Que tal fazer um álbum de fotografias para cada ano de vida do seu filho?

Nove mil quinhentos e noventa e quatro.

Essa foi a quantidade de fotos e vídeos – principalmente fotos – que fiz do (ou com) o Luiz desde que ele nasceu, há 2 anos e 5 meses.

Uma média de 11 cliques por dia.

Se Caetano perguntava, já em 1968, “quem lê tanta notícia?”, eu pergunto hoje: “Quem vê tanta foto assim?”

É irresistível e extremamente fácil sair registrando todas as caras e momentos fofíssimos dos nossos filhos, mas é muito difícil ter tempo para rever essa tonelada de imagens depois. E, mesmo se houver esse tempo, há sentido nisso? Às vezes eu penso que essa banalização da imagem só serviu pra uma coisa: desvalorizar a fotografia. A gente passa o dia inteiro deslizando o dedo na tela do celular, vendo fotos e mais fotos, e não conseguimos nem escolher uma única para eternizar num porta-retrato.

Eu posso estar ficando velha, mas me assusto com esses momentos de agilização do tempo e banalização das coisas, que vêm no mesmo pacote da ultratecnologia. Sinto saudades de sentar no sofá, pegar um álbum de fotografias, e ir passando as páginas calmamente, olhando os detalhes, lendo as observações escritas a caneta, dizendo quem é quem, onde foi tirada a foto e por quê.

Queria poder eternizar a infância do Luiz, e não afogá-la em mil cliques sem sentido. E foi com isso em mente que Continuar lendo

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Um recorte da vida, em fotos

Meu mais novo álbum!

Meu mais novo álbum!

A gente se acostumou tanto às câmeras digitais, que simplesmente perdemos o costume de revelar (ou melhor, imprimir) as fotografias dos momentos mais importantes.

Falo por mim: fui criando pastas e mais pastas de fotos no meu computador, cada uma mais bagunçada que a outra, e raramente desfruto do prazer de colocar um álbum no colo e sair folheando as imagens, relembrando as histórias por trás de cada uma delas. O excesso de fotos, ocasionado pela facilidade do clique digital, resultou na perda da importância da fotografia, em sua banalização.

Hoje é impossível alguém não conseguir sair bonitão em pelo menos uma foto, já que dá para fazer poses e biquinhos na frente das câmeras em centenas de cliques, e apagar aquelas fotos imprestáveis. Tem que ser muito feio mesmo. Antigamente, as famílias pagavam um fotógrafo para fazer a imagem de todos juntos, e isso era um evento raro, a ponto de todos se emperiquitarem. Se saísse feio, paciência.

Também é raro encontrar alguém que nunca tenha flagrado um passarinho na janela, um pôr-do-sol encantador ou cenas surpreendentes no meio da rua, ainda mais levando em conta que até os celulares, acessíveis de nossos bolsos, vêm com câmeras fotográficas em boas resoluções.

E hoje nem é preciso ser rico para ter celular. Todo mundo tem, e as câmeras deixaram de ser aquele artigo de luxo de nem tantos anos atrás.

Ok, isso tudo é bom. É sim. Mas também sinto uma saudade danada de ter apenas um filme com 36 poses para gastar durante todos os dias de férias, e ter que conviver com a seleção, com um processo de edição mesmo, edição prévia daquelas imagens que realmente valiam a pena de se clicar num universo de 36 possibilidades. E depois o suspense que era mandar para revelar e abrir o envelopinho na loja mesmo, ansiosa para saber como tinham ficado as fotos. Ah, esta queimou… Droga, esta estourou. Mas veja só que beleza! Esta foto merece até um porta-retrato.

Até os porta-retratos viraram um negócio démodé. Outro dia fui à casa de um amigo que tinha um “porta-retratos digital” (afe), em que era possível ver 500 fotos se revezando. Energia elétrica tá barata, né? Pode gastar.

Não é sempre que fico pensando sobre essas coisas. Mas hoje pensei demais. Porque hoje acabei de montar meu álbum — o primeiro desde, pelo menos, minha formatura na faculdade, em 2007! — com uma seleção de 90 fotos de momentos especiais vividos na Terra Cinza.

Veja bem, essa seleção só foi possível porque eu tinha aquelas centenas de pastinhas com centenas de fotos em cada uma, que pude vasculhar, num processo de edição, até chegar à meta das 90 mais significativas. Mas tem coisa melhor que poder folhear um álbum de verdade, com legenda e nome das pessoas que aparecem, em vez de vasculhar essas malditas pastinhas?

E quando foi a última vez que vocês montaram um álbum desses, com um recorte da vida, mostrando que aquele pedaço de história foi bem vivido e valeu a pena? Talvez seja um bom programa para este fim de semana.