- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Ficamos mais produtivos quando sabemos que temos menos horas de trabalho (e mais horas de lazer, ócio ou folga).
E quem diz isso não sou eu (ao menos não desta vez): é o Nobel de Economia Christopher Pissarides, que também é professor da London School of Economics e da Universidade de Chipre.
Em entrevista à “Folha de S.Paulo” no mês passado, ele tratou tanto do impacto da inteligência artificial no trabalho (tema que abordei no meu último post) quanto do impacto da redução da escala 6×1 na economia do Brasil.
Reproduzo abaixo alguns trechos, com grifos meus em negrito.
Sobre os riscos e as oportunidades da IA no mercado de trabalho
“Acho que o maior risco é a incerteza que cerca a IA, porque ela pode substituir empregos, e vai substituir alguns. Mas não penso que vai ser uma devastação completa de empregos, como algumas pessoas estão prevendo.
E [a IA] também pode ser uma ferramenta que ajuda a mão de obra a se tornar mais produtiva, a trabalhar menos horas, com maior produtividade, maior remuneração e mais tempo para passar na praia.”
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“Atualmente, são os cargos de entrada nas profissões [que sofrem mais riscos com a IA]. Porque a aplicação mais frequente da IA é nos grandes modelos de linguagem desde o lançamento do ChatGPT [em 2022].
Começou a ser usada extensivamente para preparar relatórios, realizar tarefas simples, como reservar passagens, e operar bots [robôs] que atendem ligações.
Esses trabalhos são feitos por pessoas [de nível] júnior tradicionalmente. Já estão sendo substituídos, talvez 30%, olhando para as vagas de emprego que estão sendo anunciadas. Acho que isso vai crescer.”
***
Sobre a redução da carga de trabalho e o fim da escala 6×1
“Não há dúvida de que, historicamente, as horas de trabalho têm caído. Há 20 anos costumávamos trabalhar mais horas durante o ano. Há 50 anos, muito mais.
Como você divide essas horas é uma questão de escolhas sociais, é uma questão de política. Estou ciente das controvérsias no Brasil.
Acho que as grandes discussões controversas não são realmente justificadas, a menos que haja outras condições associadas a isso, como negociação sindical que pode se tornar muito inflexível quanto a se trabalhar cinco, seis, quatro ou qualquer outro número [de dias].
O que você tem de perceber é que, à medida que o progresso econômico acontece, e a produtividade e a renda aumentam, cada país toma parte disso na forma de tempo extra de lazer.
Agora, na Europa, há muito debate sobre ir de cinco dias para quatro dias, porque as pessoas preferem ter mais tempo de folga. Há uma controvérsia sobre isso, por causa da forma como a remuneração será afetada.
Mas você tem que ter cuidado para não tornar isso muito rígido, se vão ser cinco [dias], menos ou mais. Você tem que permitir alguma flexibilidade aí. (…) Se você pegar trabalhadores da indústria de hospitalidade [turismo], principalmente os de restaurantes, transporte, hotéis, obviamente esses não deveriam folgar nos mesmos dias em que os trabalhadores de escritórios folgam. Você tem que organizar isso de forma diferente.”
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“Na verdade, não é incomum que a produtividade por hora aumente quando você reduz as horas [de trabalho]. Penso que essa foi a experiência na França.
Diria que, mais do que possível, é provável que a produtividade aumente se você souber que tem menos horas para trabalhar.”
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“Inicialmente houve hostilidade, ou críticas, à política francesa de redução de horas. Mas se percebeu que [a medida] poderia ser acomodada no mercado de trabalho muito mais facilmente do que as pessoas esperavam.”
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