Dilma e o sári vermelho

Texto escrito por José de Souza Castro:

Acabei de ler “O Sári Vermelho”, livro de Javier Moro (nada a ver com o juiz), publicado em 2009 pela Editora Planeta do Brasil. A história da pobre italiana Sonia Maino, casada com o indiano Rajiv Ghandi, filho da primeira-ministra Indira Ghandi que também foi primeiro-ministro. Depois que o marido e a sogra foram assassinados durante campanhas eleitorais, Sonia só não se tornou a dirigente mais poderosa da Índia porque não aceitou sua nomeação, preferindo continuar presidindo o socialista Partido do Congresso, criado por Mahatma Ghandi e seu amigo Jawaharlal Nehru, que se tornou primeiro-ministro depois de declarada a independência em agosto de 1947.

Uma baita história – o que justifica as 540 páginas do livro. Ser publicado no Brasil, onde o que mais se lê é o WhatsApp e suas fake-news, faz todo o sentido pela semelhança entre o drama brasileiro pós-impeachment de Dilma Rousseff e o neocolonialismo a Donald Trump e entre uma Índia nascida da luta contra os colonizadores britânicos e do esforço para se manter uma nação unida.

Nehru morreu em 1964, ainda primeiro-ministro. Três anos depois, a filha Indira se tornou a primeira mulher a ocupar, democraticamente, o cargo mais importante de um país de 500 milhões de pessoas e que se destacava pela imensa maioria de indianos pobres ou miseráveis.

Desde a independência, sob Nehru, houve muito progresso econômico, mas o problema da corrupção, endêmico na Índia, parecia invencível. Rajiv calculava que 85% de todos os gastos de desenvolvimento acabavam nos bolsos dos burocratas. Sonia e o primeiro-ministro Manmohan Singh, indicado por ela quando desistiu do cargo, conseguiram aprovar uma lei “que permite a qualquer cidadão examinar as ofertas dos contratos de licitação pública e evitar, assim, a prevaricação e o suborno”, escreveu Moro – o outro.

O governo socialista conseguiu que o país avançasse muito, investindo em educação, ciência e tecnologia. A Índia foi o país que mais rapidamente cresceu no mundo, depois da China, mas falta muito ainda para que fosse deixado para trás o seu passado arcaico, como sonhava Nehru.

A distribuição da riqueza é tão ruim como no Brasil. Em Bombaim, que em 2008 se tornara a quarta do planeta em número de bilionários, contava com a maior favela da Ásia e a maior concentração de prostitutas infantis do mundo. Enquanto isso, um bilionário presenteou sua mulher com… um Airbus!

A situação havia piorado quando a direita nacionalista venceu as eleições depois do assassinato de Rajiv Ghandi, filho de Indira, em maio de 1991. O Partido do Congresso só voltou ao governo em maio de 2004, graças à campanha eleitoral liderada por Sonia Ghandi.

A Índia estava então com mais de 1 bilhão de habitantes e 670 milhões de eleitores. O país tinha 30 milhões de celulares, contra cerca de 1,5 milhão cinco anos antes. Quatro milhões de funcionários públicos foram mobilizados em 700 mil mesas eleitorais. Votos em papel. A eleição ocorreu no dia 10 de maio e o resultado final foi conhecido cinco dias depois.

Apesar da vitória, Sonia Ghandi não aceitou a oferta de se tornar primeira-ministra, para não acirrar ainda mais os ânimos da oposição que não se conformava em ser governada por uma católica italiana. A questão religiosa já havia causado centenas de milhares de mortos, num país que deveria, conforme Ghandi e Nehru inscreveram na Constituição, ter um governo laico. Mas a direita oposicionista vinha fomentando e se aproveitando eleitoralmente dos conflitos religiosos geralmente sangrentos.

Havia um campo fértil para o dissenso. Em 1967, quando Indira se tornou primeira-ministra, aos 48 anos, a Índia era um país de maioria hindu, mas com mais de 100 milhões de mulçumanos, 10 milhões de cristãos, 7 milhões de siques, 200 mil parses e 35 mil judeus. No imenso território indiano conviviam 4.635 comunidades diferentes e línguas tão antigas como diversas, uma Babel em que eram usados 845 dialetos e 17 línguas oficiais. E cerca de 330 milhões de divindades.

“Talvez a maior conquista dessa nação forjada por Nehru e Gandhi seja que continuava sendo livre a despeito do rosário de maldições e de terríveis problemas herdados dos colonizadores britânicos”, analisa o escritor espanhol Javier Moro.

Num cenário como esse, o leitor brasileiro chega ao final do calhamaço aliviado com a situação do Brasil. Apesar de Bolsonaro e de seus fanáticos de todas as crenças, de Deus acima de tudo, de Trump e dos bilionários gananciosos que comandam a economia e a política aqui e no mundo, há esperança. Se a Índia pôde, o Brasil pode.

Ameaçada de morte tantas vezes, Sonia Ghandi continua viva, aos 75 anos. Em 2013, foi apontada pela revista “Forbes” como a terceira mulher mais poderosa do mundo, atrás da chanceler alemã Ângela Merkel e da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Há 11 meses, seu filho Raul Gandhi a sucedeu como presidente do Partido do Parlamento. E Dilma Rousseff, em outubro, não se elegeu senadora pelo PT mineiro. Nada que cause desesperança.

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