vez que eu fui, fiz a inscrição tudo direitinho… Mais quando chegou na hora da doação, não encontraram a minha veia.. fiquei chateada, pois tenho vontade de doar… O jeito é tentar mais uma vez :/

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  9. Eu sou doador de sangue já algum tempo, sou policial, sempre tem alguém no quartel atrás de doadores e eu sou um deles, acontece que hoje eu foi fazer uma dessas doações, mas pra minha surpresa meu sangue coagulou pela primeira vez, no meio da doação, confesso que fiquei muito preocupado pois nunca tinha acontecido isso comigo, primeiro a técnica furou meu abraços esquerdomas o sangue não saiu, ela olhou examinou disse que a agulha estava dentro da veia mas não estava entendendo porque não estava saindo o sangue, coagulou disse a outra técnica, passou para o outro braço, furou e ficou normal saindo o sangue, com mais um pouco de tempo parou de funcionar, o sangue novamente coagulou, e foi desperdiçado o sangue com o recipiente acima de meio, disse que era normal, que o meu sangue era muito bom, mandou que eu fizesse um lanche e volta se na próxima semana.

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  10. Aconteceu o mesmo comigo hoje, mas sempre doei desde os 18 anos, hoje tenho 24, mas nunca tive problemas ou impedimento quanto a doação. Fui doar hoje e na metade do procedimento o meu sangue coagulou, fiquei preocupada, pois não tenho nenhum problema de saúde e isso nunca aconteceu antes. Meu sangue é O+. Perguntei da enfermeira se era bom ou ruim, mas ela não soube me responder. Teu post me ajudou, obrigada.

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