Filho de Bolsonaro é um embaixador ideal para Trump

Texto escrito por José de Souza Castro:

O deputado federal Eduardo Bolsonaro com boné “Trump 2020”. Foto: Paola de Orte/Agência Brasil

Em pouco mais de 3.000 palavras, Samuel Pinheiro Guimarães, que foi secretário geral do Itamaraty (2003-2009) e ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010) no governo Lula, explica como a Operação Lava Jato se incluiu entre os objetivos dos EUA para a América Latina e, em especial, para o Brasil. Entre estes, está o acordo de livre comércio Brasil-Estados Unidos, anunciado na última terça-feira por Jair Messias Bolsonaro como um dos objetivos de seu governo.

A eleição de Bolsonaro, por sua vez, atingiu o principal objetivo estratégico dos Estados Unidos: eleger líderes políticos favoráveis aos objetivos americanos. Antes com Temer e agora com o Jair Bolsonaro, estão alcançando todos os demais objetivos econômicos.

O artigo foi publicado no dia 29 de julho AQUI. Sei que os mais interessados vão preferir ler o original. Mas, para quem não tem tempo, faço abaixo um resumo.

Desde 1823, com a chamada Doutrina Monroe, a América Latina foi declarada zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, que desde então defendem o que consideram seu direito ao exercício de uma hegemonia natural sobre a América Latina. Isso ficou explícito em 1904 com o chamado “Corolário Roosevelt”.

Já então, os EUA, por meio de várias guerras, haviam excluído as potências europeias de seu território continental, tinham expulsado os povos indígenas das terras dos antepassados e, com intervenções e ocupações militares, por vezes longas, e o patrocínio de ditaduras sanguinárias, haviam consolidado a influência econômica, política e militar americana sobre a América Central e os países do Caribe.

Segundo Pinheiro Guimarães, os objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos para a América Latina são:

1. impedir que Estado ou aliança de Estados possa reduzir a influência americana na região;
2. ampliar sua influência cultural/ideológica sobre os sistemas de comunicação de cada Estado;
3. incorporar todas as economias da região à economia americana;
4. desarmar os Estados da região;
5. manter o sistema regional de coordenação e alinhamento político;
6. impedir a presença, em especial militar, de Potências Adversárias na região;
7. punir os Estados que contrariam os princípios da liderança hegemônica americana;
8. impedir o desenvolvimento de indústrias autônomas em áreas avançadas;
9. enfraquecer os Estados da região;
10. eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos.

Para alcançar seu objetivo, tratam os Estados Unidos de manter e ampliar sua presença cultural/ideológica nos sistemas de comunicação de cada país da região, de modo a aumentar sua capacidade de obter melhores condições legais (fiscais e regulatórias) para a ação de suas megaempresas (petroleiras, por exemplo); para obter contratos de venda de equipamentos militares; para lograr alinhamento e apoio às iniciativas americanas em nível mundial; para promover a “simpatia” pelos Estados Unidos na sociedade local; para obter o apoio da sociedade e dos governos para seus objetivos estratégicos.

Este objetivo tem como instrumentos a defesa da mais ampla liberdade de imprensa e de internet e para a livre ação das ONGs “internacionais” e “altruístas”; dos programas de formação de pessoal, desde os institutos de língua aos intercâmbios; às bolsas de estudo; ao recrutamento de talentos; à aquisição de editoras para publicações de livros americanos; a hegemonia na programação de cinema e de TV; os programas de formação de oficiais militares e lideranças políticas; e recentemente a aquisição de instituições de ensino, em todos os níveis.

Outro objetivo é incorporar todas as economias dos países da América Latina à economia norte-americana, de forma neocolonial, no papel de exportadores de matérias primas e importadores de produtos industriais.

“O instrumento para alcançar este objetivo são os acordos bilaterais de livre comércio que levam à eliminação das tarifas aduaneiras e à abertura dos mercados dos Estados subdesenvolvidos nas áreas de investimentos; de compras governamentais; de propriedade intelectual; de serviços; de crédito e, às vezes, incluem cláusulas investidor-Estado”, relata Pinheiro Guimarães.

Na sua opinião, “o acordo Mercosul/União Europeia será instrumental para a abertura de mercados para os Estados Unidos sem ônus político pois, após sua entrada em vigor, estarão criadas as condições para os Estados Unidos reivindicarem ao Brasil e ao Mercosul igualdade de tratamento. Outros países altamente industrializados como o Japão, a Coréia do Sul, o Canadá e a China farão o mesmo e o Brasil não terá mais a tarifa como instrumento de política industrial”.

Para atingir outro objetivo estratégico – desarmar os Estados da região – os EUA promovem “o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e de outros tratados na área química e biológica, e mesmo sobre armas convencionais; a venda de equipamentos militares defasados a preços mais baixos e o “estrangulamento” de eventuais indústrias bélicas locais; os acordos de associação à OTAN; a transformação das Forças Armadas nacionais em forças de caráter policial, voltadas para o combate ao narcotráfico e a crimes transnacionais e, portanto, necessitando apenas de equipamento leve”.

Outro instrumento para alcançar este objetivo é promover a dissolução da UNASUL, como foro de solução de controvérsias concorrente da OEA e como organização de cooperação em defesa, da qual os Estados Unidos não participam.

A estratégia prevê ainda impedir a presença, na região, de países adversários de sua hegemonia, como Rússia e China.  A presença russa e chinesa é especialmente temida na área militar, inclusive por ameaçar a Costa Sul do território dos Estados Unidos e os acessos ao Canal do Panamá, uma via comercial e militar estratégica.

Para demonstrar sua determinação de exercício de hegemonia na América Latina, os EUA têm como objetivo punir, dentro ou fora do sistema da OEA, com ou sem o apoio de outros Estados da região, aqueles governos que contrariarem, em maior ou menor medida, os princípios da liderança mundial americana. Tais princípios, são:

• ter economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro, com intervenção mínima do Estado;
• dar tratamento igual às empresas de capital nacional e estrangeiro;
• não exercer controle sobre os meios de comunicação de massa;
• ter regime político de pluralidade partidária e eleições periódicas;
• não celebrar acordos militares com Rússia e China;
• apoiar as iniciativas dos Estados Unidos.

A campanha política/econômica/midiática para promover um golpe de Estado e derrubar um “hostil”, diz Pinheiro Guimarães, se desenvolve em várias etapas de denúncia desse governo pela grande mídia regional e pela mídia mundial, com o auxílio da Academia, como sendo: autoritário; corrupto; traficante ou leniente com o tráfico de drogas; perseguidor de inimigos políticos; violador da liberdade de imprensa; ineficiente; opressor da população; e uma ameaça aos vizinhos e à segurança americana.

Outro objetivo estratégico é enfraquecer política e economicamente os países da região. Os instrumentos são: estimular direta ou indiretamente (pela mídia) a redução do poder regulatório em defesa dos consumidores, da população em geral e dos trabalhadores, dos organismos do Estado, em especial aqueles que limitam ou disciplinam a ação das megacorporações multinacionais, entre as quais prevalecem as americanas.

A campanha contra o Estado central, como ineficiente e mais corrupto e autoritário, e a defesa da descentralização regulatória e de auto regulação dos setores pelas próprias empresas privadas são também instrumentos utilizados. Do mesmo modo, enfraquecer o Itamaraty, no caso do Brasil. Até recentemente, era o único organismo do Estado “que enfrenta, todos os dias, os interesses dos demais Estados nacionais, em especial os interesses dos Estados Unidos, de seus adversários, Rússia e China, e das chamadas Grandes Potências, como Inglaterra, França, Alemanha e Japão, nas negociações para aprovar normas internacionais que atendam seus interesses (e lucros).”

Talvez o principal objetivo estratégico seja impedir a eleição de líderes políticos em cada país que manifestem restrições aos Estados Unidos e promover a eleição de líderes que a eles sejam favoráveis. “E aí entra o papel da Operação Lava Jato na defesa direta ou indireta dos interesses americanos”, diz Pinheiro Guimarães.

Lula não poderia mais ser eleito presidente do Brasil, pois não apoiou a invasão do Iraque em 2003; estabeleceu o entendimento político e econômico estreito com a Argentina; promoveu a coordenação com a Argentina, a Venezuela, o Uruguai, o Equador, a Bolívia e o Paraguai para a formação da UNASUL, em substituição à OEA; resistiu à ALCA e fortaleceu o Mercosul; fortaleceu os instrumentos financeiros do Estado, como o BNDES, e ao utilizá-los na politica externa; fortaleceu o programa nuclear; exerceu operações de aproximação autônoma com os países africanos e árabes; promoveu a criação do BRICS, com a China e a Rússia; fortaleceu a Petrobrás e estabeleceu o regime de parceria para exploração do pré-sal; estabeleceu a política de “conteúdo nacional” na indústria; promoveu a indústria de defesa brasileira; defendeu a regulamentação da mídia; negociou com a Turquia um acordo nuclear com o Irã; e exerceu o equilíbrio em suas relações com Israel e Palestina.

Nada que os Estados Unidos fizeram para se contrapor a Lula, com o auxílio do Judiciário e da imprensa, foi capaz de enfraquecê-lo nas eleições.

Por isso, o principal objetivo da Operação Lava Jato não era a luta contra a corrupção, mas sim impedir a eleição de Lula em 2018. O juiz Sergio Fernando Moro já havia descrito em seu artigo intitulado Mani Pulite, publicado em 2004 na Revista CEJ – Justiça Federal N°26, “a sua decisão de violar a lei para combater a corrupção, em uma interpretação de que ‘os fins justificam os meios’”, diz Pinheiro Guimarães.

Segundo ele, a “corrupção” foi enfrentada pela Operação Lava Jato, comandada por Sergio Moro, juiz de primeira instância que contou com a conivência e mesmo a cooperação de membros dos Tribunais Superiores e da grande imprensa, para uma condução processual altamente heterodoxa e ilegal.

“A divulgação quotidiana e seletiva de ações da Lava Jato através da imprensa, em especial da televisão, foram essenciais para criar a convicção de que a Lava Jato teria ‘revelado’ que o partido que teria promovido e se beneficiado da corrupção no sistema político teria sido o PT, conduzido por Luiz Inácio Lula da Silva”, diz o autor. “Formou-se um amplo movimento anti-petista e anti-Lula, e tornou-se, assim, um objetivo não só político, mas ético e moral, para combater a corrupção, apresentada como o principal mal da sociedade brasileira, impedir por todos os meios que o ex-presidente Lula pudesse se candidatar e, iludindo o povo ingênuo, ser eleito e reimplantar os mecanismos de corrupção”.

E prossegue Guimarães:

“A nomeação do juiz Sérgio Moro como Ministro da Justiça por Jair Bolsonaro e a declaração de Bolsonaro de que devia muito de sua eleição a Moro indicam o alto grau de ilegalidade do comportamento de Sérgio Moro e de Jair Bolsonaro e sua ação política”.

A esperança é que a “publicação pela grande imprensa dos diálogos entre Sérgio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e entre os procuradores e três, até agora, ministros do Supremo Tribunal Federal – Luiz Fux, Edison Fachin e Luiz Roberto Barroso – podem acarretar a nulidade de todos os processos da Operação Lava Jato”.

Enquanto isso, os Estados Unidos da América atingiram seu principal objetivo estratégico: eleger líderes políticos favoráveis aos objetivos americanos. E com o Governo Temer e agora com o Governo de Jair Bolsonaro estão alcançando todos os demais objetivos.

Diante disso, concluo, o presidente dos Estados Unidos tem muitos motivos para aplaudir a indicação de um filho de Bolsonaro para embaixador.

Desculpe-me o leitor que chegou até aqui: empolguei-me e me estendi por mais de 1.800 palavras.

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