Ir para conteúdo

‘Professor Polvo’: um filme que nos torna exploradores do mundo e de nós mesmos

Vale a pena assistir na Netflix: PROFESSOR POLVO (My Octopus Teacher)
Nota 9

Cena de “Professor Polvo”

A primeira vez que vi este documentário, pouco depois que ele venceu o Oscar da categoria, ele não me impressionou muito. Fiquei pensando: 1 hora e 25 minutos só sobre um polvo? Achei entediante em alguns momentos, e o narrador afetado demais em outros. Não pude deixar de me exasperar também com o tanto que ele se apaixonara pela polvo-fêmea que ele conheceu. Como ficou bitolado com ela, fanático mesmo. Pensei ainda: como um sujeito que vive num lugar paradisíaco assim pode dizer que estava morrendo de estresse? E essa busca diária pelos detalhes de um ser selvagem não é uma forma insana de manter o nível de estresse ainda alto, mesmo que sem motivo para isso?

Pensei isso tudo. Mas, ainda assim, não dava para negar que o documentário tinha mexido muito comigo. As cenas e reflexões voltaram várias vezes à minha cabeça nos dias posteriores.

E ponderei: assisti numa tela minúscula de celular, tendo que me interromper e continuar ao longo de três dias, e enquanto fazia caminhada na esteira, ou seja, com uma barulheira danada do equipamento, que não me deixava ouvir os sons do mar ao longo do filme. Fiquei só naquela legendinha minúscula. Pensei, então: “Não é justo eu fazer uma resenha sobre este filme tendo visto ele em condições tão ruins”.

Por isso, resolvi assistir uma segunda vez. Agora, vi o filme todinho, do início ao fim, sem interrupções. Era noite, a sala estava toda escura, e a tela da TV tem um espaço decente. Os sons da natureza se intercalavam aos sons da narrativa. E o melhor: vi na companhia do meu filho Luiz, de 5 anos, e pude me extasiar com sua emoção ao descobrir mais sobre a vida selvagem marítima. Achei que ele poderia se entediar e não conseguir chegar ao fim do filme, mas prestou atenção a tudo e comentou em vários momentos.

Os impactos positivos gerados pela minha primeira vez se amplificaram, enquanto os negativos foram minimizados com a segunda chance. “Professor Polvo” não é só sobre um polvo-fêmea: é sobre a descoberta da natureza, sobre a mágica interação que se dá entre um ser humano e vários seres selvagens, ou sobre os animais selvagens entre si. A gente não se entedia, porque o aprendizado é constante. Não tinha praticamente nenhuma informação ali que fosse de conhecimento geral – tudo é novidade, tanto nas imagens quanto nas constatações do narrador-mergulhador. E Craig Foster não estava fingindo afetação. Ele realmente se deslumbrou com a experiência única que viveu. A ponto de ter, por meio dela, resgatado sua paixão anterior, de filmar e editar vídeos, e também ter inventado para si uma profissão completamente nova, de criar uma ONG de mergulhadores para proteger a vida selvagem.

Já o estresse, ah, o estresse. Este existe em qualquer lugar e circunstância, até naquele litoral belíssimo da Cidade do Cabo, na África do Sul. Mas são tipos de estresse diferentes. Aquela professora polvo não vai durar muito mais que um ano. E nós vamos acompanhar, de um lugar absolutamente privilegiado, todo o ciclo da vida dela. E vamos nos espantar com sua inteligência, suas estratégias de sobrevivência, sua sabedoria, sua capacidade de interagir, suas artimanhas e truques. Mas também vamos aprendendo junto sobre os tubarões, os caranguejos, as florestas aquáticas, sobre como peixes sabem brincar. Sobre esta coisa absolutamente fabulosa que é a natureza. Sobre como somos só uma parte insignificante de um todo mundo fantástico, imenso e ainda inexplorado – ou bem pouco explorado.

Ao mesmo tempo que dá uma paz assistir a isso e chegar a essas conclusões, também nos dá aquela coceirinha da curiosidade, típica das crianças, e que vamos esquecendo, ou deixando adormecido à medida que envelhecemos. Foi didático ver este filme ao lado do Luiz. Ele ainda guarda o encantamento, o espanto, a capacidade intacta de saborear o novo. Ver um filme como este, sobre um explorador corajoso da vida selvagem, nos faz perceber que temos inúmeras potencialidades adormecidas. Que também somos aptos a sair por aí descobrindo o mundo, a qualquer hora. E nos redescobrindo. E até mesmo nos reinventando, enquanto seres pensantes, enquanto membros de uma família, enquanto profissionais ou enquanto membros de um mundo maior, o qual podemos ajudar. Como Craig fez.

Por isso aquela polvo é professora. Ela ensina muito mais do que o que está contido em suas próprias habilidades molengas e polivalentes. Ela nos traz, ao longo daquelas 1 hora e 25 minutos, ensinamentos mais amplos, reflexões mais instigantes, e tudo em meio a cenas lindas, suaves, que a gente vai sorvendo com os olhos devagarinho, saboreando. A narrativa só aparece de vez em quando, não é como um locutor de partida de futebol, que não consegue ficar calado. Os silêncios são deliciosos, e muito importantes. Há muito que nem precisa ser dito, só observado por nós em silêncio.

Essa é a mágica da natureza, e está bem ali, no lado B da Netflix e do Oscar.

 

Veja o trailer do filme:

Leia também:

 

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

ttblogfaceblog

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

Um comentário em “‘Professor Polvo’: um filme que nos torna exploradores do mundo e de nós mesmos Deixe um comentário

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: