Outro dia me vi obrigada a ir a um salão de beleza (“sua cutícula é tããão fininha! Parece de bebê…”. E quem foi o imbecil que inventou que é preciso retirar as cutículas de onde nasceram e sempre estiveram, ou seja, ao redor das unhas? E para quê, afinal, além de causar uma dor danada quando a moça acha que é fininha e arranca um bife?) — e a manicure puxou papo:
— E aí, já definiu em quem vai votar?
Falei que sim, embora eu vote em Belo Horizonte, minha mais nova velha terrinha, e não lá em São Paulo. E esperei que ela viesse defender seu candidato ou fazer propaganda para o vereador favorito, como é de se imaginar quando alguém vem com aquela pergunta.
Mas não. Ela continuou de forma surpreendente:
— Pois eu não voto há mais de 20 anos.
Anula o voto toda vez? Justifica a ausência todo ano?, perguntei.
— Não, nem justifico nem anulo. Simplesmente não apareço. Meu título de eleitor já está até cancelado, eu acho.
E continuou, do alto de seus 40 e poucos anos:
— Odeio política. Não quero votar e pronto. Nunca vou prestar concurso público na vida, nem tirar passaporte, então não preciso votar. Dizem que vou ter problema pra aposentar, mas depois eu resolvo isso. O voto não faz a menor diferença na minha vida.
Essa sim é anarquista. Rebela-se contra o sistema de voto obrigatório e não quer nem saber das consequências para sua vida de cidadã.
Ou, em outras palavras, abriu mão de sua cidadania, dentro do sistema vigente. Deu de ombros. O que aqueles canalhas de colarinho branco fazem de ruim não é com ela. O que outros fizerem de bom, muito menos.
Se ela não é cidadã, é como se deixasse de existir enquanto membro da cidade. É perder a responsabilidade sobre qualquer decisão tomada para a coletividade local ou nacional.
Se você, como eu, não fugiu de sua responsabilidade de cidadão, justamente para não abrir mão do direito de cobrar pelas melhores decisões para sua sociedade, faça a coisa direto: escolha um candidato que tenha plano de governo — que você leu e com o qual concorda –, que tenha afinidade com as suas ideias de cidadão e a quem você poderá acompanhar e cobrar nos próximos quatro anos. Não vote por votar: hoje você vai exercer seu direito de membro da cidade, de pessoa atuante e, efetivamente, existente.
Hoje você vai existir um pouco mais, aos olhos do mundo. E isso não é pouca coisa.
Portanto, seja responsável e faça um bom voto. Sua vida nos próximos anos te agradecerá pela decisão de hoje (e minhas cutículas também!).






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