
Conheci a praça Marechal Deodoro, em frente à estação de metrô homônima, pouco depois que me mudei para São Paulo (2008).
Na época, ela era um local abandonado, mesmo de dia. À noite, ficava sempre escura e deserta, e eu morria de medo de passar por ali.
Por isso, recebi com incredulidade a afirmação do Siemaco, sindicato dos trabalhadores de limpeza de São Paulo, de que, após uma reforma custeada e mantida pela entidade, a praça passaria a ser um local seguro, bonito e revitalizado.
A reforma ficou pronta em janeiro do ano passado, conforme eu ajudei a noticiar na época. O sindicato colocou estátuas de bronze em homenagem aos garis, jardineiros, copeiros e auxiliares de limpeza — o que já achei da maior simpatia. Mas também colocaram gramado, flores, nova iluminação, reformaram a calçada, construíram um parquinho.
Um parquinho! Logo pensei que aquilo seria dinheiro jogado fora, ninguém ia querer brincar numa praça tão perigosa, muito menos as crianças.
Ontem à noite, no entanto, fiquei na maior alegria ao passar por essa praça e constatar meu engano. Eram umas 21h e havia mais de 30 crianças brincando por todo canto: jogando bola num campinho improvisado, brincando no parquinho e nos aparelhos de ginástica (na véspera, eu já tinha visto uma moça de seus 40 anos também fazendo exercício nos aparelhos tarde da noite). Havia um carro da GCM e o vigilante contratado pelo sindicato. Adultos sentados nos vários banquinhos, em todos os cantos da praça. Limpa, bonita, segura.
Ela ainda é mal iluminada, porque optaram por aquelas lâmpadas alaranjadas — que não são o ideal nem do ponto de vista de economia e ambiental, muito menos de segurança –, mas tinha vida! Tinha pessoas! Tinha se tornado, finalmente e efetivamente, uma praça.
(Ao contrário do conceito de vida de um não-bairro como o Morumbi, que já critiquei aqui.)
Ali estavam, afinal, os moradores de Campos Elíseos e Santa Cecília (bairros que reúnem várias camadas sociais), interagindo, brincando, se divertindo, usufruindo de um equipamento público e social de lazer, fazendo valer seus direitos de moradores da cidade.
Deixo aqui meus aplausos a esse sindicato e minha esperança de que os caros trabalhadores da limpeza de São Paulo também estejam usufruindo desse investimento feito por sua categoria. Justo eles, que são tidos como “invisíveis” em meio à poeira da cidade, criaram aquele espaço público que hoje salta à vista de todos.
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E é bom que sejam vistos!
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