(Atendendo ao pedido da Natalie :))

Fico pensando o que é amor.
Como se fosse algo definível.
Façamos uma equação, uma fórmula:
amor é isso mais isso mais isso.
E, provavelmente, menos um milhão de aquilos.
Amor é mensurável em quilos.
Amor é bebido em litros.
Amor é vendido em liras.
É cantado em versos líricos.
Mas eu queria despi-lo de todo o idealismo
de toda a magia que os poetas
– sempre culpados! – construíram.
Queria ser capaz de pensá-lo
e senti-lo
com a praticidade e a realidade
dos velhos ou de novelas tolstoianas.
Negando o poema, eu queria amar.
Render-me à escravidão dos meus medos
(ou meus medos da escravidão)
e sentir por um instante a certeza
(absoluta, plena, sublime)
de que todo o meu organismo
a corrente sangüínea, as trocas de gases,
os ácidos gástricos, as sínteses protéicas
formando memórias
alimenta-se de um combustível
quase sobrenatural
e inegavelmente perene
que pode ter muitos nomes
fundidos em si, despersonalizando-o,
mas que nomeia-se, respeitosamente,
Amor.
Eu queria ter essa certeza
(suspendam-se as certezas!),
para ter a tranqüilidade
acima de todos os tempos verbais.
No entanto (é bom dizer),
talvez a dúvida seja
mais próxima do que seria o amor
se ele existisse.
Porque enche-o de vida.
Porque dizer eu-te-amo é banal,
é vazio – é o que todos fazem,
Poetas ou não.
Amar com a sinceridade da dúvida
com a dor da incompreensão
e com a ambigüidade do ceticismo
é muito mais real.
Mais próximo de todos os deuses.
(25.03.2005)





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