Campos de concentração nazista de loucos no governo Bolsonaro?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)

Entre as regressões possíveis no governo Bolsonaro, uma já foi assinalada, sem que a imprensa e os eleitores tomassem conhecimento, ainda durante o governo Temer: a volta dos manicômios. Tenho interesse especial nesse tema, mas só tomei conhecimento da novidade ontem no blog Viomundo.

Soube da existência de manicômios ainda menino, ao ouvir, no começo dos anos 50 do século passado, que um irmão de meu pai – o tio Vital, nascido em 1899 em Santo Antônio do Monte, vivia desde jovem num hospício de Barbacena.

O horror dessa situação, porém, só me bateu forte quando o “Jornal do Brasil”, onde eu trabalhava, acompanhou a visita do psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979, no hospital psiquiátrico de Barbacena, fundado em 1903.

Estudioso do problema dos manicômios, Basaglia comparou o Hospital Colônia de Barbacena, o maior do Brasil, a um campo de concentração nazista. Na época, o psiquiatra italiano liderava uma campanha mundial pelo fechamento dos manicômios.

Não sei se foi nesse manicômio – havia outros em Barbacena – que meu tio Vital, que ao nascer fora homenageado com o mesmo nome do pai acrescido de um Filho, passara a maior parte de sua vida. Uns sete anos antes da ida de Basaglia, Vital tinha sido libertado por um irmão, Abelardo.

Assim, ele pôde passar os últimos anos de vida em sua terra natal, na casa de uma irmã. Tinha então 74 anos. Dez anos mais novo, Abelardo, um simples empresário, descobrira que a doença do irmão podia ser tratada em casa, tomando um comprimido diário.

Algo que talvez a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Nova Política Nacional de Saúde Mental e da Assistência Hospitalar Psiquiátrica, lançada no último dia 27 de novembro na Câmara dos Deputados, não saiba.

Ou sabe, mas são deputados com interesses outros que ultrapassam a saúde mental. É possível que não tenham um tio que será condenado a viver, até morrer, num desses hospícios. Talvez, os loucos da família sejam apenas eles – os defensores da nova política nacional de saúde mental.

Nova? Basaglia riria disso, se não houvesse morrido em 1980, um ano depois de sua última visita ao Brasil.

Recorro agora ao artigo do Viomundo, assinado pela jornalista Conceição Lemes. Trecho:

“Entre os que discursaram [no lançamento da Frente Parlamentar Mista], Quirino Cordeiro Júnior, que chegou ao Ministério da Saúde em maio de 2016, com o golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT).

(…) Quirino desqualifica tudo o que foi feito na política de saúde mental no Brasil nos “últimos 30 anos” acusando-a de ”absolutamente ideológica”, entre outras coisas.

Como Quirino é coordenador de Saúde Mental desde maio de 2016, suponho que ele se refira ao período que vai de 1986 a 2016.

Quirino, aliás, tem se apresentado como o executor das políticas elaboradas por representantes do setor privado e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Há anos a ABP tenta o retorno ao modelo baseado em hospitais, que garante ao psiquiatra o controle absoluto do ‘mercado’ da psiquiatria.

É nesse contexto que se insere o artigo de Ana Paula Guljor sobre a apresentação de Quirino no lançamento da frente parlamentar.

Ana Paula é médica psiquiatra, pesquisadora da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e diretora da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).”

E o que diz a diretora da Abrasme? Alguns parágrafos:

“(…) A fala de Quirino no lançamento da Frente Parlamentar Mista Pró-Manicômio é a síntese do projeto político do governo Temer e também sinaliza o caminho que seguirá o presidente eleito.

A proposta deste grupo político se faz representar desde o ministro da saúde anterior, Ricardo Barros, por uma lógica privatista, que busca privilegiar o mercado de planos de saúde e medicina privada.

Reduz a concepção de saúde à ausência de doença.

Desta forma, o tratamento retoma um modelo biologizante restrito a intervenções centradas na medicalização e excluindo os determinantes sociais do processo saúde-doença.

Esta lógica se contrapõe ao processo proposto pela Reforma Psiquiátrica que direciona seu olhar para o sujeito e suas necessidades, não buscando apenas a remissão de sintomas.

A política em curso busca desconstruir o Sistema Único de Saúde em prol do favorecimento de nichos de mercado (indústria de fármacos, corporações médicas, medicina de grupo e planos de saúde), que passam a ditar as diretrizes dos “tratamentos eficazes”.

Esse processo leva quem tem condição econômica mediana e alta à compra de assistência médica privada e conveniada para obter seu tratamento, enquanto condena a massa da população vulnerável à desassistência.”

Desassistência? Ah, bom. Se for só isso, não teremos campos de concentração nazista para loucos no governo Bolsonaro…

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