Um passo pra frente, outro pra trás, ambos pra cima

Hoje dei um grande passo na minha vida — mais um.

Foi tão grande quanto o que dei ao sair de Beagá, largando minha família, meus amigos, meu emprego no Banco do Brasil e minha cidade do coração para trás e vim para a Terra Cinza, onde eu não conhecia ninguém, ficaria cinco meses sem receber salário e um bom tempo sem um contrato de emprego formal.

Aquele passo foi importantíssimo na minha vida. Aprendi a fazer jornalismo. Exerci a profissão em seus vários formatos, com matérias para o impresso, o online, a tevê, de cidades, de política, e até para as improváveis (no meu caso) editorias de esporte, ciência e turismo.

Nesse meio-tempo, aprendi a gostar de São Paulo, com todos os seus defeitos. Eu me adaptei. Descobri o cinema mais perto de casa, o buteco com a cerveja mais gelada, a pizzaria mais gostosa e agradável, o refúgio verde próximo, o pedaço de Minas bem perto de casa. Sobrevivi aos vizinhos perturbados, aos dias de mais estresse. Fiz amigos, muitos amigos, muito queridos, dos quais sentirei muita falta. Enfim, São Paulo virou minha segunda cidade e hoje olho pra ela com um carinho de quem aprendeu a lidar com todos os seus problemas e os superou, um a um.

De quem cobriu todos os seus cantos, de ruas de terra batida que vi no extremo-sul a mansões gigantescas na zona oeste a bairros por onde só se chega através de ônibus velhos, imundos e hiperlotados, na zona leste, a regiões que alagam todo santo verão e por aí vai.

(Conheço São Paulo melhor que Beagá, não tenho dúvidas disso. Porque só se conhece mesmo uma cidade quando se cobre ela, dia após dia. E pouco cobri de Beagá, pouco saí daquele miolo onde eu morava com meus pais.)

Fiz as contas, porque adoro estatísticas e adoro listinhas — esse é meu TOC. Só de matérias que eu tive vontade de guardar — que me deram algum orgulho, que tiveram mais destaque etc — foram 680 páginas de PDF. Algumas páginas têm mais de uma matéria. Algumas eu não guardei. Considerando que, dos quase cinco anos de Folha, fiquei só 2 anos e 7 meses direto na reportagem, isso dá praticamente 22 matérias por mês. Ou seja, tirando os fins de semana e feriados, temos aí uma matéria por dia, em média.

Calculei os furos: a Folha tem um critério meio subjetivo para definir o que é furo e o que é uma matéria exclusiva, mas não é bem um “fuuuuro”. Bom, somando todas as matérias exclusivas, são 208 (desde a minha primeirona publicada, na Agência Folha, ainda trainee). Média de quase 7 furos por mês. Acho uma média boa, porque a maioria das coberturas de Cotidiano são do dia-a-dia mesmo, algo que não podemos deixar de dar (um incêndio na favela X, um acidente com o jet ski etc), mas que nem sempre rendem um furo imediato.

Também toquei o blog Novo em Folha, paralelamente. Não contei quantos posts fiz, mas, nos tempos áureos, eram em média 6, 7 por dia. Nos últimos tempos eu conseguia postar uma vez por dia, mas às vezes passava muito tempo sem conseguir escrever nada. Mas foram centenas de posts, isso sem dúvida.

Fiz todas essas contas porque, ao decidir dar esse passão, o passo de volta, tão importante quanto o de vinda, quis ter certeza de estar deixando o jornal com a missão cumprida. Meu lema sempre foi: “Faça o melhor que você é capaz de fazer, seja qual for sua profissão. Se você for um gari, que seja o melhor gari possível, que sempre almeje ser o melhor de todos. Etc.” Quando fui bancária, profissão que detesto, tentei ser a melhor bancária do mundo. Saí da agência, mesmo sem nenhuma intenção de voltar, com a certeza de que tinha feito um ótimo trabalho, para o banco e, principalmente, para os clientes que precisavam da minha ajuda — e também para os colegas que conviveram comigo, para quem fiz apostilas e dei aulinhas para repassar as tarefas que eu dominava bem. Então, como jornalista, minha eterna paixão, eu tinha obrigação de ser a melhor possível. Certamente não a melhor da Folha, que praticamente só tem gente competente, mas a melhor de que eu sou capaz.

E a missão foi cumprida a contento. Como jornalista e como alguém que carrega uma profissão de grande importância social. Ainda por cima, saio do jornal deixando muitos amigos, amigos que eu não tinha quando invadi São Paulo em 2008 — ou seja, saio no lucro!

Sim, porque meu passo dado hoje foi meu pedido de demissão.

E também vou deixar São Paulo e voltar para Minas — nos próximos dias — com vários amigos queridos, de vários lugares, com cantinhos que eu já chamava de meus (tipo: “minha” pizzaria, que dizem que irá à falência quando eu sair daqui ;)), com dois ex-namorados que me ensinaram um pouco mais das dores do amor, com a experiência maravilhosa (embora muitas vezes melancólica) de morar sozinha (única maneira de sermos 100% independentes, com tantos problemas pra resolver), com um livro publicado, um blog para estudantes de jornalismo com centenas de posts e com muito mais conhecimento sobre a minha profissão.

A bagagem tá tão maior que vai precisar de um carreto 😉

Tenho dúvidas se vou manter este blog, e por quanto tempo, já que ele era uma experiência tão ligada à minha rotina na Terra Cinza. Mas, se o mantiver, logo farei outro post contando como é voltar para casa. (Só quem foi pode dizer como é voltar.) E com quais lentes vou enxergar minha Beagá.

Até lá! 😀

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