Marcos de Souza Castro e a interferência da morte

Texto escrito por José de Souza Castro:

“Devo ser o único brasileiro em todos os tempos, e um dos raros em todo o mundo, a fazer três dicionários ao mesmo tempo”, escreveu Marcos de Souza Castro em dezembro de 2015. Diz que iniciou o de alemão em maio de 2010 e que o dicionário já estava com 1.323 páginas e 30.626 verbetes definidos; o de francês, começado em junho de 2014, tinha 320 páginas e 7.334 verbetes; o de inglês, iniciado um ano depois, contava com 165 páginas e 5.603 verbetes definidos.

O trabalho, que poderia ter tornado famoso esse professor de línguas, foi interrompido pelas intermitências da morte na última terça-feira, quando Marcos, com 65 anos, sofreu um ataque cardíaco quase chegando ao lar, no Bairro São Lucas, em Belo Horizonte. A morte foi noticiada pelo site BHAZ com o título: “Morre em acidente na avenida do Contorno professor que execrou a própria filha por apoio ao PT”.

Tudo mais que ele fez na vida foi obscurecido por esse trágico ataque, pela Internet, de um pai a uma filha, um ataque visto por mais de 15 mil pessoas. E que vale como exemplo de como o radicalismo ou fanatismo na política pode ser pernicioso para a família, o país e o mundo.

Marcos, meu irmão, nasceu em 1954 numa fazenda no município de Luz. Era o sétimo filho do fazendeiro Homero Theotônio de Castro que, uns 10 anos antes, falira durante a crise do zebu e se tornara um sem-terra. A família continuou crescendo e chegou a 12 filhos. Nesse meio tempo, o pai conseguiu recuperar sua fazenda, com muito trabalho e a ajuda de irmãos.

Serviriam de inspiração para um bom romancista a história dessa família. Sobressaindo Marcos, sua mulher economista e os três filhos – dois advogados e uma médica. Com seus conflitos emocionais e políticos; suas realizações como professor de veterinária na Universidade Federal de Viçosa (da qual foi expulso duas vezes por um reitor que havia sido coronel do Exército) e do seu curso próprio de línguas estrangeiras em Belo Horizonte; e que além dos três dicionários inacabados escreveu um livro também inédito de mais de 500 páginas contando sua vida com a esposa, Ivone Moreira de Castro, falecida em 2003, aos 47 anos de idade, de câncer.

Desde o final de 2015, seus dicionários avançaram muito. Em um vídeo de 23 de junho passado, ele se mostrava bem animado com o dicionário de alemão. Dá os números: 2007 páginas, 1.206.301 palavras e 42.463 verbetes.

Seria lastimável se do Marcos ficasse como lembrança, nas pessoas que o conheceram, bem ou mais ou menos, somente aquele episódio triste do ataque à filha médica, motivado pela política. “O que o tornou tão mau?”, perguntou-me a Cris, sobrinha que conheceu dele mais o lado negativo. Não soube responder. E não consigo ver pessoa nenhuma só pelo seu lado mau. No caso do Marcos, foram tantos os lados bons, que a balança certamente penderia a seu favor.

Lembro-me, por exemplo, de suas lágrimas na despedida do irmão Luiz, a quem agora faz companhia num túmulo do cemitério municipal de Lagoa da Prata, juntamente com os pais e o irmão aviador Homero e da mulher deste. Marcos era o que mais chorava – exatamente ele, que tinha estado brigado, desde alguns anos, com o Luiz, um engenheiro agrônomo formado em Viçosa e que tomava conta da fazenda da família.

Logo mais, acredito, Marcos teria se arrependido da briga com a filha Iara e até pedisse perdão. Faltou o tempo e a sabedoria que costumam fazer companhia aos mais velhos, aos que perdem as ilusões e passam a compreender de fato a antiga oração sobre os que nos têm ofendido.

Sem o perdão e a compaixão, é muito difícil a todos viver neste mundo, neste “Vale de Lágrimas”.


Leia também:

    1. O Dia da Madrinha
    2. O Dia da Tia
    3. Uma reflexão sobre a morte
    4. A simplicidade da morte, por Rubem Alves
    5. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
    6. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo

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3 comentários sobre “Marcos de Souza Castro e a interferência da morte

  1. Olá. E era (sou ainda) um assíduo visitante do canal do Marcos. Sou professor de História no Estado do Rio de Janeiro e admirador confesso do Professor Marcos. Estava me preparando para inciar um curso com ele. A última vez que nos comunicamos foi por whattsapp, sobre o curso e esclarecendo algumas dúvidas. Ele estava partindo em viagem. Nos últimos dias, fiquei apreensivo com a ausencia de noticas dele. Nem vídeos, nem nada. Pesquisando no google tive a desgraçada notícia. Devo dizer que, embora de longe, sinto muito. Marcos era para mim uma pessoa querida, estimulante, inspiradora. Vou seguir seu método de estudo de línguas apenas triste por não estar mais em sua presença nem privar de seu conhecimento e de seus livros. Ter acesso as obras que ele possui seria enriquecedor, tenho certeza. Ter acesso aos ensinamentos dele, indispensáveis. Mas prosseguirei. Espero que mantenham o canal dele. Meus pêsames.

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  2. Obrigado, Jules Rimet, por gostar de meu irmão. Pelo que sei, ele ensinou muita gente, nesse difícil aprendizado de uma língua estrangeira. Não compartilhava com ele o gosto pela política brasileira atual, mas nunca brigamos por isso. Como se diz, quando um não quer, outro não briga. Ele gostava de uma briga, quando pensava que estava com a razão. Muitos – os de direita – admiravam também esse lado brigão.
    Quanto ao canal, não cabe a nós decidir. Ele tem três filhos e a decisão é deles.
    Abraço,
    José de Castro

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    • Sim, José, seu irmão era admirável por varias razões. Eu admirava principalmente a inteligência e o caráter combativo. Agora a noite entrei no canal para assistir um vídeo sobre dicionários de inglês e o uso da gramática, e alguns vídeos sumiram, todos os vídeos ficaram indisponíveis e alguém está mexendo no visual. Continuo com esperança de que permaneça no ar. Abraço.

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