A pirâmide – uma ameaça sempre atual

Texto de José de Souza Castro:

Só agora li “The Pyramid”, escrito por Ismail Kadare entre 1988 e 1992 em Tirana e Paris. É muito tempo para escrever um livro de apenas 161 páginas na edição da Arcade Publishing, de Nova York, por um escritor albanês incensado pelos que combatiam o comunismo antes da queda do Muro de Berlim, pois ele também se opunha ao governo do ditador Enver Hoxha. Por isso, o autor foi idolatrado aqui, por exemplo, pela revista Veja. O livro foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, no ano 2000, em 144 páginas.

Li em inglês a tradução do albanês feita a partir de uma tradução francesa. Nada muito diferente dos livros de Tolstoi que li, em português, traduzido por um escritor mineiro que recorreu à mesma triangulação. Vá-se saber o que de fato o romancista russo escreveu – ou o albanês. Apesar dessa ressalva, gostei do livro de Kadare – ou Kadaré, como seu nome é escrito por aqui. O francês, ao contrário do latim, não é língua morta nestas nossas pragas.

O que interessa, no livro, é a crítica ao totalitarismo que perpassa por suas páginas. Pois era totalitário o regime no Egito, onde se passa a história de três milênios atrás narrada por Kadare – ou Kadaré, você escolhe. Como era totalitário o regime do general Hosni Mubarak, que governou o Egito de 1981 a 2011, com apoio da direita norte-americana – e da brasileira, se é que esta tenha alguma relevância no contexto global.

O fato é que na época em que Kadare escrevia o livro que fala da construção da maior pirâmide egípcia, o ditador de seu país podia ser importante para ele, mas não para o mundo. É muita presunção achar que o livro foi escrito para derrubar o agonizante regime comunista albanês, que só era levado a sério, na época, pelo nosso insignificante PC do B.

Seria compreensível que, ao escrever uma antiga história que se passa no Egito, o autor tivesse em mente que este país, muito mais importante no contexto da humanidade, estivesse também vivendo, naquele mesmo momento em que escrevia, sob severo regime autoritário. Mas a ninguém em são consciência, na editora Abril, ocorreu ligar o ditador egípcio ao antigo conterrâneo, o faraó Cheops – ou Quéops – que havia também esmagado seu povo sob pretextos igualmente insanos.

Descobrir aqui alguém que saiba albanês deve ser tão difícil como foi para o personagem de Lima Barreto achar um homem que sabia javanês no começo do século passado no Rio de Janeiro. Então, é preciso confiar nas traduções. E a impressão que tive, ao ler a tradução inglesa via francesa, é que Kadare é um escritor vigoroso.

Depois de ler “The Pyramid”, nunca mais vou ver a imagem de uma pirâmide egípcia do mesmo jeito. E nem vou querer contemplá-la de perto, como Napoleão Bonaparte, mesmo se pudesse. Ao ler, me surpreendi mais uma vez com a minha ignorância, pois nunca me ocorrera, até então, a imensidão do sacrifício imposto ao povo egípcio por um governante autoritário – pior ainda, um ditador venerado como um verdadeiro deus – para construir aquele fantástico monumento à morte.

No Brasil, temos escapado dessa tragédia, até agora. Mas ela passou raspando, em muitos momentos de nossa história.


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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

1 comentário

  1. Seu feeling sobre a obra é, certamente, o que o autor queria que todos sentissem quando escreveu. Parabéns.

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