O livro tem 533 páginas e 100 contos. Cada um, portanto, com uma média de pouco mais de 5 páginas. E ainda divididos em outros tantos microcapítulos. Recheados de diálogos. Por isso é incrível que, sendo tão pequeninhos, esses contos, ou crônicas, de Nelson Rodrigues, consigam se fechar num começo-meio-e-fim perfeito, com direito a personagens e tramas complexos, como se fossem romances.
É uma habilidade muito grande de criar histórias, personagens e conflitos, com direito a clímax inusitados, a reveses surpreendentes, que fogem totalmente ao esperado pelo leitor.
A crítica fica por conta da temática, extremamente repetitiva. É impossível pensar que, ao longo de dez anos publicando essas crônicas na seção “A Vida como Ela É…” do “Última Hora”, completando cem delas, alguém, por mais talentoso que fosse, seria capaz de não repetir os temas, assuntos e abordagens. É claro que há repetição, por isso vale o conselho de ler este livro de forma esparsa, com calma, ao longo de vários meses, para não enjoar.
E também para não se saturar do clima pesado dessas histórias. Embora tenham um pouco de graça em alguns trechos, elas sempre terminam com um monte de pessimismo, tragédia, com crimes ou hipocrisias. Em praticamente todos os textos, há os seguintes ingredientes: casamento (com ou sem amor), traição, ódio, vingança e, não raro, morte. A visão que o autor tem dos relacionamentos amorosos é soturna, doída e cínica. Nada a ver com o clima que vivemos de “semana dos namorados”. Como eu disse, chega a saturar.
Outra coisa que irrita no texto são alguns de seus erros de português, dos mais diversos, principalmente as sobras de vírgulas. Mas, tudo bem, nada diferente do que a gente encontra nos jornais de hoje e de sempre.
De qualquer forma, vale a leitura. Ali, naqueles cem contos, há o retrato da sociedade carioca dos anos de 1950, com seus costumes e hábitos, com os preconceitos, com as gírias e expressões (“espeto!”, “é batata!” e outros tantos, tão simpáticos, que dá vontade de ficar usando), e os estereótipos do patriarca bravo, da mocinha “pra casar”, da outra que é uma vadia, do canalha, do malandro. Curioso que, por mais que tenhamos progredido, muitos desses retratos propositalmente estereotipados ainda existam em várias pessoas da sociedade atual, desta década de 2010, sessenta anos depois.
Dá uma curiosidade danada sobre o que causou tamanha amargura no autor. Muito se fala do Nelson Rodrigues doente, do culpado pela morte do irmão. Mas acho que agora vou ter que ler “O Anjo Pornográfico“, de Ruy Castro, pra tentar entender o Nelson Rodrigues sem nenhuma fé no amor e na humanidade.






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