‘A Esposa’: Todo mundo precisa de aprovação

Vale a pena assistir: A ESPOSA (The Wife)
Nota 8

É difícil escrever sobre este filme sem cometer um spoiler. A sacada da história, que dá um duplo twist carpado no meio do filme, é tão boa, que a gente fica com muita vontade de comentar.

Então vou fazer o seguinte. Vou abrir este post dizendo coisas inofensivas, e depois, com aviso, passo a falar o que realmente interessa.

Primeira coisa inofensiva: Glenn Close levou o Globo de Ouro e o prêmio do sindicato dos atores por esse papel, e era a aposta principal do Oscar deste ano, não à toa. Tá certo que apostei na ensandecida Olivia Colman – e acertei. Não me arrependo da escolha, mas Glenn Close interpreta uma protagonista com tanta dignidade, uma mulher tão interessante e, ao mesmo tempo, tão misteriosa, que precisa de tão poucas falas para preencher os silêncios prolixos, que ela merecia mais uma porção de prêmios por essa atuação brilhante.

Segunda coisa inofensiva: perto de Close, por mais incríveis que sejam as atuações de Jonathan Pryce e Christian Slater, os homens do filme são bastante ofuscados. Pryce deve aparecer na tela a mesma quantidade de tempo que Close, ou até um pouco mais, mas ela tem uma força que a coloca, desde o início, como a protagonista, embora ele seja o sujeito que está, afinal de contas, ganhando um Nobel.

Ficamos, até por isso mesmo, meio curiosos sobre o real papel da personagem de Close no filme. Por que o filme se chama “The Wife”? Quem é essa esposa? Qual a relevância dela na história? E tudo vai se descortinando de um jeito tão suave e, ao mesmo tempo, tão instigante, em apenas 1 hora e 40 minutos de filme, que, quando chega o plot, a gente leva uns 3 minutos para digerir.

Terceira coisa inofensiva: o diretor do filme é o sueco Björn Runge, a roteirista é a americana Jane Anderson e a história é baseada no livro da também americana Meg Wolitzer. Muitas mulheres no lugar de fala do filme, deu pra notar? E isso num longa que se chama “A Esposa”…

E aqui chego à parte com spoilers. Se você não assistiu ainda, pule direto para o trailer, lá embaixo.

Recentemente eu tinha lido “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e foi impossível não comparar o livro ao filme. Talvez a autora Martha Batalha tenha até se inspirado em sua colega Meg (ou vice-versa). Elas escrevem sobre mulheres talentosíssimas, inteligentíssimas, que passam pela vida, uma década após a outra, sem terem conquistado nada, ao menos nada no campo profissional. Elas se casam, têm filhos, mas não encampam seus talentos. Por um único motivo, muito simples: o órgão genital com que nasceram.

As mulheres dos anos 40 do livro carioca e as mulheres dos anos 60 deste filme sueco, lá e cá, simplesmente não tinham chance. Se escreviam, não eram publicadas. Se eram publicadas, não eram lidas. “Todo mundo precisa de aprovação”, diz a personagem de Glenn Close em dado momento do filme. Essa frase, tão curta e certeira, nos leva ao seu oposto: quem nunca tem aprovação, sofre demais. Imagina você ser uma escritora genial e nunca ter visto um livro sequer com seu nome na capa?

Imagina você ver seu marido ganhando um Nobel em seu lugar? É uma humilhação que é difícil para os seres humanos normais, os que nunca ganhamos um Nobel, até de mensurar. Mas sentimos a empatia, e a atuação de Glenn é importante nesse sentido, de nos aproximar com a angústia que ela sente.

Angústia de certa forma dúbia, porque ela efetivamente ama o marido, não quer ver o nome dele manchado. E porque ela topou virar ghost writer talvez, de certa forma, para também ter oportunidade de ver os seus livros sendo lidos.

“Escritor não precisa escrever, precisa ser lido”, diz uma personagem em outra parte do filme. Nossa protagonista aprende isso na marra. E a saída que encontra, por mais humilhante que seja, é a única possível, para quem guarda tamanho talento.

No fim das contas, a personagem Joan consegue uma conquista muito mais impressionante que a personagem Eurídice. Mas talvez, a amargura que ela viveu nesse processo tenha sido muito maior. E ambas as mulheres têm uma coisa muito clara em comum: a invisibilidade.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

 

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