Um policial mineiro de mérito na lista da tortura

medalha

Foto: TJMG/Divulgação

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Luiz Soares de Souza Rocha aparece como número 298 na lista de 377 nomes de autores de graves violações dos direitos humanos, no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que pode ser lida AQUI (página 912). Os 29 primeiros nomes desta lista infamante são oito ex-presidentes da República e 21 generais, almirantes e brigadeiros que foram ministros do Exército, Marinha e Aeronáutica durante a ditadura militar (páginas 846 a 855). É provável que, se vivo estivesse, Luiz Soares não se avexasse de aparecer junto com tais personagens de nossa história recente, mas essa lista veste a Polícia Civil do Estado de Minas Gerais (PCMG) com uma vistosa saia justa.

Pois a PCMG escolheu, entre tantos policiais que ali trabalharam ao longo de seus 206 anos de existência, exatamente esse aí, ao criar, pela Lei nº 7.920, de 8 de janeiro de 1981, a “Medalha do Mérito Policial Civil Delegado Luiz Soares de Souza Rocha”, dada anualmente a policiais civis, personalidades e instituições que tenham prestado relevantes serviços à entidade (algumas homenagens: AQUI, AQUI e AQUI). Esses nomes são selecionados pelo Conselho Superior da Polícia Civil, que agora faria muito bem se escolhesse novo patrono para a medalha. A menos que queira criar saia justa também aos futuros homenageados.

Em 1981, quando a lei foi aprovada pelos deputados estaduais mineiros, o Estado era governado por Francelino Pereira, nomeado pelo presidente Geisel, o sétimo da lista da Comissão Nacional da Verdade. O governador não teve qualquer dificuldade para sancionar a lei. Quando deputado federal e presidente da Arena – o partido criado pelos golpistas de 1964 – Francelino se orgulhava de dirigir “o maior partido do Ocidente”. Era um tempo em que reinava o faz de conta, sem compromissos com a verdade. E ninguém ousaria contestar, então, o nome escolhido como patrono da medalha do mérito.

E continua sem contestação, pelo menos até agora. Só para lembrar: no dia 5 de dezembro de 2012, a PCMG realizou no auditório da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), em Belo Horizonte, a solenidade para a entrega da medalha a 35 pessoas. A Agência Minas, do governo mineiro, escreveu:

“O desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Wanderley Salgado de Paiva, falou em nome dos homenageados. Ressaltou a importância da Polícia Civil e homenageou a memória do delegado Luiz Soares. “A eficiência e bravura do delegado Luiz é um ícone de referência aos policiais. Todo aquele que tem consciência e fé na sociedade, tem força suficiente”, destacou.

O filho do delegado Luiz Soares de Souza Rocha, Marco Antônio Melo Soares, agradeceu ao desembargador pelas palavras e à Polícia Civil de Minas pela homenagem. “Felizmente meu pai protagonizou uma história da qual tanto nos orgulhamos. A polícia, como meu pai costumava dizer, não é lugar para os fracos, os tímidos e os covardes, e somente aqueles que participam dessa instituição sabem o quanto é difícil zelar pela segurança pública”, ressaltou.

(…) O delegado-geral e ex-deputado estadual, Luiz Soares de Souza Rocha, ocupou vários cargos no alto escalão da polícia, chegando a chefe da instituição em Minas. Pelo trabalho na área de segurança, a Assembleia Legislativa aprovou lei dando o nome do delegado à medalha de mérito policial entregue, anualmente, pela Polícia Civil de Minas Gerais.”

Tendo em vista o que se disse, é muito pouco o que já se escreveu sobre Luiz Soares. Pelo que me lembre, em 40 anos de profissão, nunca escrevi sobre ele. Posso afirmar, porém, sem receio de errar, que era alguém temido, tal como se teme um desconhecido que se movimenta em desvãos sombrios e perigosos, “em tempo de murici” – e não por sua bravura, como quer o desembargador Paiva. Sabe-se que antes de ser delegado, foi deputado estadual pelo PSD de Juscelino Kubitschek, na década de 1950.

No dia 29 de março deste ano, “O Tempo” publicou reportagem em que se informa que, de uma lista catalogada pelo projeto Brasil: Nunca Mais, com nomes lembrados pelas vítimas da repressão, 91 são mineiros. Entre eles, se encontra o de Luiz Soares de Souza Rocha, sobre quem se registra: “Delegado da PF; lotado na Delegacia de Furtos e Roubos de BH (1969-1970); foi Superintendente Geral da Polícia de Minas Gerais. Aparece nos registros do livro ‘Brasil: Nunca Mais’ sendo indicado por pelo menos cinco presos políticos como torturador. Além disso, também é citado em documento da Comissão Nacional da Verdade como autor da morte do militante João Lucas Alves, na delegacia de Furtos e Roubos, na rua Pouso Alegre”.

O jornalismo está nos devendo um perfil mais completo desse policial considerado por seus pares como digno de ter seu nome a batizar uma medalha do mérito policial.

Leia também:

  • CLIQUE AQUI para baixar todo o conteúdo do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.
Anúncios

6 comentários sobre “Um policial mineiro de mérito na lista da tortura

  1. O Bloomberg View publica hoje interessante artigo mostrando como o uso da tortura minou a influência e o poder dos Estados Unidos na América Latina. De São Salvador a Santiago, diz, os cidadãos do continente conhecem bem as técnicas de interrogatório da Agência Central de Inteligência. Alguns ainda têm cicatrizes mentais e físicas para provar. Em inglês: “If you want to see how the use of torture has undermined U.S. influence and power, look at Latin America. From San Salvador to Santiago, the continent’s citizens are all too familiar with the Central Intelligence Agency’s interrogation techniques. Some still have the mental and physical scars to prove it.” A íntegra aqui: http://www.bloombergview.com/articles/2014-12-12/cia-torture-made-latin-america-safe-for-china?alcmpid=view

    O artigo foi-me enviado pelo cientista político Stefan Salej, que já foi industrial e presidente da Federação das Indústrias de Minas, depois de ler meu artigo. Ontem, ele havia publicado em seu blog [ http://www.salejcomment.blogspot.com.br/ ] artigo intitulado “Das torturas lá e cá”. Transcrevo o primeiro e o último parágrafos:

    Três eventos históricos marcaram a semana: a divulgação do relatório da Comissão de Inteligência do Senado dos Estados Unidos sobre o uso de tortura pela CIA, principal agência de espionagem norte-americana, a divulgação do relatório final da Comissão da Verdade no Brasil, sobre os crimes cometidos pelos governos militares, e a chegada ao Uruguai de quatro prisioneiros terroristas islâmicos da prisão de segurança máxima Guantanamo, em Cuba.

    A questão básica dos relatórios em questão, não é só a discussão do uso de tortura, se é ou não permitido e em que grau, é como funcionam as comunidades de informações ou espionagem nos regimes democráticos. O relatório da Senadora Feinsten, disponível na internet, mostra que a CIA fazia o que bem entendia em nome da segurança dos cidadãos americanos. O mesmo diziam os militares brasileiros. Os sistemas de repressão ou de tortura funcionam à margem do governos, se internacionalizam e são poder acima de poder. E a democracia se torna assim mesmo com seus defeitos o único sistema que ainda controla um pouco isso. Na ditaduras, nem isso.

    Curtir

  2. Apesar de tudo, ainda há gente que defende a volta dos militares. Li, não me lembro a fonte, mas foi na época da ditadura, que aos ensinamentos de técnicas de torturas pelos americanos, os mineiros ainda excediam. Criaram a algema interdigital. Era um dispositivo para se colocar entre os dedos do pé. O torturado não conseguia se locomover. Se tentasse a dor era avassaladora. A tortura era contínua. Esta noticia, se não me engano, saiu por ocasião da morte no Uruguai do torturador americano Dan Mitrione,

    Curtir

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s