Depois do homem que vestia saia, a Revolta da Pinga, em Pitangui

Texto escrito por José de Souza Castro:

Há quase cinco anos escrevi aqui sobre o homem que não matou um inimigo acatando pedido de sua mãe, mas que nunca mais vestiu calças de homem. Uma história que meu irmão advogado, o Antônio, ouviu de seu amigo Aristoteles Atheniense, dono de rico repertório de histórias mineiras.

Pois bem. Os dois viajaram juntos na última terça-feira a Pitangui, onde Atheniense seria o orador da solenidade promovida pela Câmara Municipal pelos 303 anos da cidade e, ao mesmo tempo, receber a outorga do título de cidadania honorária – o quarto de tais títulos que ele recebeu em Minas.

Conheço o homenageado desde 1979, quando Atheniense presidiu por quatro anos a seccional mineira da Ordem dos Advogados do Brasil. Na época eu chefiava a redação da sucursal do Jornal do Brasil em Minas e Atheniense era uma das fontes mais valiosas para qualquer jornalista mineiro que fizesse oposição à ditadura militar.

Ele criticava, com desassombro, 20 anos depois de se formar em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, os esbirros da ditadura. Depois disso, só sabia dele por meio do meu irmão que com ele trabalhava e de seus artigos no jornal “Hoje em Dia”, na época em que eu fazia ali os editoriais.

Suspeitava que os anos tivessem arrefecido seu ânimo libertário. Engano. “Exaltação à honra”, título escolhido por Atheniense para seu discurso em Pitangui. “Honra e interesse não cabem no mesmo saco”, leio no texto que Antônio me entregou.

“Concito-os a combater, com denodo, os artífices do mal com a mesma energia com que Domingos Rodrigues do Prado enfrentou os opressores da região em que vivia, na sublevação havida no Rio dos Guardas, pois, para o triunfo do mal só é preciso que os homens bons fiquem indiferentes, conservem-se apáticos, enfim, que nada façam”, ensinou Atheninse já chegando ao fim do seu discurso.

Momentos antes, ele já havia alertado, sem citar nomes, mas que não tive dificuldade em identificar Bolsonaro como sujeito oculto, que “é visível o risco de pronunciamentos com efeitos plebiscitários, por falsas lideranças que propõem soluções demagógicas com o emprego da força, a um povo descrente e desinformado”.

Nem sempre foi assim, como mostra a própria história de Pitangui, relembrada em breves pinceladas pelo parente do “homem que vestia saia”. Retorno três parágrafos acima, em que é citado Domingos Rodrigues do Prado.

Este foi o líder da “Rebelião da Cachaça” ou “Revolta da Pinga” ocorrida em Pitangui em outubro de 1719 e que passou à história como sendo a revolta dos tributos das 36 arrobas de ouro e dos quintos reais, no Rio das Guardas, em Pitangui, e que, ressaltou Atheniense, “tornou-se a primeira prova de insubmissão contra a tirania lusitana, antes mesmo da Felipe dos Santos em Vila Rica, em 1720”.

Prado não era mineiro, mas paulista chegado a Pitangui numa das incursões dos bandeirantes às Minas Gerais em busca de ouro.

Em outubro de 1719, o capitão-mor João Lobo de Macedo, representante de Portugal na região, determinou o estanco da cachaça. Estanco equivalia a um monopólio estatal, pelo qual a venda de aguardente tornava-se exclusividade da Coroa. Para os bandeirantes, pinga era gênero de primeira necessidade, pois era o combustível que movia os escravos na extração do ouro.

Os rebelados expulsaram João Lobo de Macedo de Pitangui e mataram o presidente da Câmara que acumulava o cargo de auditor. Os mineradores já deviam à Coroa sete arrobas de ouro, por causa do “quinto”, e pensavam que o monopólio da pinga ia reduzir ainda mais os lucros, encarecendo a atividade de mineração.

Devido ao motim, o Conde de Assumar, governador da Capitania, teve de anistiar a dívida , comunicando ao rei que a Vila de Pitangui, “formada de mulatos atrevidos, deveria ser queimada, para que dela não se tivesse mais memória”.

Ledo engano. Aristoteles Atheniense não deixa que isso aconteça… Para desgosto de Michel Temer, o capitão-mor a serviço, agora, da Coroa dos Estados Unidos. Ouçam o velho advogado:

“Num país como o nosso, carcomido pela corrupção endêmica e pelos privilégios de minorias bem articuladas, incorreria em omissão inescusável se, tomado do intento de reviver fatos que compõem a história de Pitangui, não emitisse o meu juízo sobre as inquietações que assolam a nossa Pátria.

Tenho comigo que não há outra saída para livrar o Brasil dos malefícios que o afligem senão desmistificando o sistema vigente, multipartidário, combatendo sem tréguas a devassidão institucionalizada.

A classe dirigente tem que atentar para a necessidade de dar exemplo ao cidadão, oferecendo-lhe serviço público adequado, conforme as suas necessidades, fazendo o papel que lhes foi confiado através do voto.

Creio ser esta a única maneira de sairmos deste lamaçal pútrido, chafurdeiro dos políticos sem peias.

No pleito de outubro que se avizinha, esta oportunidade deverá ser exercida, mas, jamais através de outras soluções incompatíveis com o regime republicano.”

Ele continua a frase citando a ministra Cármen Lucia, do Supremo Tribunal Federal, mas isso, respeitosamente, vou deixar passar em branco.

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