Sempre notei que eles ficavam ali, no mesmo lugar, compondo um sorriso. Mas nunca me atrapalharam nem fizeram estardalhaço para se fazerem notar. Quer dizer, quase nunca.
Quando eu era criança, lembro de serem sempre muito elogiados pelos dentistas e por algumas pessoas em geral. Minha mãe chegou a perguntar a um dentista se eu deveria pôr aparelho para consertar um pequeno desvio de um deles, o incisivo lateral, bem na frente. Resposta: sorriso não tem que ser como teclado de piano, esse tortinho é o charme dela. Então tá, gostei da resposta.
E assim vivi com meus dentes, ano após ano, sempre me esforçando para cuidar deles direitinho, passando fio-dental, dois dentistas surgindo em casa para ajudar no patrulhamento. Nunca tive cárie. Imaginava que minha arcada dentária seria motivo de orgulho caso eu precisasse ser reconhecida só por ela algum dia.
Certa vez, comecei a sentir dor num dente específico, do lado esquerdo, daqueles molares. Descobri que eu tinha uma espécie de bruxismo e, como ele estava levemente mais alto que os vizinhos, sentia a pressão com muito mais força e respondia aos berros. A dentista (a melhor do mundo, diga-se), fez uma raspagem no dente e ele parou de doer e nunca mais me incomodou de novo.
Também já tive a dor clássica do siso, que todo mundo tem. Mas só em três deles, o quarto não veio no meu pacote. Costumo dizer que sou 25% mais evoluída, já que os humanos do futuro não virão com esses sisos inúteis 😉
De outra vez, senti um negócio absurdo quando o avião estava pousando. Parecia que todos os meus dentes estavam sendo arrancados de uma vez só, com alicate. Era uma dor aguda, incontrolável, lágrimas começaram a cair sem eu poder fazer nada a respeito. Depois descobri que algumas pessoas têm isso e há alguns estudos sobre isso em pilotos, e o fenômeno se chama, se não me engano, “barodontalgia“. É a dor de dente por pressão atmosférica e acontece quando o avião sai daquele modo cruzeiro e desce para bem perto da cidade e fica lá, por alguns minutos, antes do início da aterrissagem. Felizmente, só aconteceu comigo quatro vezes (todas no mesmo momento de voo; numa delas eu até fui acordada pela dor, então nem dá pra dizer que é psicológico); parece que tem a ver com a vedação do avião, com o tipo de avião etc. Em todas, eram aviões menores mesmo, de companhias menos prestigiadas.
E tudo ia bem, até que minha irmã (a que é a melhor dentista do planeta) me deu uns moldes para fazer clareamento dental em casa. Se ela falar que precisa arrancar todos os meus dentes e implantar pérolas no lugar deles, eu confio e deixo ela fazer. Então fiz. O único alerta: seus dentes ficarão sensíveis. Imaginei que seria uma sensibilidade tipo quando mordemos picolé, mas não: ficaram sensíveis até com a boca fechada. Mas nada que não pudesse ser tolerado, e eu vinha fazendo o tratamento direitinho nas últimas semanas.
Até que hoje, depois de mais uma noite de insônia feroz, saltei da cama duas horas antes de o despertador tocar, morrendo de dor em todos os dentes inferiores. Todos! Já saí arrancando a plaquinha, lavando o gel, mas era uma dor intensa, atroz, era como se eles estivessem levando um choque simultâneo de alta voltagem.
Passei o dia de boca fechada, evitando ao máximo falar, porque parecia que o mero contato com o ar fazia a dor piorar ainda mais. E finalmente entendi aqueles quadrinhos da Turma da Mônica, em que eu via os personagens com um pano ao redor da cabeça, uma estrela de dor explodindo da boca, sem conseguir brincar ou pensar direito. O pensamento é monotemático: ai-meu-dente, ai-meu-dente, ai-meu-dente. Como quando estamos apertadíssimos para fazer xixi e não conseguimos pensar em mais nada além de achar um lugar para aliviar. O cérebro passa a funcionar em alerta máximo, dizendo: minha filha, desiste, o que você pensa que está fazendo antes de resolver este problema?
Enfim, eu até queria poupar vocês de um assunto tão entediante, mas meu cérebro não comporta nenhuma outra questão neste momento. Mensalão petista, mensalão tucano, crise européia, crise dos shoppings, congestionamentos, atropelamentos: nada disso importa, só quero que meus dentes parem de gritar e eu volte a esquecer que eles existem.
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ai, é com moldeira? eu achei que esse doesse menos, o meu eu fiz no consultório e foi “o horror, o horror”, mas apenas por um dia e meio (e mais a dor psicológica dos dias só comendo alimentos sem cor… você já viu alimento sem cor? pois é)
boa sorte!
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Obrigada, Nadíssima 😦
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Cris,
Prá quem tem dentes sensíveis ou crises de sensibilidade recorrentes, sugiro incluir na caixinha de remédios um frasco de Óleo de Cravo, à venda nas boas farmácias de manipulação. É analgésico, antiséptico, antibiótico, antiinflamatório e por aí afora. No Jequitinhonha, as mães passam nas gengivas do bebês quando os dentes estão aparecendo.
Duvida? 1) Pergunta prá sua irmã ou 2) assista Maratona da Morte (Marathon Man) com Dustin Dustin Hoffman, Roy Scheider e Sir Laurence Olivier.
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Humm, bom saber. Já mandei seu comentário pra minha irmã dar o aval dela 🙂
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