De como não sentimos falta daquilo de que não precisamos

orelhao

Todo santo dia eu ouvia minha colega dizer que tinha parado o carro “depois do orelhão”.

Mas que orelhão é esse?, eu perguntava.

É tão longe que você nunca deve ter visto ele, ela respondia, rindo, e ia lá buscar o carro.

Quando era minha vez de buscar meu carro, algum tempo depois, minha memória bizarra já tinha, obviamente, deletado o diálogo. E eu sempre esquecia de tentar procurar o tal do orelhão.

Até que um dia eu consegui fixar a informação no meu cérebro e, quando fui buscar o carro, fiquei martelando nas células cinzentas: não esqueça de tentar descobrir onde está o orelhão, o orelhão, aquele orelhão, onde fica, afinal, o orelhão?

De repente, levei um susto: o orelhão sempre esteve ali, bem ao lado de onde sempre paro meu carro?! Ali, azul, redondo e feio, como quase todos os orelhões. Sua forma auricular parecia mais fixa do que nunca no solo, mesmo com toda aquela chuva. Não tinha sido colocado naquela tarde, sem dúvida. Eu é que nunca tinha enxergado o dito-cujo.

Fiquei me perguntando quantas coisas eu já tinha deixado de ver por não precisar delas. Até não tantos anos atrás, o orelhão era da maior utilidade. Eu fazia muitas chamadas a cobrar para casa, para dar satisfações da vida. Com os celulares, ficou obsoleto. Fui ter meu primeiro celular já no meio da faculdade e, desde então, não consegui me livrar desse aparelho.

A vida inteira também sempre procurei pelas bancas de revista, para comprar todo tipo de revistas e jornais. Até que comecei a assinar ou ler pela internet, e hoje mal lembro que elas existem.

O mesmo acontece com as locadoras de vídeo e as lojas de revelação de fotos, onde eu vivia indo, nos dois casos. Substituídas pela TV a cabo e pela impressora.

Reparem a troca que aconteceu nesses quatro exemplos: a fila do orelhão, cheia de gente, pelo celular no nosso bolso. As bancas, onde conversávamos com o jornaleiro e os vizinhos, pelo jornal em casa. As locadoras, onde trocávamos ideia sobre os filmes pra alugar, pelo insípido controle remoto. As reveladoras pelo aparelho que fica na mesa do computador.

Assim, além de passar a refletir sobre minha cegueira seletiva, que já deve ter me privado de várias paisagens interessantíssimas, também passei a pensar sobre o mundo cada vez menos social em que vivemos. (“Ah, Cris, mas tem as redes sociais…” Chegarei a elas.)

No restaurante, dia desses, estávamos almoçando e conversando sobre banalidades, até que ele me cutucou: Olhe ao redor, Cris. Havia cinco pessoas, sozinhas, em mesas separadas. Todas e cada uma delas olhando fixamente para seu celular.

Cenário sombrio…

Também nos metrôs e ônibus, é raro ver alguém trocando uma ideia. O silêncio prevalece e, geralmente, as pessoas estão perdidas em seus próprios pensamentos – ou nas últimas curtidas que receberam num post do Facebook.

Mas existem os seres raros no mundo. Pérolas, que fogem à regra e que se interessam pelo que acontece ao seu redor. Pessoas que enxergam – ponto. Amanhã vou contar a história de uma delas.

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