Ditadura corrupta e sanguinária massacra a Guiné Equatorial

texto de José de Souza Castro:

Em 2008, um aventureiro espanhol que se tornou escritor publicou pela editora El Andén, de Barcelona, o livro Guinea e, logo em seguida, pela Internet, uma carta para tentar sensibilizar as pessoas para o drama dos pouco mais de 616 mil habitantes da ex-colônia espanhola Guiné Equatorial, submetidos, desde a independência, em 1968, a uma das piores ditaduras africanas.

Teodoro Obiang, presidente desde 1978, foi eleito pela revista “Forbes” o oitavo governante mais rico do mundo, enquanto 80% da população sobrevivem (até os 43,3 anos, que é sua expectativa média de vida) com menos de 20 euros por mês.

Menor país do Golfo da Guinea, com apenas 28.051 km², tem uma das maiores produções de petróleo da África, um PIB de US$ 15,5 bilhões e renda per capita de US$ 12.895 (maior que a do Brasil, estimada em US$ 10 mil), mas 98% do rendimento nacional vai para Obiang e seus cúmplices no governo.

Como a imensa maioria da população mundial, eu ignorava essa situação até receber ontem, pela Internet, a carta de Fernando Gamboa, o escritor. Ela foi lida à luz dos acontecimentos de agora no Egito que balançam uma ditadura tão corrupta e longeva quanto a de Obiang.

Para ler a carta, tive que interromper, na página 138, a leitura de Pequena Abelha, um livro de 270 páginas escrito pelo psicólogo londrino Chris Cleave, colunista do jornal The Guardian. Foi lançado em Londres em 2008, com o título de The Other Hand, e publicado no Brasil no ano passado pela Editora Intrínseca. Não me perguntem por que mudaram o título.

Mas isso não importa. O livro é um relato ousado e emocionante das desventuras de uma menina negra de 14 anos, provocadas pela exploração de petróleo na Nigéria, o maior país do Golfo da Guiné. A aldeia dela, cujo único pecado era estar sobre um rico campo petrolífero cobiçado por uma multinacional, foi queimada e seus moradores mortos. Ela escapou.

O livro de Gamboa, que não foi publicado no Brasil (não o encontrei para venda na Internet nos sites da Amazon e da Submarino), é uma novela de aventura que se baseia, segundo o autor, em fatos reais. A protagonista é uma colaboradora espanhola da UNICEF que é presa pela polícia de Obiang, torturada e condenada a vinte anos de prisão. Uma entrevista de Gamboa pode ser lida aqui.

A carta está disponível em vários endereços, na Internet. Alguns pontos que merecem atenção especial:

· O Presidente Teodoro Obiang Nguema estudou na Universidade de Navarra, da Opus Dei.

· Chamada antigamente de “a pérola da África”, hoje, sob o jugo ditatorial da família Obiang Nguema e com o beneplácito das grandes potências cujas empresas exploram os seus campos de petróleo e espoliam as suas reservas madeireiras, a Guiné Equatorial converteu-se num dos países mais subdesenvolvidos e corruptos do mundo, e, seu povo, um dos mais aterrorizados por seu próprio governo.

· São vítimas da maldição do petróleo. China, Estados Unidos e França farão o possível para manter o velho ditador no poder e assim garantir o ganho para suas empresas petrolíferas. A família Obiang fica com absolutamente tudo o que elas pagam pelos direitos de extração.

· Obiang tomou o poder depois de assassinar o tio Francisco Macías, outro ditador sanguinário. No poder, o atual ditador saqueou, roubou e assassinou sistematicamente, “até extremos inconcebíveis”.

· Teodoro Obiang e o seu clã governam a Guiné Equatorial como o faria um escravagista na sua fazenda. Para eles, os cidadãos guineenses são escravos à sua disposição e, o país, uma fazenda privada que saqueiam sem ter que dar contas a ninguém.

· Calcula-se que o atual governo guineense exterminou nada menos que 10% da população do país, e uma quantidade indeterminada de pessoas desapareceu ou se encontra presa ilegalmente e sem julgamento prévio. Segundo a Anistia Internacional, os detidos pela polícia e o exército são torturados sistematicamente com métodos brutais.

· Teodoro Obiang ganhou as últimas eleições com 99,5% dos votos. Os 13 partidos políticos autorizados eram formados por membros do governo.

Bem, agora não temos, como Lula, a desculpa de não saber disso. Como diz Gamboa, “o que é preciso para o mal triunfar, é que os homens bons não façam nada”.

Ah, e por que não sabíamos disso antes? Porque governos, ONU e imprensa não deixavam que soubéssemos. As notícias que chegavam de lá eram de um país em desenvolvimento, apontado como exemplo pelo World Economic Outlook Report, de abril de 2009, do Fundo Monetário Internacional. E Obiang sempre se pavoneou nos fóruns internacionais.

Ele decretou como línguas oficiais do país o Espanhol, o Português e o Francês. Esse deus, como foi chamado na rádio oficial da Guiné Equatorial, sempre cuidou para que os súditos, mesmo os poliglotas, fossem uns completos idiotas – pois só assim ele pode se perpetuar no poder.

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5 comentários sobre “Ditadura corrupta e sanguinária massacra a Guiné Equatorial

  1. Dois dias depois de escrever esse artigo, me dei conta de que Guiné Equatorial serviu de base para “Cães de Guerra”, escrito por Frederick Forsyth em 1974, que por sua vez deu origem ao filme homônimo de John Irvin, lançado em 1981.

    Na ficção, a Guiné Equatorial se chama Zangaro e a riqueza que despertou a cobiça de um capitalista predador inglês não era petróleo, mas platina. A ditadura corrupta e gananciosa da ficção lembra bem a ditadura da vida real. Outra diferença é que o explorador da riqueza da antiga colônia espanhola não é um capitalista inglês, mas petroleiras americanas, chinesas e francesas.

    Antes de se tornar um país independente, a Guiné Equatorial ficara sob o jugo da ditadura franquista. Franco não fez grande esforço para manter a colônia, decepcionado com os estudos encomendados a pesquisadores norte-americanos para saber se havia petróleo lá. Não havia, do mesmo modo que não havia no Brasil (remember “O Poço do Visconde”, de Monteiro Lobato). Logo que os espanhóis se retiraram, chegaram os americanos.

    No livro, Forsyth acena com um futuro brilhante para Zangaro, depois que o ditador foi derrubado pelos “cães de guerra” e o poder passou para a oposição. Pena que, na realidade, isso não aconteceu na Guiné Equatorial.

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  2. Eu achei muito interesante o escrito sobre Teodoro Obiang ( primo afastado de Estaline…) e aproveitei publicá-lo no meu blog para que as crianças e jovens de Hispano América fiquem a saber que no continente africano continuam a haver monstros carniceiros a massacrar crianças e adultos indefesos. Não entendo como os governantes dos países pertencentes à União Europeia permitem tais barbaridades na Guiné Equatorial e outros países africanos.
    Saudações fraternais.

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