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‘Reparação’: sobre erros que todos somos capazes de cometer

Capa do livro ‘Reparação’

Eu nunca tinha lido nada do britânico Ian McEwan. Fiquei impressionada, primeiro, com a delicadeza com que ele vai tecendo as palavras, formando imagens e construindo uma narrativa detalhadíssima sobre coisas, em alguns momentos, bastante simples. O início deste livro “Reparação”, por exemplo, leva páginas e mais páginas para falar do teatrinho que a jovem Briony escrevera para apresentar, junto com os primos, para toda a família.

De cara, eu me identifiquei com Briony. Assim como ela, eu ainda era criança aos 13 anos de idade. Sempre gostei de escrever e dirigir produções teatrais incríveis, que depois apresentava na sala de casa, para agonia e tédio da minha família toda (quando não da escola toda).

Nas primeiras páginas deste romance impactante, somos levados a conhecer a imaginação fértil de Briony, sua organização, seus pensamentos perdidos dentro da cachola, sua frustração quando vê os ensaios do teatro indo por água abaixo. Mas também entramos na cabeça da mãe inerte dela, Emily, e da irmã bagunceira, Cecília, por exemplo. A capacidade de nos transportar para dentro de vozes narrativas completamente diferentes é um dos maiores trunfos desse autor. Chega a ser tão talentoso nisso que a gente quase que sente a enxaqueca da matriarca, na hora em que somos apresentados aos pensamentos e sentimentos dela.

Quando é a cabeça de Briony que entra em foco na narrativa, o livro mais parece uma história de crianças, e a capacidade do autor em nos transportar de volta para a infância também é impressionante. Por isso foi fácil me identificar com Briony: consegui entrar na cabeça dela, ou na minha cabeça, de anos atrás.

Ao mesmo tempo, fiquei me perguntando, páginas adiante, já odiando o que ela estava fazendo, se eu poderia te cometido um erro terrível e tolo igual ao dela.

Poderia, sim. A ingenuidade de criança, misturada à certeza também própria das crianças, misturada à manipulação dos adultos em torno – tudo isso pode fazer com que alguém cometa um erro colossal como o que esta primeira protagonista do livro comete. Que vai arruinar duas vidas.

E o livro, uma espécie de “Crime e Castigo” num círculo familiar, de repente vira um romance de guerra na segunda parte, a partir da página 229. Esquecemos Briony e passamos a conviver com um protagonista completamente diferente. Esquecemos o erro que ela cometeu e passamos a sobreviver, com nosso novo herói, a uma guerra. De repente, estamos vivendo o suplício de Dunquerque. É como se o livro virasse outro completamente diferente. Mostrando como as vidas também podem virar de pernas para o ar, seja por causa de consequências diretas de ações que acontecem no nosso círculo mais íntimo, seja por causa de reações em cadeia de decisões geopolíticas muito mais amplas, que ultrapassam qualquer possibilidade individual.

A terceira parte do livro, de certa forma, une as duas primeiras. É a costura, é a “Reparação”. Mas não se iluda com ela, porque há ainda uma espécie de epílogo que vai desfazer tudo o que você tinha achado que tinha acontecido. Voltas e reviravoltas e o retorno ao início.

Minha resenha ficou confusa para você? Espero que sim, porque, se eu dissesse mais, certamente estragaria uma das leituras para fascinantes que você vai encontrar por aí. Três livros em um só, um livro em três partes, três personagens principais incríveis, erros que todos somos capazes de cometer, reparações que parecem impossíveis, vidas que nada mais são do que peças de um dominó gigante e intrincado.

Haja reflexões!

 

P.S. Acho que já vou procurar conhecer outros livros de McEwan, porque ele me pareceu tão promissor quanto outra descoberta relativamente recente da minha vida de leitora: Kazuo Ishiguro.

Reparação
Ian McEwan
Ed. Companhia das Letras
444 págs.
R$ 50,92

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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