As três cenas que fizeram o dia de hoje valer

Um daqueles dias em que o céu de São Paulo nos surpreende. Foto: CMC, em 2008

Hoje foi um dia difícil, tenso, cansativo. Vocês podem ver por este post que escrevi agora no Novo em Folha.

Mas foi recompensado por três cenas, que agora divido, resumidamente, com vocês:

Cena 1

O céu de São Paulo estava lindo hoje. Azul, com várias nuvens em floquinhos pequenos, postados simetricamente, um ao lado do outro, e uma mancha laranja-amarelo-avermelhado do sol se pondo e se sobrepondo ao cinza da poluição de inverno. Pena que não fotografei. À noite, a lua era quase cheia, bem quase. Estando na rua o dia inteiro, pude presenciar tanto a pintura da tarde quanto a lua da noite.

Cena 2

No supermercado perto de casa, depois das 22h, para comprar umas miudezas para a semana, vejo uma mãe com a filhinha de seus nove anos. A menina sabe que a mãe está com dinheiro contado, seguindo à risca a lista de compras da semana. Em vez de pedir “Mãe! Compra isso! Me dá aquilo!” como toda criança dessa idade em um supermercado, ela pergunta, tímida, responsável e cautelosamente: “Mamãe, troca o alho por sucrilhos?”, ao que a mãe nem se dá ao trabalho de responder. (Quando eu era criança, queria convencer meus pais a comprarem Danoninho “com ferro”, que valia por um prato de feijão, segundo a propaganda — porque eu detestava feijão. Lembro até hoje do meu pai respondendo mal-humorado: “Mas o quilo do feijão é bem mais barato que o Danoninho, e dura 20 vezes mais!” Aprendi economia assim.)

Cena 3

Depois da feira, quase chegando em casa, lá pelas 22h30, ouço um rapaz falando alto com a moça da qual tinha acabado de se despedir: “Peraí, Ju! Esqueci de uma coisa!” E aí ele volta a cumprir a distância de uns seis passos que os separava e lasca um beijão na boca dela, que se esbalda de sorrir com os olhos. Fico feliz pela Ju, que não conheço. E feliz pelo par dela, que se empenhou para dar aquele grito em tom de urgência, como se tivesse esquecido de pagar o aluguel do mês, só para surpreendê-la com esse pequeno gesto de ternura e carinho.

Agora vou dormir, feliz com essas três cenas, triste com as tragédias e desastres que cabe aos jornalistas cobrir. Boa noite, só sonhem sonhos bons.

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6 comentários sobre “As três cenas que fizeram o dia de hoje valer

  1. Não me lembrava do episódio, Cris. Mas parece que você não fez bem a lição de casa na aula de economia. Feijão continua sendo bem mais barato e saudável do que muitas daquelas coisas que você prefere comer…

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  2. Veja como são as coisas, como acontecem aleatoriamente. Você estava na rua, trabalhando como jornalista e, diante de tantas cenas, a poeta que coabita com a jornalista, separou três delas, por lhe tocarem a estética, do belo, da resignação e do amor.
    Mudando de ângulo, mas continuando nas cenas, meus filhos também, na alegação de falta de dinheiro, nos orientavam a pagar com cheque. Muito lógico, não tem dinheiro, paga com cheque, uai.
    Abraços, Cristina.

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