Desde minhas últimas dicas culturais, já vi mais de 30 filmes e li 25 livros. Consegui publicar resenhas de alguns deles aqui no blog, mas os últimos meses foram tomados pelo período eleitoral, e os posts culturais acabaram sendo deixados um pouco de lado.

Então achei que já estava na hora de fazer mais um apanhadão como este, reunindo minhas dicas culturais antes que se acumulem mais ;)

Desta vez, vou resumir bem resumidinho, porque senão ninguém aguenta ler. E, claro, selecionei só os principais do período para destacar por aqui, só o que não podia ficar de fora do blog!


Livros

Nesse período, li alguns bons livros, como “A Terra da Doce Eternidade” (livro de contos da Harper Lee), “A segunda vinda de Hilda Bustamante”, de Salomé Esper, e “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, além de alguns já resenhados aqui no blog, como a trilogia de Rachel Cusk, A Uruguaia, As Horas Frágeis, As Impacientes e Um Pouco de Ar, Por Favor.

Abaixo, outros quatro bons livros que li e que não queria deixar de fora aqui das minhas recomendações literárias no blog:

1) Flores para Algernon, de Daniel Keyes

Este livro foi publicado pela primeira vez em 1959. Seu autor disse que ensinava inglês para uma turma de baixo Q.I. quando um aluno perguntou se, caso se esforçasse bastante, poderia se tornar inteligente. Isso comoveu Daniel Keyes, que criou o personagem Charlie Gordon com uma grave deficiência intelectual.

A grande sacada deste livro é ele ser epistolar, ou seja, toda a narrativa é contada por meio das cartas ou relatórios que Charlie passou a escrever quando se tornou alvo de um experimento científico para ficar mais inteligente.

A “evolução” dele (entre muitas aspas) é perceptível inclusive pela melhora notável na forma como ele se expressa, tanto em termos de correção ortográfica e gramatical quanto em termos de complexidade de pensamentos e de interpretação do mundo.

Enfim, este é um livro que nos faz pensar em muita coisa (inclusive em capacitismo, assunto tão atual), muitas mesmo, e que me arrancou muitas lágrimas nas páginas finais.

Flores para AlgernonFlores para Algernon
Daniel Keyes
Ed. Aleph
287 páginas
R$ 32 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 

2) As Crônicas das Sombras, de Frances Hardinge

O que me atraiu para este livro, eu confesso, foi sua belíssima roupagem. Conheci a editora Darkside há muito pouco tempo e fiquei impressionada com a qualidade do design, das capas, de toda a parte estética cuidadosa de suas publicações.

Atraída pela cara do livro, li a sinopse da história, vi que ele estava em uma super promoção, e resolvi arriscar. Foi só depois que investiguei um pouco mais sobre a autora e descobri que ela é uma premiada escritora de livros infantojuvenis. “As Crônicas das Sombras” é uma espécie de aventura juvenil, com uma protagonista adolescente, um monte de espíritos e bruxos, mas um pano de fundo histórico.

A trama se passa durante a Guerra Civil Inglesa (1642–1649), o que traz alguns elementos menos fantásticos para a história, como a briga entre monarquistas e parlamentaristas e entre católicos e puritanos. O fato é que essa autora escreve muito bem e eu me diverti muito com a saga da valente Makepeace. Fazia tempo, aliás, que eu não me entretinha tanto com um livro — e já comprei mais um dela para conhecer :D

Tenho pra mim que livros não são só para ensinar, inspirar ou trazer reflexões mais profundas. Podem ser também apenas para entreter, para nos propiciar pura diversão, sem mais pretensões. E que bom que esse tipo de livro também existe!

As crônicas das sombrasAs Crônicas das Sombras
Frances Hardinge
Ed. Darkside
445 páginas
R$ 36 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 

3) O Algoritmo das Famílias, de Renata Cafardo

O título completo deste livro é “O algoritmo das famílias: como o mundo digital desafia a parentalidade”. Reparem que não é “guia definitivo para” ou “manual de como” ou algo do gênero. E esta foi uma das coisas de que mais gostei neste livro: a jornalista Renata Cafardo não promete respostas fáceis ou método infalíveis para nada.

Como numa grande reportagem, ela problematiza uma questão que é extremamente complexa, controversa e que vem sendo estudada há muito pouco tempo, que é o impacto das telas na infância e na adolescência.

Como sabem, este é um tema que venho estudando, em meu esforço para trabalhar com educação midiática. E acho que o livro da Renata faz um trabalho muito bom de condensar muitas das principais questões sobre esse assunto praticamente inesgotável, de uma maneira acessível, didática, fácil de ler e entender, e ao mesmo tempo abrangente e com muuuuito embasamento científico. Terminei a leitura com vontade de recomendá-lo a todos os pais e mães conscientes da importância da educação midiática no cuidado com os filhos.

O algoritmo das famíliasO Algoritmo das Famílias
Renata Cafardo
Ed. Contexto
191 páginas
R$ 55 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 

4) O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov

Li quatro livros da trilogia da Fundação em 2002. Eu tinha apenas 17 anos de idade e, até aquele momento, estes tinham sido alguns dos melhores livros que li na vida. Depois disso, nunca mais li nada do Isaac Asimov, embora meu pai tivesse vários de seus livros lá em casa. Até que, no começo deste ano, vi o box com a Fundação completa (que chegou a sete obras) e resolvi comprar para mergulhar nesta saga de novo algum dia.

Ao assistir à série “Jovem Sheldon” (vou falar dela lá embaixo), fiquei com ainda mais vontade, já que Asimov é um dos ídolos do pequeno nerd, junto com Stephen Hawking, Carl Sagan e outros heróis da ciência. Este precioso livrinho “O Homem Bicentenário” eu comprei por R$ 15 na Leitura e li numa sentada (só não entrou na minha lista dos melhores livros curtinhos porque a edição da Aleph o deixou com 157 páginas, ainda que com letras garrafais).

Assim como “Flores para Algernon”, é um daqueles textos que nos fazem pensar em muitas coisas. Aliás, os dois têm muitos pontos em comum, porque, no fundo, tratam de uma mesmíssima coisa: PERTENCIMENTO. Neste conto de Asimov, temos um robô que sonha em se tornar humano e abre mão de sua vida para isso. Para ler e reler e reler. Mas antes vou reler a Fundação ;)

O Homem BicentenárioO Homem Bicentenário
Isaac Asimov
Ed. Aleph
157 páginas
R$ 39 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 


Filmes

No período, vi também “Se eu fosse você 3”, “Galinha Pintadinha”, “Coyote vs. Acme”, “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, “Procurando Emily” e outros tantos… Mas vou destacar estes três mais importantes e que ainda não foram resenhados no blog:

1) A Maravilhosa Árvore Encantada

Vale a pena assistir: A Maravilhosa Árvore Encantada (The Magic Faraway Tree)
2026 | 1h50 de duração | Classificação: 6 anos | nota 7

A Maravilhosa Árvore Encantada

É um daqueles filmes que antigamente a gente chamava de típicos da “Sessão da Tarde”. Com uma história de família, de vínculos desgastados que acabam se fortalecendo por causa de uma experiência mágica. Com um toque de modernidade ao abordar o quanto as telas têm alienado as crianças, deixando-as mais solitárias, estressadas e viciadas. E ao mostrar como o contato com a natureza pode operar milagres.

Enfim, não é um roteiro original nem nada disso, mas é um filme que traz o lado mais saboroso da infância (o da fantasia, da imaginação) e que tive o maior prazer de assistir com meu filho Luiz (ele também adorou!). Andrew Garfield está no elenco e o roteirista é o mesmo de Wonka e Paddington, que também são simpáticos filmes para o público infantil.

Veja o trailer de A Maravilhosa Árvore Encantada:

2) Coração Selvagem

Vale a pena assistir: Coração Selvagem (Heart of the Beast)
2026 | 1h41 de duração | Classificação: 14 anos | nota 7

Coração Selvagem, com Brad Pitt

É um daqueles filmes de cachorrinhos que cortam nosso coração, principalmente pela lealdade e amizade entre o animal e seu amigo homem. Também é um daqueles filmes de sobrevivência em condições extremas, em que um único ator carrega a história inteira nas costas. Como James Franco em “127 Horas“, Leonardo DiCaprio em “O Regresso”, Ryan Gosling em “Devoradores de Estrelas” e Matt Damon em “Perdido em Marte“. Sabem?

No caso, temos Brad Pitt tentando sobreviver a mil intempéries no Alasca. Mil MESMO. Ele não tem um minuto de folga, ufa! Por sorte, conta com o fiel escudeiro, o cão Odin. Com um agravante: os dois atuaram como militares e saíram da guerra traumatizados. E as férias no Alasca, que eram pra ter sido de calmaria, terminam desse jeito…

O filme faz uma homenagem aos milhares de cães que são levados para ajudar militares nas guerras, e muitas vezes voltam com sequelas graves, como as vividas por Odin. Não é um filme sensacional, mas vale a pena assistir, principalmente pela atuação sempre ótima de Brad Pitt.

Veja o trailer de Coração Selvagem:

3) Digger

Vale a pena assistir: Digger
2026 | 2h09 de duração | Classificação: 14 anos | nota 7

Tom Cruise em Digger

Esta é uma distopia sobre um tema atualíssimo, que é o do desastre climático que estamos vivendo. Quando a gente lê sobre aquecimento global e outras tragédias ambientais, tudo parece tão distante, né? Ficam lá os cientistas alertando que já passou da hora de a humanidade tomar providências mais drásticas para reverter a própria extinção, mas os donos do mundo, Trump, Musk, Zuckerberg, Putin & Companhia Limitada, não estão nem aí.

Para nós, meros mortais, resta ler os jornais e tentar absorver informações que exigem um nível de abstração e de imaginação muito distantes. E aí vem “Digger”, uma sátira escancarada, hiperbólica, propositalmente exagerada, feita pra não restar dúvidas: “tó, é isso o que pode acontecer”.

Digger concentra todos os homens brancos republicanos puritanos com chapéus de cowboy, cabeças de animais penduradas nas paredes e tapetes de peles etc. Caricaturas vivas dos personagens reais. Tem lá também o cientista, vivido pelo ótimo Riz Ahmed (indicado ao Oscar por O Som do Silêncio). O protagonista é o poderoso Rockwell, bilionário dono de uma petroleira que vai basicamente destruir a Europa depois de um “acidente” com uma de suas plataformas na Groenlândia.

Confesso que eu esperava mais do novo filme de Alejandro G. Iñárritu. Mas talvez toda aquela gritaria de homens brancos ridículos de extrema-direita não tenha me caído bem por eu ter escolhido justo o dia do primeiro turno das eleições para assistir (queria que aquele domingo passasse logo). O timing foi ruim.

De toda forma, três verdades sejam ditas: a atuação de Tom Cruise está mais do que digna de Oscar, o departamento de maquiagem merece muitos aplausos pela transformação que fizeram com o “galã” e o fim do filme, o finzinho mesmo, mexeu muito comigo. Não vou dar spoiler, mas assistam e depois me contem se aquele fim não compensa o filme inteiro.

Veja o trailer de Digger:


Séries

1) Fantasmas

Vale assistir no streaming: Fantasmas (Ghosts)
2021-2026 | episódios de cerca de 20 minutos cada | Classificação: 14 anos | nota 9

Série Fantasmas

Já tem um tempo que tou pra escrever sobre “Fantasmas“. Comecei a ver esta série super divertida há alguns meses, já vimos todas as cinco temporadas e estamos ansiosos pela sexta.

Só hoje descobri que ela é um remake de uma série britânica que passou entre 2019 e 2023 (que foi criada e roteirizada por Simon Farnaby, um dos roteiristas do filme “A Maravilhosa Árvore Encantada”, que citei mais acima). Ah sim, e também já fizeram um remake na Austrália.

Mas, enfim, a versão que assisti é engraçada, às vezes comovente, muito rápida, com episódios curtos em que acontecem mil coisas, e tem excelentes personagens.

A história é a seguinte: um casal, Sam e Jay, herda uma velha mansão que está ocupada por vários fantasmas. Logo no primeiro episódio, Sam sofre um acidente e passa a conseguir ver os fantasmas. E aí é que a graça surge, das várias situações em que ela pode ver e Jay e os outros vivos não podem. Sem contar que as histórias de cada fantasma, seus “poderes” e personalidades, são irresistíveis.

  • Passa na Netflix, Paramount+ e Prime.

P.S. Começamos a ver “Jovem Sheldon” depois que o ator que faz Sheldon, Iain Armitage, aparece em um dos episódios de “Fantasmas” ;)

Veja o trailer de Fantasmas:

2) Jovem Sheldon

Vale assistir no streaming: Jovem Sheldon (Young Sheldon)
2017-2024 | 7 temporadas, episódios de cerca de 30 minutos cada | Classificação: 12 anos | nota 9

Jovem Sheldon

Assisti a vários episódios da série Big Bang Theory, sempre de forma aleatória e esporádica, porque eu via ainda nos tempos da TV a cabo, e não do streaming. Mas vi o suficiente para achar que conhecia bem o protagonista Sheldon.

Arrisco dizer que Jovem Sheldon é um dos melhores spin-offs da história das séries, ao trazer uma nova luz sobre a infância e adolescência desse nerd fanfarrão, que costuma bater na porta mil vezes e falar “bazinga” para entenderem que está fazendo uma piada (porque ele mesmo não consegue entender as piadas alheias).

O mais legal dessa série é humanizar um personagem que já estava famoso e já era querido pela série anterior. “Big Bang” é pura comédia e “Jovem Sheldon” mescla o humor a um drama de amadurecimento, uma história mais de família, que traz boas reflexões sobre muitos temas importantes (como inclusão e adolescência), muitíssimas vezes comovente (inclusive chorei MUITO no fim, como se tivesse acontecido com um membro da minha própria família). Tudo narrado pelo próprio Sheldon (o ator Jim Parsons, no Brasil dublado por Sérgio Cantú).

Esta foi, sem dúvida, uma das melhores séries que vi neste ano, e que reuniu no sofá minha família inteira, todos ansiosos para saber o que aconteceria não só ao pequeno gênio, mas também a sua mãe carola, ao pai bebum, à vozinha amalucada, ao irmão empreendedor e à irmã gêmea espertíssima.

Só ficamos tristes porque uma hora tinha mesmo que acabar. Afinal, Sheldon tinha que crescer, como todos nós. Mas foi bom viver sua história e reviver a história de muitos de nós que também fomos crianças nos anos 80 e 90. Nostalgia é tudo.

  • Jovem Sheldon pode ser visto no HBO Max, Netflix e Prime.

P.S. Mal posso esperar para ver “George & Mandy”, o spin-off do spin-off!

Veja o trailer de Jovem Sheldon:

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