Primeiro livro das férias

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Keli tem um talento especial para “fotografar” as cenas e pessoas por meio de palavras. Sua capacidade de descrever detalhes, sobre como alguém está vestido ou como se expressa, por exemplo, nos faz enxergar direitinho a situação, como se a estivéssemos presenciando.

Enxergamos perfeitamente, por exemplo, o cearense José Abílio Moreira, do conto “Abílio Conselheiro”, que abre o livro: “o simpático senhor de cerca de 1,60 metro, camisa azul, calça de alfaiataria cinza e boina, portando um enorme guarda-chuva de verão num dia chuvoso; parado em frente de casa, com os pés molhados nas sandálias.”

Ou esta missa na Capela São José, em Aparecida: “o altar, que tem vista de trezentos e sessenta graus, se encheu e todos ficaram em torno do cercado para receber uma bênção de água-benta. Uns carregavam réplicas de Nossa Senhora, garrafas d’água, algumas até com a figura da santa, outros com molhos de chaves, a foto de um ente doente, velas com a medida de sua altura (ou do pedido que anseia) e também com formas de partes do corpo, como braços, cabeça, coração, além de camisetas.”

A jornalista Keli Vasconcelos, leitora deste blog, me enviou seu primeiro livro, com contos que tratam de pessoas interessantes, dessas que esbarramos de vez em quando no metrô, no ônibus ou em qualquer esquina — e que costumam ser invisíveis para quase todos, menos os mais observadores, como ela. O livro também fala bastante da vida no bairro de São Miguel Paulista, extremo-leste de São Paulo, onde a cronista nasceu e ainda mora. E também sobre outros pontos da “terra cinza”, como a avenida Paulista, no conto “‘Não emporcalhem a minha Paulista'”, que foi meu favorito. Deixo aqui como degustação:

“Dia desses, precisei dar uma passada na avenida Paulista. Já fazia tempo que não ia para lá. De salto, o desfile pela passarela de pedra é meio sinuoso – e perigoso. Não sou muito expert em usá-lo e, não raro, me escorava em algum muro, poste ou escadaria do metrô, sem exagero.

Interessante “revisitar” as pilastras do Masp, a imponência do prédio da Fiesp, a variedade de formas do Conjunto Nacional e o ponto verde do parque Trianon em meio à selva de concreto. Contrastes entre homens “de terno e termo” e seres “obscuros e calados”, chamados moradores de rua.

Mesmo na anestesia dos prédios que parecem nos engolir, não há como fechar os olhos para essas pessoas que vagam errantes, desesperadamente, por muros, alamedas e ruas que entornam esse sulco da cidade.

Lembro de uma senhora, que ficava envolvida na caixa de papelão ondulado – parecida com aquelas de máquina de lavar – com um guarda-chuva desbotado pelo sol por cima. Falava coisas desconexas (ou melhor, sem sentido para nós que não sabíamos da história), dos tempos quando trabalhava em casa de gente chique, enquanto imitava os movimentos com as mãos, como se lavasse as pratarias em pia de inox.

Era comovente, naquelas madrugadas de chuva fina, vê-la falando sozinha, encolhida. Um moço, certa vez, entregou o hot-dog a ela e, por incrível que pareça, aquela senhora quis apenas os sachês de mostarda e ketchup, desprezando o pão envolto em plástico, batalha palha, salsicha e outros condimentos coloridos.

Pois bem, voltando ao desafio de salto alto… Fui atravessar a rua para comer alguma coisa. Afinal, no império do fast-food, o que não faltam são opções para se esbaldar. A pé, já com os pés calejados e uma estranha dor na panturrilha, fiquei esperando os dois faróis para pedestres ficarem verdes.

Nisso apareceu um homem com cabelos na altura dos ombros, jaqueta azul-marinho, aparentava ter mais de 50 anos.

— Moça, você tem um trocado? É que estou com fome e queria ajuntar umas moedas para comprar uma coxinha…

Naquele momento de impotência, não sabemos o que fazer. Entrega as moedas? Ignora a situação? Finge que não é com você? E se, ao pegar bolsa, neste afã, é assaltada? Pede a Deus para que o farol fique verde logo e sai correndo?

Não deu tempo de pensar. Um outro senhor, de camisa polo vermelha, bermuda bege e sandálias marrons, começou a gritar incessantemente, para alvo de olhares de executivos, secretárias, office-boys

— Não se aproxime dela! Não ouse chegar perto desta menina!

— Mas eu só estou pendido um trocado…

— Não se aproxime dela! Estou avisando, saia logo daqui!

— Mas, senhor, eu s…

— Não aguento mais vocês emporcalhando este bairro. Não emporcalhem a minha Paulista!

E os faróis se acenderam. Fiquei do modo que estava outrora: inerte. O senhor saiu esbravejando palavrões e maledicências contra o pobre homem, que apenas se defendia com um abafado “que cara louco”.

Saí assim errante, naquela avenida que “começa no Paraíso e termina na Consolação”, com a sensação de que muitos são os que estão emporcalhando a Paulista.”

Informações sobre o livro:

“São Miguel em (uns) 20 contos contados”
Keli Vasconcelos
Ed. In House
136 págs.
R$ 24,90

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Post de uma mineira bairrista

Fotos: CMC

Ibitipoca / Todas as fotos: CMC

Bairrista, você é bairrista. Ouvi muito isso lá na Terra Cinza. Era só eu falar das maravilhas de Minas ou de Beagá, e lá vinha a alcunha.

Serra do Cipó

Serra do Cipó

Mas não me importo, que seja. Pra mim, a culinária mineira é a melhor do mundo. As paisagens de montanhas e cachoeiras são embasbacantes. O sotaque é o mais charmoso. E a hospitalidade, a cordialidade, nunca vi em nenhuma outra cidade do país ou do mundo.

Pará de Minas

Pará de Minas

Bairrismo puro. Mas aí meus amigos paulistas resolvem vir visitar, ou conhecer. E saem encantados, falando tudo isso do parágrafo acima. Os turistas gringos vêm ver um jogo da Copa aqui e decidem ficar, mesmo depois que suas Seleções já foram pra outro Estado. A praça da Savassi permanece lotada de argentinos e colombianos, ingleses e belgas, iranianos e argelinos, mesmo depois que duas dessas seleções foram até eliminadas.

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Beagá

E leio um texto como este da Keli Vasconcelos, paulistana da gema que se aventurou sozinha para Ouro Preto e Mariana e ficou tão impressionada com o clima das montanhas de Minas, com a história e as paisagens, que se viu chorando e rezando em vários momentos, reflexiva e filosófica. Minas faz a gente pensar, se fechar um pouco dentro de nós mesmos — o que é ótimo. Ela ficou extasiada.

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Ipoema

Acho legal demais aquelas pessoas cosmopolitas, cidadãs do mundo, que se adaptam bem, seja em Hong Kong ou em Los Angeles. Eu adoraria conhecer o mundo inteiro, saber falar dez línguas e entrar fundo em todos os continentes. Mas quero só passear, não morar. Posso até ficar um par de anos em algum lugar, mas morar mesmo, pra sempre, só em Minas.

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Tiradentes

 

E não tenho qualquer problema com isso. Não falo de minha Beagá com o desdém de muitos: uma roça grande, não tem nada pra fazer, todos se conhecem etc. Discordo. Acho que poucos conhecem bem Beagá e sabem aproveitar tudo o que ela oferece. E os que vêm de fora costumam saber fazer isso melhor do que quem nasceu aqui. (Ou os que moraram fora e depois voltaram à terrinha…).

Lavras Novas

Lavras Novas

Minas é a soma de todos os estereótipos (que são sempre bons, já notaram?) e muito mais. Minas é uma terra encantada 🙂

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Lagoa da Prata

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