Primeiro ano do retorno de Donald Trump tem 46 ações contra a imprensa; veja cronologia

Colagem de imagens de Donald Trump publicada pela Repórteres Sem Fronteiras.
Colagem de imagens de Donald Trump publicada pela Repórteres Sem Fronteiras.

Em janeiro, Donald Trump completou um ano à frente do novo mandato como presidente dos Estados Unidos. E, além de ter causado convulsões em várias áreas (econômicas, geopolíticas, de segurança pública interna etc), ele também minou a liberdade de imprensa em seu país.

No dia 14 de janeiro de 2026, a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras publicou uma linha do tempo das piores ações contra a imprensa praticadas por Trump, que chamou de um dos “piores predadores da liberdade de imprensa do mundo”.

Reproduzo a seguir.

As piores ações contra a imprensa praticadas por Donald Trump em 2025

Janeiro: Início explosivo do segundo mandato de Donald Trump

  • 7 de janeiro – Num exemplo precoce de uma empresa que se antecipa às ameaças de Donald Trump, a Meta desmantela seu programa de verificação de fatos. Seu CEO, Mark Zuckerberg, juntamente com vários outros executivos das grandes empresas de tecnologia, compareceu à posse de Donald Trump logo em seguida.
  • 20 de janeiro – Donald Trump assina uma ordem executiva “colocando um fim à censura federal”, eliminando efetivamente o monitoramento governamental da desinformação e das informações falsas.
  • 22 de janeiro – O presidente da FCC, Brendan Carr, restabelece queixas de licenciamento anteriormente rejeitadas contra três grandes emissoras americanas – ABC, CBS e NBC – em relação à cobertura das eleições de 2024, mas se recusa a reabrir uma queixa semelhante contra o canal Fox News, favorável a Donald Trump.
  • 24 de janeiro – Donald Trump congela quase toda a ajuda externa, desmantela a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e corta mais de 268 milhões de dólares alocados pelo Congresso para apoiar a liberdade de imprensa em todo o mundo. Os meios de comunicação independentes em todo o mundo mergulham no caos.
  • 29 de janeiro – Brendan Carr inicia uma investigação abrangente sobre as redes de mídia pública PBS e NPR, complementando os esforços políticos para reduzir seu financiamento federal.

Fevereiro: Sanções e censura

  • 3 de fevereiro – O governo Trump remove milhares de páginas do governo americano contendo informações que vão desde vacinas até mudanças climáticas.
  • 6 de fevereiro – Donald Trump impõe sanções a funcionários do Tribunal Penal Internacional (TPI) em retaliação à investigação que realizam sobre crimes de guerra cometidos pelas forças israelenses em Gaza, incluindo ataques contra centenas de jornalistas.
  • 8 de fevereiro – Donald Trump exige um acordo extrajudicial de US$ 20 bilhões da CBS em relação à edição feita pela emissora de uma entrevista com sua adversária eleitoral, a ex-vice-presidente Kamala Harris.
  • 11 de fevereiro – A Casa Branca proíbe jornalistas da Associated Press (AP) de cobrir eventos presidenciais em retaliação à sua recusa em adotar o nome preferido de Donald Trump para o Golfo do México.
  • 21 de fevereiro – O governo Trump demite funcionários responsáveis pelo processamento de pedidos da Lei de acesso à informação (FOIA), criando barreiras ao acesso de jornalistas a dados essenciais.
  • 25 de fevereiro – A Casa Branca anuncia mudanças importantes no grupo de imprensa e declara que agora escolherá quem poderá participar das coletivas de imprensa.

Março: Desmantelamento da mídia pública americana

  • 14 de março – Donald Trump assina uma ordem executiva que desmantela a US Agency for Global Media (USAGM), responsável pela distribuição de verbas para diversos veículos de comunicação pública americanos: Voice of America (VOA), Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL), Middle East Broadcast Networks (MBN), Radio and Television Marti e Radio Free Asia (RFA). A RSF rapidamente inicia ação judicial para salvar a VOA.
  • 14 de março – Donald Trump faz acusações infundadas contra os veículos de “comportamento ilegal” em um discurso amplamente percebido como uma incitação ao Departamento de Justiça para perseguir supostos inimigos de Donald Trump na imprensa.
  • 15 de março – O governo Trump coloca todos os funcionários da Voice of America (VOA) em licença administrativa, praticamente paralisando toda a produção de informações.

Abril: Novos cortes na mídia pública

  • 13 de abril – Donald Trump começa a sancionar escritórios de advocacia que prestam serviços pro bono que ele desaprova, incluindo a defesa de jornalistas.
  • 15 de abril – O governo Trump anuncia que planeja reduzir o financiamento para NPR e PBS.
  • 25 de abril – O Departamento de Justiça revoga uma política que impedia o acesso aos registros telefônicos de jornalistas.

Maio: Acesso ao Pentágono restringido

  • 13 de maio – Todos os jornalistas de agências de notícias tiveram o acesso negado ao Air Force One durante a viagem de Donald Trump ao Oriente Médio.
  • 15 de maio – Mais de 500 funcionários de VOA recebem avisos prévios, apesar de uma liminar obtida pela RSF e pelos coautores da ação, incluindo jornalistas da VOA e seus sindicatos.
  • 24 de maio – O secretário de Defesa, Pete Hegseth, restringe o acesso de jornalistas credenciados ao Pentágono, dificultando a cobertura jornalística essencial sobre a sede do Departamento de Defesa.

Junho: Violência policial contra jornalistas

  • 3 de junho – Kari Lake, assessora sênior da USAGM, apresenta um plano para eliminar mais de 900 cargos dentro da agência.
  • 8 de junho – Donald Trump mobiliza a Guarda Nacional em Los Angeles após protestos contra operações relacionadas a imigração.
  • 14 de junho – O jornalista Mario Guevara é preso enquanto cobria operações anti-imigração em Atlanta, Geórgia. Embora as acusações contra ele tenham sido retiradas e tenha sido ordenada sua libertação, a polícia local o transferiu para o Serviço de Imigração e Alfândega (Immigration and Customs Enforcement ou ICE), que iniciou um processo de deportação contra ele, apesar de sua situação legal de trabalho.

Julho: Crítico de Donald Trump é afastado do ar

  • 11 de julho – Um juiz emite uma ordem de restrição temporária contra o Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) por uso excessivo de força. Desde 6 de junho, foram relatados pelo menos 70 ataques contra jornalistas.
  • 18 de julho – O programa “The Late Show with Stephen Colbert” não é renovado após o apresentador criticar o acordo entre a empresa controladora da emissora CBS, Paramount, e o presidente Trump, lançando uma sombra sobre a independência política da emissora.
  • 19 de julho – Donald Trump processa o Wall Street Journal após seu artigo sobre suas ligações com o financista e criminoso sexual Jeffrey Epstein, que caiu em desgraça.

Agosto: Restrições para jornalistas estrangeiros

  • 8 de agosto – O Departamento de Segurança Interna propõe severas restrições a vistos para jornalistas estrangeiros nos Estados Unidos.
  • 26 de agosto – O embaixador de Donald Trump na Turquia, Tom Barrack, pede aos jornalistas libaneses que “se comportem de maneira civilizada” e os acusa de serem “bestiais” quando fazem perguntas.

Setembro: Uma repressão impulsionada pela morte de Charlie Kirk

  • 17 de setembro – Em um novo e perigoso precedente em relação à censura, a emissora ABC retira o apresentador de talk show noturno Jimmy Kimmel do ar após pressão do presidente da FCC, Brendan Carr, em decorrência de comentários do apresentador sobre a reação de autoridades republicanas à morte de Charlie Kirk.
  • 19 de setembro – O Departamento de Defesa exige que jornalistas assinem um juramento inconstitucional que os compromete a publicar apenas informações “autorizadas a serem divulgadas ao público”, o que levou a grande maioria dos jornalistas do Pentágono a deixar as instalações em conjunto.
  • 28 de setembro – O jornalista Asal Rezaei recebe um jato de spray de pimenta pela janela de seu carro em frente a uma instalação do ICE em Broadview, Illinois. Agentes do ICE também apontam suas armas para jornalistas, e vários outros repórteres foram atingidos por spray de pimenta nos dias seguintes.
  • 29 de setembro – O YouTube, uma das principais fontes de informação para os americanos, concorda em pagar US$ 24,5 milhões para encerrar um processo movido por Donald Trump após a suspensão de suas contas nas redes sociais na sequência dos protestos de 6 de janeiro de 2021.
  • 30 de setembro – Um agente do ICE agride dois jornalistas em frente a um tribunal de imigração em Nova York. Um deles, L. Vural Elibol, do veículo de comunicação turco Anadolu, acaba hospitalizado.

Outubro: Jornalista expulso após meses atrás das grades

  • 3 de outubro – Mario Guevara é deportado para El Salvador após mais de 100 dias sob custódia do ICE.
  • 17 de outubro – Donald Trump entra com mais um processo por difamação contra o New York Times em relação à sua cobertura das eleições de 2024.
  • 18 de outubro – Policiais do Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) atacam jornalistas durante o protesto “No Kings”, em violação direta da liminar emitida em julho.
  • 28 de outubro – Jornalistas são impedidos de cobrir uma audiência de imigração em Maryland. O acesso dos jornalistas aos procedimentos de imigração é dificultado devido à paralisia da administração federal.
  • 31 de outubro – O governo Trump restringe o acesso da mídia à Ala Oeste da Casa Branca, proibindo jornalistas de entrar em uma área do segundo andar conhecida como “Upper Press”, tradicionalmente aberta a repórteres e equipes de comunicação da Casa Branca.

Novembro: Um novo site do governo é criado para desacreditar a mídia

  • 10 de novembro – Donald Trump ameaça processar a BBC com relação à montagem de imagens da insurreição liderada por apoiadores de Trump em 6 de janeiro de 2021.
  • 17 de novembro – O Departamento de Estado anuncia novas restrições e regras de credenciamento para jornalistas que tentarem entrar no edifício Harry S. Truman.
  • 18 de novembro – Donald Trump minimiza o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018 e defende o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.
  • 18 de novembro – Donald Trump grita “Cala a boca, porquinha!” à jornalista da Bloomberg Catherine Lucey. Este foi um dos muitos ataques pessoais que ele lançou contra várias jornalistas mulheres ao longo de novembro e nos primeiros dias de dezembro.
  • 28 de novembro – O governo Trump lança uma página “Hall of Shame” (“Muro da Vergonha”) que tem como alvo vários meios de comunicação e incentiva os cidadãos a apresentar queixas por meio de uma linha direta administrada pela Casa Branca, visando jornalistas.

Dezembro: Um tribunal desafiado

  • 2 de dezembro – Donald Trump anuncia que fechará os escritórios da VOA no exterior, contradizendo uma ordem de retorno ao trabalho emitida por um juiz em abril.
  • 10 de dezembro – Donald Trump interfere no projeto de fusão da Warner Bros, sob pressão de Discovery, Paramount e Netflix pela venda do canal de notícias CNN.
  • 20 de dezembro – A editora-chefe da CBS, Bari Weiss, retira um segmento sobre expulsões do programa “60 Minutes”, provocando uma acalorada controvérsia sobre a politização do programa.”

***

P.S. No link original da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), é possível acessar as reportagens sobre cada um desses eventos listados na linha do tempo que eles compilaram. Caso queiram se aprofundar, recomendo que acessem a página.

P.S.2. Qualquer semelhança com o que vivemos no Brasil sob Jair Bolsonaro (PL) não é mera coincidência. Bolsonaro utiliza a mesma tática de comunicação de Trump, que é orientada pelo estrategista Steve Bannon. Qual seja: desacreditar a imprensa profissional, tirar acesso dos jornalistas, impedir ou dificultar coberturas, xingar jornalistas mulheres e estimular a divulgação de fake news.

P.S.3. A lista da RSF não se esgota. Afinal, Trump segue no poder, e eles só compilaram os atos do ano de 2025. Em 2026, aliás, a perseguição à imprensa está sendo ainda mais grave, com direito à prisão de dois jornalistas críticos de Trump (como ocorre nas piores ditaduras).

P.S. final. Na semana passada, no dia 4/2, outra ONG internacional, a Human Rights Watch, divulgou um relatório que conclui que “Trump impõe avanço autoritário global e coloca direitos humanos em perigo“.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. Lendo esse relatório da Repórteres Sem Fronteiras, reproduzido aqui, compreendi o desânimo demonstrado este ano pela Cris com o jornalismo. A situação atual é realmente difícil. Passei por isso por duas décadas durante a ditadura iniciada em 1964 no Brasil. No entanto, muitos ousaram enfrentá-la, armados apenas por sua pena, como se dizia antigamente, na maior parte da história do Brasil. Trump ou seus assessores parecem ter lido a história de nosso país, pois muitas das medidas adotadas pelo atual governo dos Estados Unidos copiariam o que se praticou por aqui em governos passados. De nossa parte, fica a convicção de que isso também passa. Como passam Trump, Bolsonaro e tantos outros. O tempo é o melhor detergente.

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