Um olhar estrangeiro sobre o Brasil na África

Infográfico da revista "Foreign Affairs"  mostra presença do Brasil na África. Clique para ver em tamanho real.

Infográfico da revista “Foreign Affairs” mostra presença do Brasil na África. Clique para ver em tamanho real.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Artigos sobre o Brasil publicados pela revista “Foreign Affairs” costumam repercutir nestas terras onde canta o sabiá. Estou curioso pela reação ao último, assinado por Nathan Thompson e Robert Muggah. Pode ser lido AQUI em inglês. Não encontrei ainda tradução completa em português.

O blogueiro Miguel do Rosário afirma que traduziu o título (“The Blue Amazon. Brazil Asserts Its Influence Across the Atlantic”) deste modo: “Brasil consolida sua influência para além do Atlântico”.

Rosário aventurou-se, ainda, a traduzir o lide (primeiro parágrafo) que, na revista, é este: “After years of shoring up security alliances in Latin America and the Caribbean, Brazil is now looking eastward, asserting its influence across the Atlantic Ocean. Brazil started quietly, providing Africa with technical assistance in science, technology, and professional development.” Sua tradução: “Após anos firmando alianças na área de segurança com América Latina e Caribe, o Brasil agora está olhando para o leste, consolidando sua influência para além do oceano Atlântico. O Brasil começou discretamente, fornecendo à África assistência técnica em ciência, tecnologia e desenvolvimento profissional. ”

Bem… Mas o que me chamou atenção é esse trecho do blogueiro:

“Além de ser um artigo que traz informações valiosíssimas para entendermos o novo lugar do Brasil no mundo, ele vem escrito com uma isenção que desconhecemos aqui.

Diante da campanha diuturna da nossa imprensa contra o Brasil, causa até um certo estranhamento ler, numa das mais importantes revistas de geopolítica do mundo, um artigo que exalta a política externa do Brasil. E que não venham, pelo amor de Deus, chamar a Foreign Affairs de “esquerdista” ou “bolivariana”…

A revista elogia a inteligência dos estrategistas do governo, que contornam o baixo orçamento militar através de parcerias estratégicas com outros países, que permitam ao Brasil exportar armas e tecnologia, e com isso, financiar sua própria indústria de defesa.”

Fiz cirurgia de catarata recentemente. Pensei que minha visão havia melhorado muito. Posso ter-me enganado – ou meu inglês piorou muito – pois não descobri tal elogio no que li. A não ser que o elogio esteja implícito no fato de que o texto em inglês não desanca a estratégia de nosso governo, como faz rotineiramente, em português, nossa chamada grande imprensa sobre a política externa do Brasil pós-2002.

Devo reconhecer que o artigo de Thompson e Muggah é sóbrio, demonstrando vontade de se apegar a fatos. Nem mesmo acusa Lula e José Dirceu, como parece ter virado mania por aqui, de terem viajado à África para reforçar a presença de empresas brasileiras no continente africano, sobretudo aquelas ligadas ao poderio militar e econômico, com intenções inconfessáveis.

Sim, os autores citam a Odebrecht, mas não a relaciona com corrupção. A empresa aparece num trecho que diz do esforço brasileiro para que a ONU acate sua demanda para que seja ampliado o nosso controle sobre o Oceano Atlântico até uma distância de 648 quilômetros da costa.

Escreveram Thompson e Muggah, sem demonstrar apoio ou rejeição à ideia: para reforçar sua demanda nas Nações Unidas, o Brasil está criando sofisticado sistema de vigilância para monitorar a Amazônia Azul (The Blue Amazon do título). Tal sistema possibilitaria vigiar mais de 4.600 milhas da costa, em busca de embarcações militares e comerciais, por meio da combinação de satélites, radares, drones, navios e submarinos. Em janeiro, acrescentam os autores, o país indicou três finalistas para desenvolver o projeto de US$ 4 bilhões: um consórcio liderado pelo conglomerado aeroespacial Embraer, outro liderado pelo grupo multinacional Odebrecht e um terceiro pela novata aeroespacial Orbital Engenharia.

Quem ficou curioso pode ler o artigo em inglês ou esperar pela tradução por alguém mais habilitado do que eu. Talvez o Elio Gaspari, que em maio de 2012 analisou em seu espaço, em dois dos principais jornais brasileiros, outro artigo da Foreign Affairs. Desconfio, um artigo bem mais ao gosto de nossa imprensa (será que algum jornal vai traduzir este de agora?). Quem se interessou pelo que escreveu Gaspari, pode ler AQUI.

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2 comentários sobre “Um olhar estrangeiro sobre o Brasil na África

  1. Uma leitora do blog, Alice, recomenda a leitura de artigo publicado na Revista Sapientia, editado pelo Sapientia, que se apresenta como “o único curso do mercado que foca suas atividades apenas na preparação de candidatos ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).”
    Li o artigo, e também recomendo aos interessados na política externa brasileira. “O novo ‘périplo africano’: A África de volta ao radar da política externa?” vai da página 23 à 26 da revista (edição Maio eJunho de 2015, Ano 4, nº 23). É assinado por Guilherme Casarões, professor de Política Internacional do Curso Sapientia e professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), das Faculdades Rio Branco e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). A íntegra pode ser lida aqui: http://cursosapientia.com.br/images/revista/RevistaSapientia-Edicao23.pdf
    Trechos:
    • Sem alardes e longe dos holofotes, o chanceler Mauro Vieira visitou quatro países africanos – Gana, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola – entre fins de março e início de abril de 2015. A viagem ao continente – ou “périplo africano”, para utilizarmos o termo que povoa a memória diplomática nacional desde a viagem de Mário Gibson Barboza, em 1972 – faz parte de um amplo roteiro destinado a potencializar os fluxos comerciais do Brasil com o mundo.
    • O périplo africano de Vieira, em particular, foi motivado por dois propósitos fundamentais. O primeiro e mais evidente, dando sequência à sua “diplomacia de resultados”, está ligado ao desempenho econômico do Brasil na África, que perdeu intensidade no primeiro mandato de Dilma e urge ser recuperado. O segundo, e não menos importante, diz respeito à presença global brasileira: manter uma “política africana” consistente é um dos meios mais formidáveis de se sustentar, mesmo diante de recursos escassos, o projeto de nação emergente inaugurado pelo governo Lula. A despeito da importância do continente africano em nossa estratégia de inserção internacional, ele não passou ileso à retração diplomática dos últimos quatro anos.
    • O que se observou no caso africano foi resultado de três fatores fundamentais: (1) a diminuição do interesse presidencial pela manutenção da intensa agenda africana inaugurada por Lula (que viajou ao continente em todos os anos de seu mandato); (2) a paulatina redução dos recursos diplomáticos, que impactaram no trabalho das representações brasileiras e na continuidade de projetos de cooperação técnica, indispensáveis para a continuidade do trabalho diplomático iniciado em 2003; (3) a relativa perda de capacidade de investimento e comércio do setor produtivo brasileiro, com implicações no relacionamento com diversos países africanos. Os três fatores, embora condicionados por idiossincrasias variadas, estão intimamente ligados ao quadro econômico que se desenhou no Brasil, sobretudo a partir de 2012.
    • A deterioração da conjuntura internacional e do quadro político-econômico brasileiro mudou a perspectiva do governo Dilma sobre a África, optando-se por um relacionamento mais pragmático a partir de 2013, voltado para questões de comércio. Este foi o mote das três viagens da presidente ao continente, ao longo do primeiro semestre de 2013.
    • Enquanto representantes governamentais alegam que as empresas brasileiras não estão interessadas em investir na África, empresários rebatem que há pouco apoio por parte da rede diplomática brasileira ao redor do continente para ajudá-los a superar seus receios de expandir negócios com regiões instáveis e conflituosas . Aqueles setores que poderiam arcar com outra estratégia – os “gigantes” da construção civil, em particular – contrataram ninguém menos que o ex-presidente Lula para promover seus interesses na África por meio de sua própria fundação, o Instituto Lula . Se uma das razões pelas quais o Brasil abriu ou reativou 19 embaixadas na África durante o governo Lula foi precisamente a promoção de comércio e investimentos, o que explica o desalinhamento entre negócios e diplomacia nos últimos anos? Uma das respostas pode estar, infelizmente, no enfraquecimento do Itamaraty e na consequente perda de sua capacidade de apoiar as crescentes demandas empresariais. Sob o governo Dilma, postos diplomáticos na África sofreram com recursos cada vez mais escassos. Um dos sinais dessa melancólica realidade foi o falecimento de três representantes brasileiros por malária – dois contraíram a doença na Guiné Equatorial entre 2011 e 2012 e o terceiro na Nigéria, em fins de 2014.
    • Sem receber repasses governamentais por meses a fio, a embaixada brasileira em Benin – que até o momento funciona com um só diplomata – teve luz e água cortadas em decorrência de falta de pagamento. Em telegrama enviado a Brasília, o chargé d’affaires em Cotonou relatou que, dada a situação precária em que se encontrava seu posto, não teria meios para prestar assistência adequada aos nacionais, em sua maioria missionários evangélicos, em situação de risco iminente no vizinho Níger, em função do extremismo islâmico que prolifera na região. Não parece coincidência que as duas áreas que floresceram na relação com a África caíram sob a competência de outros ministérios, onde o enxugamento dos recursos orçamentários não foi tão intenso (e aos quais a presidente deu mais autonomia). Além do comércio, que depende, em grande medida, da capacidade de financiamento do BNDES, a maioria das parcerias de alto nível ocorreu em assuntos de defesa. Sob a batuta de Celso Amorim, o Ministério da Defesa assinou acordos de cooperação marítima com países da África Ocidental e trabalhou para fortalecer a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS). Para além dos sócios tradicionais, o Brasil firmou laços próximos com países como a Namíbia, cujas forças navais foram instituídas e treinadas com o auxílio da Marinha brasileira.
    • Como se pode perceber, a política externa brasileira para a África no primeiro mandato do governo Dilma caracterizou-se, por um lado, por uma retração relativa das iniciativas diplomáticas e dos fluxos de comércio. Obteve, por outro lado, conquistas importantes na dimensão multilateral, sobretudo relativa aos conflitos internacionais, bem como no estreitamento dos laços de cooperação em defesa com os países do Atlântico Sul. O périplo de Vieira vem, portanto, em boa hora. Ao estimular o comércio e a cooperação, recupera e fortalece as questões que perderam dinamismo ao longo do primeiro mandato. Exemplos disso são a assinatura do Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos com Moçambique e do Memorando de Entendimento para a Promoção de Investimentos em Indústria, Agricultura, Energia e Serviços com Angola. Também merecem destaque a crescente presença de empresas brasileiras em Gana, país com o qual o Brasil detém expressivo superávit comercial, e os esforços de cooperação com São Tomé e Príncipe, no qual o governo Dilma inaugurou um Centro de Formação Profissional e uma Missão Naval em 2014. Mesmo reconhecendo as dificuldades correntes, o ministro compreende bem a importância da África como prioridade da política externa brasileira: “ajustes conjunturais podem incidir momentaneamente sobre os meios que dispomos, mas não alteram nossa noção de prioridades”. Esperemos, com otimismo, os próximos capítulos desta “diplomacia de resultados” que, ao que tudo indica, parece ter vindo para ficar.

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