Theotonio dos Santos e Milton dos Santos ou as intermitências da morte

Texto escrito por José de Souza Castro:

Passou praticamente despercebida em Minas a morte no dia 27 de fevereiro, no Rio de Janeiro, de um dos maiores intelectuais mineiros: Theotonio dos Santos, nascido há 81 anos em Carangola, na Zona da Mata. A própria UFMG, onde ele se formou em economia e lecionou, antes de se exilar no Chile e no México depois do golpe de 1964, não deu maior importância à notícia, ao contrário de “O Globo”, para quem ele foi um dos mais influentes pensadores latino-americanos e “um dos principais formuladores da teoria marxista da dependência”.

Entre os jornais mineiros, só o “Estado de Minas” noticiou, sem qualquer destaque, a morte desse economista e cientista social que teve “dezenas de obras publicadas em diversos países sobre a relação entre capitalismo, desenvolvimento, dependência e imperialismo”, conforme o jornal dos Marinhos, que não pode ser acusado de simpático à esquerda. “O Globo” publicou no mesmo dia da morte, por câncer, excelente perfil que pode ser lido aqui. Há também um verbete longo na Wikipedia sobre Teothonio dos Santos, o que me dispensa de alongar-me a respeito.

Conheci-o num dos eventos da Fundação Dom Cabral, na época em que eu era redator da Revista DOM. Voltávamos de avião de São Paulo, sentados em cadeiras vizinhas, e ele, muito simpático e falante, perguntou-me o que eu fazia. Acabou, para minha surpresa, dizendo que eu estava num filão de negócio que tinha potencial para ser rendoso.

Deve ter sido um dos poucos enganos desse economista reconhecido internacionalmente.

Feita minha homenagem a Theotonio dos Santos, quero homenagear outra pessoa que também conheci e que morreu pouco antes: Milton dos Santos Dâmaso, que não será lembrado por nenhum dos jornais citados acima, mas que o será por muito tempo, em minha numerosa família.

Milton era empregado de uma ferrovia em Divinópolis e já se formara em contabilidade quando se casou com tia Terezinha, enfermeira. Criaram modestamente os quatro filhos. Mas, ao se aposentarem, numa época em que as confecções de roupas faziam sucesso em Divinópolis, resolveram entrar nesse ramo.

Não sei o que diria Theotonio dos Santos dessa ideia de Milton dos Santos. Se o conhecesse, talvez dissesse que tinha potencial para ser rendoso – e acertaria.

A fábrica de roupas infantis prosperou e também a loja que o casal montou para vender seus produtos. Mais tarde, para aproveitar os momentos de lazer, comprou um sítio perto da cidade, e se deram muito bem também nessa atividade. Era ali, no Sítio Zico Cabral, pai da Terezinha, que algumas vezes por ano a família se reunia para festejar alguma coisa.

Tia Terezinha sempre foi risonha e festeira. Ao despedir-me dela, depois de assistir ao sepultamento de Milton no Cemitério Parque da Serra (nesta sexta-feira, 2 de março, foi a Missa de Sétimo Dia), ela me disse:

— As reuniões no sítio vão continuar. É assim que o Milton gostaria que fosse…

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