- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Na falta de um bode para colocar na sala, outro dia colocamos a cama de casal. Ficou lá, enorme, desproporcional ao tamanho do cômodo, atrapalhando toda a família.
É que tivemos que consertar uma rachadura na parede do nosso quarto, o que inclui lixar e pintar, e tudo isso gera poeira e cheiro forte, complicado para quem tem rinite alérgica, como eu. Então “acampamos na sala” por três noites.
Quando a cama foi finalmente devolvida ao lugar de origem, a sala, que estava apertadíssima e numa bagunça aflitiva, virou um “latifúndio” que eu nem sabia que tinha. Arrumadinha, limpinha, impecável, do jeito que eu gosto.
***
Quando o Luiz teve que colocar aparelho nos dentes, foi aquele incômodo. Além de doer, no início, e atrapalhar a fala, ele não podia nem olhar para alimentos duros como pipoca e bala.
Ficou assim por quatro meses (o tempo mínimo que a dentista tinha falado!), até ser liberado do infortúnio.
Quando o aparelho foi removido, o céu da boca parecia ter ganhado novas dimensões, imenso, tudo ficou mais arejado entre os dentes e as gengivas do meu filho – e ele se empanturrou dos maiores baldes de pipoca do cinema.
***
Outro dia, já lendo na cama nos meus minutos diários antes de dormir, percebi que um apito insistente não parava de soar do outro lado da rua. PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Era assim, contínuo, sem trégua.
Não muito alto, é verdade, mas sabe quando você descobre um barulho de fundo e passa a ser impossível esquecer que ele existe? Parecia aqueles zumbidos que dão no ouvido da gente depois de duas horas perto de uma caixa de som alta.
O Luiz olhou pela janela e descobriu que o som estridente e irritante vinha do portão da garagem do prédio em frente, que estava um pouquinho aberto.
Já estava ouvindo aquele PIIIIIII havia pelo menos meia hora, intrigada por aparentemente ser a única a me incomodar com ele, já sem conseguir me concentrar na leitura, e pensando se eu teria que enfrentar uma insônia, porque seria impossível dormir ouvindo aquilo, quando, de repente, o barulho parou.
UFA.
O silêncio daquela noite de domingo veio com este grande UFA, em letras garrafais. Eu não precisaria descer de pijama e descobrir o interfone de um vizinho desconhecido, e eu não era a única incomodada, afinal: alguém foi lá e fechou o bendito portão e interrompeu a tortura auditiva.
***
Essas três histórias me fizeram lembrar daquela parábola do bode na sala. Sabe qual? Se não sabe, tem um textinho bem didático publicado pela “Folhinha” há uns anos, que resume bem.
Às vezes temos que passar por grandes e pequenas provações nesta vida, como indivíduos ou como sociedade.

Infortúnios que podem nos incomodar ou prejudicar de alguma forma por minutos – como o apito da garagem –, dias – como a reforma no quarto –, meses – como o aparelho na boca – ou anos – como quando o país elege um idiota para o mais alto cargo do Executivo.
Na virada do ano de 2022 para 2023, também lembrei aqui no blog da história do bode. Eu estava me livrando de uma construção vizinha que tinha durado mais de três anos, trazendo barulho, poeira, sujeira, congestionamento, bagunça e outros infortúnios para minha rua. E o Brasil estava se livrando do grande bode chamado Jair Bolsonaro, que tinha ocupado a presidência por quatro anos, com retrocessos nas pautas da saúde (em pleno período de pandemia), educação, meio ambiente e várias outras pautas sociais e econômicas.

Mas, mesmo com Jair Bolsonaro inelegível, condenado e preso, depois de tentar destruir a democracia do país com um golpe, o bolsonarismo não foi embora junto com o bode. Continuou preenchendo espaços da nossa grande casa chamada Brasil, com uso reiterado de religião, desinformação e sem abrir mão dos esquemas espúrios bilionários que sempre alimentaram esse grupo político.
Pra piorar, o bolsonarismo foi insuflado pelo trumpismo. E agora corremos o risco de receber o filhote do bode em nossa sala, conhecido como Flávio Bolsonaro, que há quem diga que pode ser ainda mais perigoso que o pai.
O primeiro turno das eleições terminou, como previsto, com Lula e Bolsonaro sendo levados ao segundo turno “pau a pau”, um retrato de um país dividido pra caramba.
Se Lula ganhar no dia 25, é possível que a gente ainda possa respirar em um ambiente mais arejado por mais quatro anos (se bem que o combo bolsonarismo + trumpismo não deve desistir de encher o saco, principalmente no WhatsApp e outras redes sociais). Depois desses quatro anos, sabe-se lá qual espécie de animal tentará ocupar nossa sala.
Se Flávio Bolsonaro sair vitorioso (o que agora me parece mais provável, pra ser sincera), nos restará empurrar os móveis para os cantos, nos espremer nas beiradinhas e aguardar. Porque, ao contrário dos bolsonaristas, a gente acredita e confia nas urnas eletrônicas e na lisura do processo eleitoral brasileiro.
Obviamente, reclamando sempre que necessário e denunciando todas as sujeiras deixadas por esse bode em sua temporada na nossa casa. Afinal, só com o trabalho de uma sociedade democrática, com uma imprensa livre e um judiciário eficaz poderemos, depois, cobrar uma faxina geral, que coloque nossa casa em ordem de novo.
Volto depois do segundo turno com a continuação desta história. Até lá, vamos espalhar por aí esta velha parábola, que nunca perde a sabedoria.
Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉











Deixe uma resposta