Trilogia de Rachel Cusk: leia minha resenha de Esboço, Trânsito e Mérito

Livros Esboço, Trânsito e Mérito, trilogia de Rachel Cusk.
Livros Esboço, Trânsito e Mérito, trilogia de Rachel Cusk.

O que têm em comum uma cadela que foge logo que é libertada da coleira, um sobrinho que se muda para morar com o tio cabeleireiro, um padrasto que trata tão mal o enteado que ele passa a viver no barracão e é proibido de entrar em casa e uma mulher que vive em meio a uma reforma eterna há dois anos?

São todos personagens de histórias que ouvimos ao longo da leitura de “Trânsito”, segundo livro da famosa trilogia de Rachel Cusk.

Da mesma forma como no primeiro livro, “Esboço“, este aqui “não se trata de um livro de acontecimentos, mas de conversas, reflexões e relacionamentos”.

Bom, tem também alguns acontecimentos entre uma escuta e outra, como o adolescente que sai com estardalhaço do salão de beleza, os escritores ensopados no festival literário e o jantar em que tudo dá errado.

E, principalmente, a grande obra que a narradora faz em sua casa e o conflito com os vizinhos (que muito me prendeu, dado meu histórico com vizinhos malucos).

Mas o forte desses livros são, definitivamente, os diálogos. A narradora Fayer conta tudo em primeira pessoa, e vai intercalando suas poucas falas aos longos relatos, quase epopeicos, das vidas comuns de seus interlocutores prolixos.

O que escrevi sobre “Esboço”, que li em junho de 2025, vale também para os outros dois livros, lidos exatamente um ano depois:

“Eles tratam de casamentos, filhos, carreira, amizade… Revelam suas almas com muita franqueza, mas não de forma corriqueira: tudo é escrutinado, rebatido, nos faz pensar.”

O terceiro livro, “Mérito”, começa, de novo, com a narradora-protagonista em um avião (como no início da trilogia, quando se dirigia à Grécia). Desta vez, ela ouve do passageiro ao lado uma longa história sobre seu cão, o Piloto. E a gente termina de “ouvir”, junto a Faye, sentindo um certo nó na garganta.

Este livro foi o que menos gostei dos três, porque o tema do divórcio (e dos maridos absolutamente sacanas com suas ex-mulheres e com seus filhos) se repetiu de forma muito insistente, até um pouco cansativa, sem quase nenhum respiro à guisa de capítulos, que são inexistentes.

Mas os três são bons livros. Não só pelos quase-monólogos dos interlocutores da narradora (ou diálogos entregues a nós pela metade, de propósito, o que acho que faz mais sentido), mas também pelo poder de observação impressionante que ela tem, pela capacidade de descrever em detalhes cenários, roupas, climas, tensões (como quando ela diz que o escritor estava irritado por se juntar ao resto do grupo na mesa), até mesmo sorrisos (meio sorriso-meio careta, e a gente enxerga isso direitinho).

Se me perguntarem o que aconteceu nas histórias, talvez eu tenha dificuldade de resumir com algo mais do que umas duas linhas. Por exemplo, em Mérito: a escritora pegou avião, viajou para um país europeu não identificado, com clima quente e litoral, e participou de um congresso literário. Fim. Só isso? Não, porque no meio do caminho ela ouviu (e nos relatou) mil histórias e experiências de vida, como faz a concha do primeiro livro, o Esboço, em que ela vai até a Grécia para dar aulas.

Os enredos são minimalistas, mas recheados de pequenas outras histórias, com começo, meio e fim, às vezes contadas entre uma garfada e outra de um almoço ou na espera por um ônibus ou dentro de um avião.

O curioso é que nunca sabemos o que ela, a narradora, pensou do que acabou de escutar. Suas intervenções durante os relatos são minúsculas. Ela não faz nenhum julgamento ou comentário sobre o que ouviu. Normalmente deixa em aberto, para que a gente tire as próprias conclusões. Isso é inquietante e interessante ao mesmo tempo.

Como se ela fosse apática, o que é improvável, tamanho o interesse com que ela escuta e observa tudo. É mais provável que ela apenas esteja escondendo de nós, propositalmente, quase tudo o que passa por dentro dela. Como se fosse um filtro objetivo do exterior.

Depois de ler os três, acho que posso escolher Trânsito como meu favorito. Justamente por ele nos mostrar uma frestinha mais generosa da vida de Faye, dando oportunidade de vermos, por exemplo, sua casa em obras, seus vizinhos lunáticos, seu antigo namorado e seu primo, com respiros mais frequentes entre um caso e outro.

Os três livros têm em comum a habilidade impressionante que Rachel Cusk tem para escrever. Eu meio que li como se estivesse estudando, tentando absorver ao máximo essa espantosa capacidade.

E segue valendo o que escrevi lá em 2025, depois de conhecer a obra inaugural da trilogia: “Tive a impressão de que saí deste livro mais inteligente do que entrei, dias antes.” Nem que seja só uma impressão mesmo, mas já é admirável qualquer livro que nos dê esta doce ilusão.

 

Capa do livro Esboço, de Rachel CuskEsboço, Rachel Cusk
Ed. Todavia, 188 páginas
R$ 69 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

 

Trânsito, de Rachel CuskTrânsito, Rachel Cusk
Ed. Todavia, 197 páginas
R$ 66 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

 

Mérito, de Rachel CuskMérito, Rachel Cusk
Ed. Todavia, 187 páginas
R$ 64 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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