‘Uma Noite de 12 Anos’: filme obrigatório para estes tempos sombrios

Vale ver na Netflix: UMA NOITE DE 12 ANOS (La noche de 12 años)
Nota 8

É ditadura militar. Não existe Estado Democrático de Direito. Grupos de esquerda são presos e assim ficam, por anos, sem nunca passarem por qualquer julgamento legítimo. Prisioneiros tornam-se verdadeiros reféns dos militares. Eles não ficam em presídios normais, com um mínimo de dignidade. Eles ficam em masmorras sujas, sem poder ver a luz do sol, as estrelas, sem nenhuma latrina para fazerem suas necessidades, sem qualquer banho ou atendimento médico. São torturados, rotineiramente. São proibidos de falar. De caminhar – inclusive dentro de suas minúsculas celas. O que se quer é que atrofiem mesmo, que endoidem, que não passem um único dia sem querer morrer.

E isso por 12 longos anos, como somos avisados desde o título do filme.

Proibido passar da linha branca.

Assim é a história relatada em “Uma Noite de 12 Anos”, de Álvaro Brechner, diretor nascido em Montevidéu. Assim foi durante a ditadura sangrenta no Uruguai. E assim também foi em tantas outras ditaduras militares sangrentas em toda a América Latina, inclusive no Brasil.

Este filme, disponível na Netflix, deveria ser obrigatório para estes tempos sombrios que vivemos hoje, com brasileiros pedindo a volta da ditadura militar, elegendo a presidente da República um cara que elogia publicamente um torturador contumaz, com esse mesmo sujeito celebrando o golpe militar de 1964 como se fosse um momento cívico, e não um período de atrocidades na história do nosso país.

Como escrevi há anos, estamos precisando de mais aulas de história no Brasil. Felizmente, existem filmes, como este, que contribuem para mostrar do que o ser humano é capaz. Para algumas pessoas, não basta prender, tem que destruir. O problema disso é que, muitos anos depois, quando a ditadura já acabou, ainda não conseguimos encontrar culpados, porque os soldados sempre podem dizer que “só estavam cumprindo ordens”. Como aconteceu na Alemanha nazista.

Neste filme, conhecemos mais de perto três figuras políticas importantes no Uruguai: Mauricio Rosencof (na pele de Chino Darín, filho do Ricardo Darín), Eleuterio Fernández Huidobro, o Ñato (vivido por Alfonso Tort) e José Pepe Mujica (Antonio de la Torre). Mujica, como sabemos, foi presidente do Uruguai entre 2010 e 2015 e é um dos sujeitos mais admiráveis do planeta.

Estes sobreviveram. Quantos não?

Resposta: 174 ficaram desaparecidos e 100 morreram dentro das prisões na ditadura uruguaia. Den-tro-das-pri-sões.

A propósito: no Brasil foram 434 mortos e desaparecidos durante os 21 anos da ditadura militar. A lista com nomes foi divulgada em várias reportagens, como AQUI.

Justamente porque precisamos conhecer e reconhecer nossa história, porque precisamos relembrar nosso passado e precisamos nos chocar com os absurdos cometidos à época é que filmes históricos como este deveriam ser obrigatórios nas escolas e lares. Porque é o conhecimento do passado que nos previne contra um futuro pior. Mais urgentemente ainda quando esse futuro já começou.

Assista ao trailer oficial legendado do filme:

De brinde, ouça uma belíssima versão de “Sound of Silence” (Paul Simon) que aparece em uma das cenas do filme, arranjada e interpretada pela cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz:

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De novo: quando uma foto mente

Jose Mujica

Mais uma foto que teve o contexto distorcido para espalhar mentiras pela internet

Esse assunto já está virando quase uma categoria à parte aqui no blog, mas é que, realmente, me interessa demais. Ainda mais em tempos de redes sociais, em que qualquer um pode inventar a mentira que quiser, espalhar uma foto na web e, em questão de segundos, ver aquela mentira sendo compartilhada ao infinito, sem que ninguém tenha o cuidado de checar ou apurar melhor.

Aconteceu nesta semana com uma foto de Mujica, o presidente do Uruguai. Alguma pessoa, por óbvia e pura má-fé, resolveu pegar uma foto dele, tirada por fotógrafa da AP, e dizer que é um flagrante do presidente esperando por atendimento médico em hospital público, “como qualquer outro cidadão”. Daqui a dez anos ainda vai ter gente recebendo essa foto, com a mesma legenda mentirosa, na caixa de entrada do email.

Já ouvi essa conversa demais aqui no Brasil: Dilma deveria ser atendida pelo SUS, pra ver como é ruim. Realmente, seria incrível se o SUS tivesse o padrão de um Albert Einstein da vida, mas não tem, e isso não depende só de uma canetada da presidente da República. Dito isso, espero que os chefes de Estado que passarem pelo meu país, eleitos por uma maioria de cidadãos, recebam os melhores atendimentos médicos — assim como tenham segurança particular reforçada — como é esperado para todos os chefes de Estado do mundo inteiro. Inclusive Mujica, do Uruguai.

O fato é que a foto em questão foi tirada não em uma hospital, mas na cerimônia de posse do novo ministro de Finanças do Uruguai. O Brasil Post foi o primeiro veículo a desmascarar a mentira (e nem custa tanto: basta ler a legenda das fotos de Matilde Campodonico, da Associated Press).

Também há diversas outras fotos daquele dia disponíveis no site Fotos Públicas. Como estas duas abaixo, assinadas por Adrian Giudice, fotógrafo da Presidência do Uruguai:

mujica1 mujica2Reparem que até a sandalinha não deixa mentir.

Aliás, bastava notar os dois engravatados no fundo da foto que foi espalhada pelas redes sociais para se estranhar aqueles trajes em um hospital. Eu, pelo menos, nunca vi engravatados dentro de um hospital público.

Pesquisando mais um pouco no noticiário, é possível ver que o fato de ele ter ido de sandálias à posse no ministro foi destaque nas chamadas. A explicação dada à época foi o calor de mais de 35 graus que estava fazendo no Uruguai. Dá até pra imaginar de onde o inventor de boatos copiou a foto: da reportagem do G1, que escolheu justamente aquela imagem para ilustrar o texto.

E assim ficou desmascarado mais um boato-de-rede-social. Em quantos outros será que já caímos? Cabe aos jornalistas apurarem muito bem uma foto como esta — e a da cadeirante que estava de pé — antes de divulgá-la com informações erradas. Mas, na verdade, qualquer pessoa, jornalista ou não, pode tomar esse cuidado antes de sair compartilhando mentiras. E nem é tão difícil assim, certo? O sábio Google sempre nos ajuda.

Começa com uma frase brega atribuída a Clarice Lispector, continua com uma informação errada sobre um político ou um programa do governo e termina com um chefe de Estado de outro país: seja qual for a situação, podemos frear o impulso de acreditar em tudo com um esforço primário de questionar primeiro se pode haver outra explicação.

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