
Eu confesso: sou sonâmbula*.
E geralmente trago as aventuras diurnas para as aventuras do sono.
Sempre fiz isso. A diferença é que quando eu era criança, meus sonhos tinham piratas, detetives (muitos detetives!), trens descarrilhando, crimes a desvendar e trocentas outras fantasias que eu fermentava com as leituras e filmes e com a minha imaginação infantil.
Naquela época, o máximo que acontecia era eu levantar e abrir a janela, à noite, dormindo, ou acordar com um cobertor misteriosamente largado no box do banheiro.
Na adolescência, quando entrei para a equipe de natação do Minas Tênis Clube (o que ainda vai virar post), um dos meus hábitos noturnos era nadar crawl pra lá e pra cá na minha caminha de solteiro de 1,80 m. Nos meus sonhos, estava treinando os rapidíssimos tiros, em meio a apitos nervosos do técnico, Luiz Alberto. Acordava exausta, no meio de uma braçada.
Aos 19, quando entrei para o Banco do Brasil, comecei a caminhar pelo quarto dormindo, sonhando que ali havia caixas-rápidos e eu estava com um cartão magnético na mão, andando pra um lado e pra outro, ajudando as velhinhas no salão do Auto-Atendimento.
Depois, comecei a calcular imensos processos de renegociação de dívidas nos sonhos — quando geralmente as contas nunca batiam. Levantava nervosa, anotando em papéis imaginários que estavam na escrivaninha ou no travesseiro, conversava com os clientes imaginários à minha frente e tudo o mais.
Sempre que eu começava uma atividade ou trabalho novos, ele invadia meus sonos por algumas semanas, até virar rotina e meus sonhos voltarem a ser preenchidos com coisas mais corriqueiras.
No jornalismo, percebi que os sonhos com trabalho estão mais comuns. E a única explicação para isso é que cada dia é uma nova pauta diferente, não há uma rotina propriamente dita. E assim, muitas vezes, acordo exausta, ou nervosa, com a sensação de que trabalhei a noite toda (já ouvi de alguns espíritas que isso não deixa de estar longe da verdade, para eles. Em algumas manhãs, quase chego a acreditar que têm razão).
O que me conforta é que dizem que é no sono que gravamos a fundo na memória o aprendizado do dia. Se além de lembrar eu ainda executo cada coisa, então, dentro de uns anos, serei um gênio ;)
[Ou, como bem ilustra o desenho abaixo, não me restarão mais neurônios com energia e titio Alzheimer me saudará]






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