Revelações ‘póstumas’ da eterna aprendiz no PT

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Imagem: Reprodução / Flickr

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Imagem: Reprodução / Flickr

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em outubro de 2015, a Cris recuperou para o blog um livro que ela havia lançado em fevereiro de 2008, quando seu blog se chamava “Tamos com Raiva”, e que se perdera em junho do ano passado. Estou falando de “Uma eterna aprendiz no PT”, de Sandra Starling. Como prometido, a autora acrescentou ao livro um posfácio que deve ser lido por quem gosta ou não do Partido dos Trabalhadores.

A autora foi uma das fundadoras do PT e primeira candidata ao governo de Minas pelo partido, concorrendo com Tancredo Neves e o candidato da ditadura, Eliseu Resende. Eram tempos heroicos do partido liderado por Luís Inácio Lula da Silva, muito bem descritos por ela em seu livro.

No posfácio, a autora dá ênfase aos motivos que a levaram a deixar o PT e, em 2014, a se declarar, em seus artigos semanais no jornal “O Tempo”, uma opositora convicta da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição.

Para tanto, na verdade, nem precisaria ter abandonado, em 2010, o partido que ajudara a fundar, pois não viu, realmente, no primeiro mandato de Dilma, um governo do PT. Pelo menos, não daquele partido que tanto amara.

E nem se diga que a culpa é exclusivamente de Dilma. Em 2003, escreve Sandra Starling no posfácio, o governo Lula “sucumbira conscientemente à ideia de buscar a governabilidade. Ainda que a preço de deslustrar as bandeiras mais caras ao PT. O que Lula dizia querer fazer se chegasse à Presidência parece hoje mais uma piada de mau gosto ou uma leviandade”.

E prossegue a autora:

“Quando anos mais tarde, Lula, em pessoa, levou Fernando Haddad para receber as bênçãos de ninguém mais nem menos que Paulo Maluf, para que o seu afilhado fosse eleito prefeito de São Paulo, ficou justificada sua frase: ‘Faço aliança até com o Diabo para ganhar uma eleição’.”

Essa metamorfose de Lula e do seu partido da década de 1980 foi mal percebida por Sandra no dia 12 de setembro de 2002, no comício em Diamantina, quando Nilmário Miranda, o candidato ao governo de Minas, a viu no meio do povo e deu-lhe sinal para que subisse ao palanque, do qual fora pouco antes barrada. Ela subiu. “Lá no palanque, Lula me recebeu com um comentário estranho: ‘Então, você agora é só uma professora?’”, relata Sandra. E continua:

“Treze anos passados – olha a coincidência com o número do PT! – vejo no episódio vários indícios do que veio a acontecer depois. Em primeiro lugar, quando fui de início barrada ao tentar subir no palanque, já ali estava uma mudança significativa no comportamento do partido. No início, os palanques eram meros caminhões (mais perto, portanto, do público) e sempre cultivamos e demos destaques àqueles que simbolizavam as lutas que nos haviam mobilizado. Depois que conseguimos eleger pessoas para diferentes mandatos, começaram a usar aqueles carros de sons mais altos, difíceis de subir, e só os que tinham cargos podiam ser convidados ao palco. Daí eu não ser mais ninguém, em Diamantina, pois era só uma professora. Em segundo lugar, a frase de Lula me dá arrepios ao me lembrar de que, historicamente, a luta dos trabalhadores no mundo inteiro começou pela busca de educação para todos. E, no entanto, ao me chamar de ‘professora’ ele mostrava que não havia importância em ser uma educadora.”

Outra parte interessante do posfácio, por sua atualidade, se refere ao episódio da exoneração de Sandra Starling do Ministério do Trabalho e Emprego. Ela era a vice-ministra. O ministro, Jacques Wagner, tinha ocupado juntamente com ela o mesmo apartamento funcional em Brasília, quando ambos eram deputados federais pelo PT. Eram grandes amigos.

Admite com pesar a autora:

“Parece que eu atrapalhava os planos da cúpula de não mexer em esqueletos escondidos nos armários. E eu – julgando ser este o desejo de Jacques, já que despachava com ele, e a posição do PT – vinha sistematicamente desbaratando as verdadeiras quadrilhas dentro do Ministério. Havia desperdícios de toda ordem – com diárias pagas indevidamente, excesso de viagens sem razão de ser, superposição de estruturas com as mesmas finalidades, desvios de função entre terceirizados e terceirização de pessoas para cargos que exigiam formação que a pessoa não possuía (mas que a levaria a ter melhores salários). Em poder de um único servidor, consegui encontrar seis celulares pagos pelo Ministério. E de outra feita, decidi fazer uma espécie de recenseamento interno, convocando a comparecerem em dia e hora aprazados todos os que lá trabalhavam: a média ficou em cerca de 10 pessoas por mesa!”

Nem é preciso lembrar: essa situação fora criada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. E só muito mais tarde, Sandra se deu conta de que Lula, no governo, não queria criar problemas com seu antecessor. Inocentemente, ela foi acumulando divergências com “diretrizes de governo” que buscavam a conciliação com o antecessor e com as regras do jogo vigente no sistema político brasileiro.

Assoberbada de trabalho no ministério, diz, “só muitos anos mais tarde é que dei de cara com a Emenda Constitucional nº 40, de maio de 2003, pela qual, com o auxílio de petistas de alto coturno, Lula conseguiu fazer aprovar antiga emenda do senador José Serra, com modificações, mas que tornava o Brasil inteiramente subordinado ao sistema financeiro nacional e internacional. Ademais, a Emenda veda à administração pública a fiscalização de bancos e de outras entidades a eles vinculados. E olha que eu e meu marido havíamos alertado Lula, através de Maria da Conceição Tavares, do que FHC fizera, em favor do sistema financeiro, via decretos, com base nas brechas do art. 52 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”.

E por aí seguem as revelações da, não mais, “eterna aprendiz no PT”. Vou parar por aqui, para não tirar ao leitor o sabor da leitura do posfácio, que ocupa as 12 páginas finais do livro de Sandra Starling, que pode ser baixado e lido AQUI de graça.

ATUALIZAÇÃO EM 25/5/2016: O livro foi removido da biblioteca do blog, a pedido da autora.

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