Febeapá comemora a morte de Paulo Henrique Amorim (1943-2019)

Vai fazer falta, PHA!

Texto escrito por José de Souza Castro:

Comecei a prestar atenção em Paulo Henrique Amorim em 1972, ano em que iniciei minha carreira profissional no Jornal do Brasil e em que ele ganhou o Prêmio Esso por uma reportagem sobre distribuição de renda, publicada pela Veja. Uma revista que, naquela época, era impossível de se imaginar que viesse a se transformar naquele “detrito sólido de maré baixa”, satirizado por PHA no seu Conversa Afiada.

Muito aprendi com PHA nos oito anos em que convivemos no JB, quando ele chefiava a redação no Rio e eu a redação da sucursal mineira. Muito antes de o jornal lançar seu primeiro manual de redação, em julho de 1988 (quatro anos depois de Paulo Henrique Amorim ter sido demitido por Nascimento Brito), ele redigiu algumas normas para melhorar o jornal. Apesar dos vários defeitos apontados pelo rigoroso Chefe de Redação, o JB era considerado desde muitos anos o melhor jornal do país.

“Nos últimos tempos”, escreveu PHA no começo da década de 1980, “se tem observado que as entrevistas restringem-se, cada vez mais, a informações reveladas pelo entrevistado. Na verdade, além de tornarem-se áridos à leitura, esses textos não transmitem ao leitor as circunstâncias em que os fatos foram anunciados. Muitas vezes, os ambientes em que se dão as entrevistas – pelo que possam conter de bizarro, de inusitado ou mesmo de adequado – encerram informações tão valiosas quanto as que são fornecidas pelo entrevistado. Esses detalhes dificilmente serão o lead da notícia, mas servirão, certamente, para transmitir ao leitor um quadro completo do acontecimento”.

Os leitores e ouvintes contumazes do Conversa Afiada, como eu, sabem que ele continuava acreditando nisso. E o sucesso do seu blog comprova que estava certo. Nisso e em muitas outras coisas, como a indispensável coragem com que exercia a profissão.

Charge do Latuff

Coragem que lhe rendeu, como prêmio adicional, a condenação, por exemplo, de pagar indenização de R$ 150 mil ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a quem chamava de “ministrário”. A condenação foi por ter PHA anunciado o “lançamento comercial do ano”, o “cartão Dantas Diamond”, em referência ao banqueiro Daniel Dantas, que havia sido beneficiado por dois habeas corpus do “ministrário” em 2008.

Desde o início do governo Bolsonaro, eu temia que ele passaria a enfrentar novos processos judiciais, dada a ousadia com que vinha atacando o capitão e seus seguidores. Paulo Henrique Amorim teve a sorte de morrer, por enfarte, antes que a milícia bolsonariana, judiciária ou não, o atacasse. Seu afastamento, há alguns dias, do Domingo Espetacular, o mais assistido dos programas jornalísticos da tevê do bispo Edir Macedo, era um prenúncio do que viria a seguir.

A morte do jornalista será motivo para muito pesar para seus leitores e amigos. Mas também de comemoração para muitos inimigos. Não podemos ter ilusão: quanto melhor o jornalismo que se faz, mais os inimigos que se cria.

Paulo Henrique Amorim morreu aos 76 anos, deixando uma filha e a mulher, a jornalista Geórgia Pinheiro. O blog Conversa Afiada postou a noticia com as primeiras repercussões da morte por enfarte, durante a madrugada, de um dos maiores jornalistas da atualidade.

Resta-nos o sentimento de que o destino escolheu um péssimo momento para obrigar Paulo Henrique Amorim a afastar-se de nós. Sem ele, vai crescer o Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá).

Charge do Pires publicada no Charge Online.


Nota da Cris: No livro “Sucursal das Incertezas”, meu pai relembra histórias de seus tempos de “Jornal do Brasil”. Paulo Henrique Amorim é citado no livro três vezes. Numa delas, meu pai conta o motivo pelo qual ele acabou demitido do JB. Você pode baixar o livro gratuitamente na Biblioteca do Blog

 

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Dez anos de jornalismo (com nova mudança de emprego)

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São mais de 13 anos como blogueira, mas 10 como jornalista mesmo. Um mochilão que só cresce!

Foi em agosto de 2006, há exatamente dez anos portanto, que comecei meu estágio da rádio UFMG Educativa, dando a largada para minha carreira como jornalista. Lá aprendi um monte de coisas com a Tacy Arce e a Grazi Mendes, amigas até hoje.

Desde então, completei a graduação, tirei o diploma de Comunicação Social pela UFMG em julho de 2007, entrei no programa de trainees da “Folha de S.Paulo” em março de 2008, fiz um monte de coisas naquele jornal — até um livro! — até setembro de 2012, voltei a Beagá, passei rapidamente pelo G1, e, nos últimos três anos e meio, estive no jornal “O Tempo”.

Nessa caminhada, continuei aprendendo mais um bocado — assim como há dez anos — e fiz uma das coisas que mais gosto no universo: repassei adiante o que eu tinha aprendido (já falei que um dia quero ser professora, né?).

Agora, com 10 anos de profissão nas costas (um verdadeiro mochilão, que encheu rápido demais!), comecei um novo desafio: virei editora da revista “Canguru“, cujo projeto me encantou desde o primeiro momento em que vi. Além de assumir uma função diferente das que já experimentei, vou tratar de temas nos quais estou mergulhada até o talo: a maternidade e a criação de filhos.

Eu não podia deixar de dividir isso aqui no blog, como fiz quando tomei a decisão de pedir demissão da “Folha” e sair de São Paulo. Já até atualizei a seção “Quem somos nós?“.

Que venham mais dez anos de jornalismo — e mais dez, e mais dez, e mais dez…! 😀

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Jornalistas, esses carniceiros

“Carniceiros! Urubus!”

Atire a primeira pedra o jornalista que nunca foi chamado assim.

Claro que existem os casos extremos, como o retratado em “O Abutre“, que já discuti aqui no blog. Mas, de um modo geral, quem solta esses gritos contra o jornalista não entende o cerne dessa minha profissão: informar, escancarar a realidade, tirar maquiagens que costumam ser colocadas por N pessoas que não querem que o que está por baixo delas seja tornado público: governos, empresas, igrejas, grupos econômicos etc.

Sim, é terrível você ter acabado de perder um parente em um acidente de trânsito grave e se ver alvo de cliques ou perguntas de um repórter, mas é fundamental que esse acidente seja registrado, computado, divulgado. O mesmo quando ocorre um crime. Se acidentes e assassinatos e tragédias não fossem cotidianamente cobertos pela imprensa, qual interesse teria o governo em registrá-los em suas estatísticas oficiais? O interesse, aliás, já é nulo — nota-se pela quantidade de subnotificações que existem, de dados que as secretarias de segurança pública distorcem ou omitem, da caixa-preta que é uma instituição como a PM mineira –, imaginem como seria se as páginas de jornais ignorassem solenemente a existência dos crimes, das tragédias, dos desastres humanitários, dos acidentes, dos casos de corrupção?

Viveríamos em um mundo do faz-de-conta (como é o que costuma ser retratado pelos jornais em Estados ditatoriais).

Parte do nosso trabalho é mesmo ser “carniceiros”. No sentido de não virar a cara quando vemos um corpo, porque é muito comum que um corpo signifique notícia relevante para a sociedade, informação de interesse público. Não só não viramos a cara: precisamos saber o que levou aquele corpo a estar ali. Ele pode significar a mistura perigosa de álcool e volante, que é crime de trânsito há séculos, mas só muito recentemente passou a ser fiscalizado pelo Estado. Pode significar a combinação de tráfico com polícia corrupta. Pode significar, também, o retrato tenebroso de uma parte da História que está correndo bem diante dos nossos narizes, no nosso tempo, e que ainda está longe de ter sido entendida e solucionada:

  1. um Estado Islâmico brutal, que, dentre outras barbaridades, até já instituiu o estupro como parte de sua doutrina religiosa,
  2. famílias desesperadas por essa sombra do Estado Islâmico, fugindo de países onde ele está só crescendo, desenfreadamente, como a Síria,
  3. a precariedade das rotas de fuga dos migrantes, que tentam um alívio em países da Europa, cruzando o Mediterrâneo em botes abarrotados de gente,
  4. as mortes desses migrantes, aos milhares.

Em quatro itens, fiz um breve resumo que está nas páginas dos jornais e sites e telas e ondas de rádio do mundo inteiro, todos os dias. Mas a foto abaixo fala mais que qualquer palavra, escrita ou contada:

Foto: AFP

Foto: AFP

É um tapa na cara do mundo.

É chocante? É. Tira a fome da gente? Tira. Somos todos pais, mães, tios, irmãos, primos de alguma criança fofa, que muito amamos. Todos nós ficamos com o estômago embrulhado por ver a morte tão precoce de uma criança de 2 anos, que possivelmente ainda nem entendia a brutalidade do mundo em que vivia, seja na Síria, seja nos momentos de terror no Mediterrâneo. Mas não cabe ao jornalismo açucarar o mundo: a realidade é essa, brutal mesmo, esse soco indigesto. “Durma-se com uma imagem dessas, com um barulho desses!” Não estamos aqui para colocar ninguém pra dormir, estamos aqui justamente para acordar o mundo para suas atrocidades, na esperança vã de que elas um dia sejam corrigidas.

Quando os erros são escondidos, eles jamais são solucionados. Que os leitores que acham que tudo se resume a sensacionalismo barato, a cliques (que cliques? Esses socos no estômago mais afugentam que atraem, sabiam?), entendam de uma vez por todas: a função primordial do jornalista, desse carniceiro abutre, é justamente de revelar. E, quanto mais dolorosa a revelação, mais relevante ela tende a ser.

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Cidade paga salário de vereador preso até o julgamento final

Texto escrito por José de Souza Castro:

Santana do Paraíso, um município de 275 quilômetros quadrados, no Vale do Aço, comemorou no dia 28 de abril mais um aniversário de emancipação política. Há 21 anos, deixou de ser distrito de Mesquita e, com o tempo, ganhou a posição de número 162 entre os mais populosos municípios mineiros, conforme o Censo de 2010.

Seus mais de 27 mil habitantes não têm culpa pelo fato de o município ter sido destaque na imprensa, nesta semana, por causa de uma decisão política equivocada tomada por oito dos 11 vereadores. A maioria dos vereadores decidiu beneficiar um colega que está preso desde 13 de maio último, em Belo Horizonte, por suspeita de cumplicidade no assassinato, neste ano, de dois repórteres do “Jornal Vale do Aço” que apuravam denúncias sobre a existência de um esquadrão da morte formado por policiais e atuando em Ipatinga e região.

Eleito no ano passado pelo PT, o investigador da Polícia Civil Elton Correa vai continuar recebendo 75% do salário mensal de vereador, que é de R$ 4,6 mil, no período em que “se encontrar privado de sua liberdade, sem condenação criminal transitada em julgado”.

É possível que o dinheiro do contribuinte a ser gasto com o vereador preso não pese muito nos cofres municipais. Seria mais fácil saber, se a prefeitura cumprisse a Lei da Transparência e divulgasse na Internet quanto arrecada e quanto gasta por mês. A prefeitura de Santana do Paraíso tem um portal na Internet e uma seção intitulada “Contas públicas” que nada informa. Mas se lê ali notícias da prefeitura.

Numa delas, o prefeito Antônio Afonso Duarte, do PT, afirma que ao assumir o cargo em janeiro passado encontrou uma dívida previdenciária da prefeitura somando mais de R$ 17 milhões. O prefeito se valeu da Medida Provisória 589, de novembro de 2012, para renegociar a dívida, conseguindo baixá-la para cerca de R$ 10 milhões, a serem pagos parceladamente. O dinheiro que a Câmara Municipal vai gastar, pagando salário de vereador preso, poderia ser mais bem empregado se ajudasse a pagar essa enorme dívida. E não para beneficiar a um colega – ou a si mesmo, no futuro, quem sabe.

Os quatro vereadores contrários à lei vão pedir providências ao Ministério Público para tentar que ela seja anulada pela Justiça. O maior argumento é que a população elegeu 11 vereadores e vai pagar o salário de 12, pois o suplente de Elton já tomou posse em seu lugar. Se a Justiça aprovar, é de se esperar que o exemplo de Santana do Paraíso tenha muitos seguidores em outros municípios, pois o que não falta neste país é vereador criminoso.

Esse fato simplório ocorrido num pequeno município mineiro, emancipado há 21 anos e que já tem 11 vereadores (oito deles com a barba de molho), pode ser um alerta aos senadores que vão analisar o projeto de lei que acaba de ser aprovado pela Câmara dos Deputados e que possibilita a criação de municípios país afora.

A Frente Parlamentar de Apoio à Criação de Novos Municípios se regozijou. Disse que 150 novos municípios já estão prontos para serem criados, pois atendem às exigências estabelecidas pelo projeto de lei. Ou seja, terem recursos, população e infraestrutura suficientes para se desenvolverem. Comprovado isso, a Assembleia Legislativa de cada Estado poderá oficializar a criação de um novo município. Desde que os moradores dos distritos aprovem antes, em plebiscito, a ideia. Como eles são os que pagam os impostos que vão sustentar futuros prefeitos e vereadores e sua coorte de auxiliares, pode ser que tenham mais juízo que os parlamentares interessados em agradar seus cabos eleitorais.