‘O Desaparecimento de Stephanie Mailer’: um livro feito com pressa

Terminei de ler “O Desaparecimento de Stephanie Mailer” com uma grande dúvida: será que eu é que tinha supervalorizado “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” ou o autor dos dois livros, Joël Dicker, é que decaiu de qualidade assustadoramente entre os dois romances policiais?

Porque, quando terminei de ler aquele romance policial, em 2014, escrevi aqui no blog que era um dos livros que mais tinham me dado “fome de ler” na vida. Eu tinha adorado. Tinha percorrido 572 páginas e, ao final, estava morrendo de saudades da história.

Desta vez foi diferente. Percorri rapidamente as 575 páginas, até porque é um livro de fácil leitura, mas estava doida para terminar logo, descobrir logo quem era o assassino da história, e partir pra outra.

No Goodreads, dei três de cinco estrelas para o livro. Ou seja, 60%. Ele passa de ano, mas de raspão. É uma leitura leve, ágil, e o autor ainda guarda a mesma capacidade do livro anterior de viajar pelo tempo e pelos narradores sem nos fazer perder o fio da meada. Ponto pra ele. Mas fiquei com a sensação de que ele tinha uma boa história em mente e quis terminar rápido – para vender rápido? Ou estava sendo pressionado pelos editores, depois do sucesso estrondoso do primeiro livro? –, e acabou não conseguindo trabalhar direito nem texto nem o enredo.

Pra piorar, ele usa a mesmíssima fórmula do “Harry Quebert”. Deu certo uma vez, por que não repetir, certo? Mas, desta vez, seu livro está cheio de furos*. Os detetives que investigam os crimes são tão ruins de serviço que às vezes dá vontade de sacudir o livro e gritar: “Ô! Não vão fazer isso antes, não? Por que não investigam aquilo?” Afinal, sou leitora voraz de livros policiais. Não é fácil me fazer de boba com essa lenga-lenga.

Daí, no fim, como num passe de mágica, eles conseguem solucionar os crimes da forma mais inverossímil do universo. É como se o autor tivesse se enchido de escrever, depois de 550 páginas, e tivesse resolvido dar um basta de qualquer jeito e acabar logo com aquilo.

E, por falar em inverosímil, os personagens são completamente absurdos. É caricatura pura. Vou citar os quatro piores, e vocês, ao ler, vão entender o que eu digo: Steven, Alice, Meta e Kirk. Gente, na vida realmente não tem como existirem pessoas assim. É simplesmente impossível. Daí que, toda vez que apareciam, eu tinha vontade de pular o capítulo logo.

Sim, porque, mais uma vez, o autor usa o recurso de entrelaçar capítulos. Ele alterna fatos que estão acontecendo em 2014 com outros que aconteceram 20 anos antes. É um recurso interessante, que vários outros autores vêm usando, mas que, neste livro, foi aplicado de forma um pouco excessiva. Quando você está no auge de um acontecimento, vai lá uma parte super extensa relembrar a história do narrador da vez, desde o nascimento até a vida adulta dele. Interrupção inconveniente, eu diria.

Poxa, mas não tem nada de bom no livro? Como eu disse, ele passou de ano de raspão. É um livro policial com aqueles ingredientes básicos do suspense, a leitura é fácil de ser percorrida, só nos incomoda um pouco as balelas do percurso. E tem mais uma coisa: o início do livro é muito bom. As primeiras, sei lá, 150 páginas, quando ainda estamos no mistério do desaparecimento de Stephanie, e o trio pateta de detetives não deu ainda início a suas investigações duvidosas. O começo é bom, o meio vai piorando e o fim é bem fraco.

Talvez se o autor não estivesse tão preocupado em repetir o sucesso do primeiro livro, recorrendo às mesmas fórmulas e recursos, com uma pressa tão grande, talvez aí tivéssemos um bom segundo livro policial para dar fome de ler, para ter saudades no fim. Mas o que temos é um livro que chega ao fim com a frase mais clichê do mundo, que nos faz suspirar, desta vez, apenas de alívio por ter finalmente terminado.


“O Desaparecimento de Stephanie Mailer”
Joël Dicker
Intrínseca
575 páginas
De R$ 38,90 a R$ 59,90

 

 

*Coloco esse asterisco só para quem já tiver lido o livro ou não se importar com spoiler: gente, o que é aquele fim que o autor arranjou para o personagem Steven? Qual a lógica daquilo?! Como que uma personagem pode simplesmente desaparecer do mapa, ninguém nunca ter a curiosidade de ir atrás dela e, quando o cara escreve confessando tudo, ninguém se dar conta de que se trata de uma confissão?! Qual a lógica? Qual a lógica? Socorro!

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