Em algum momento de 2011 ou 2012, conheci Raimundo. Fui lá para seu lugar sagrado, no Alto de Pinheiros, após receber a informação de que ele tinha sido tirado de lá. Mas, chegando na “ilha”, o encontrei no mesmo lugar de sempre, escrevendo sem parar. Calhamaços de páginas, todas preenchidas, ao redor dele. Lápis pequeno, já gasto até perto da ponta de borracha. Cabelos e barbas longas, sacos de plástico no lugar de roupas apropriadas, ele me estendeu um pedaço de papel com um verso.
Era este, como sempre, assinado “O Condicionado”:
Perguntei se ele venderia seus poemas, mas ele se recusou a receber qualquer quantia por eles. Então, guardei o verso presenteado, e está comigo até hoje.
Naquele dia, Raimundo não estava para muita conversa. Eu lhe perguntava várias coisas, e ele só respondia com monossílabos. Quando fui embora, fiquei me perguntando como alguém pode morar em um canteiro de um bairro de classe alta durante 18 anos e ninguém fazer nada para ajudá-lo. Dezoito anos!
Pouco depois, o repórter Guilherme Genestreti foi ao local e descobriu algumas informações importantes. Naquele dia, efetivamente, o poeta-mendigo havia “sumido”. Mas por boas razões: finalmente uma fada madrinha havia conseguido quebrar o gelo dele. Ao criar uma comunidade do Facebook a seu respeito, conseguiu ainda atrair o irmão, que veio de Goiás para procurar Raimundo. A reportagem pode ser lida AQUI.
Foi a última vez que li qualquer coisa a respeito de Raimundo na “Folha” – ou em qualquer outro jornal [na verdade, chegou a sair uma matéria em 2013, mas não me lembro de tê-la visto]. Até que, nos últimos dias, quase dois anos depois da reportagem do Guilherme, percebi que um vídeo produzido pelo próprio Facebook estava circulando pela rede social. Ali é contado o fim da história de Raimundo: a volta para Goiás, os sacos sendo substituídos por roupas, os cabelos e barba cortados. O vídeo ficou muito legal e merece ser visto e compartilhado:
Diz o vídeo que Raimundo está tentando publicar seu livro. Fui até a página do Facebook criada por Shalla para ver se o livro, afinal, estava pronto. Descobri que ainda não. Ela promete atualizar os quase 100 mil fãs de Raimundo assim que houver novidades. (Curti, para ficar também atualizada.)
Histórias como a de Raimundo me fazem pensar em um monte de coisas. Dezoito anos, pô! Dezoito anos até que uma Shalla aparecesse para oferecer uma vida normal para o homem que se acreditava “condicionado”. Será que ele é o louco ou todos os que tinham conhecimento de sua existência – assim como a de tantos outros moradores de rua – e deram de ombros, como se estivessem vendo um cactus no deserto? Nunca saberei…

Leia também:
- Quem são os nossos moradores de rua?
- Raimundo, sem-teto e cronista de São Paulo (possível primeira reportagem sobre ele)
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