Crônica da delegacia

Ela chegou meio trêmula, sem saber muito bem como se expressar. O policial pediu o número do documento.

“Não sei de cor não”, disse, sorrindo nervoso. “Nem sei ler.”

Pegou o RG e estendeu ao homem. Analfabeta, negra, moradora de um bairro da periferia da zona leste paulistana, como me contou depois, na sala de espera.

“Meu vizinho foi e ameaçou meu marido, sabe? Falou que matava ele todinho, sem deixar rastro. Eu fiquei com medo pelo meu marido, nem dormi naquela noite. Só por isso procurei a polícia”, disse, como que pedindo desculpas por ter ido fazer seu primeiro boletim de ocorrência.

O vizinho ameaçara o marido por um motivo trouxa qualquer, algo a ver com o muro da casa. “Briga de vizinho, sabe?”

O fato é que ela fez um B.O. contra o vizinho. Não sabia quem ele era. Ficou surpresa quando, no dia seguinte, a polícia o prendeu, por causa da denúncia que ela fez.

“É que ele tinha matado uns caras lá na terra dele, no Nordeste, e fugiu pra cá. Era foragido da polícia, né?”

Agora ela vinha à delegacia porque ele estava prestes a ser solto da cadeia. E ela tinha medo de ele querer se vingar.

“Se eu soubesse que ele era procurado da polícia, não teria denunciado! Não sou cagueta“, disse, retorcendo as mãos suadas.

O que mais a afligia era que a vizinhança a olhasse torto, como todos olham aos dedo-duros. Ela preferia ter convivido com o vizinho ameaçador, sem polícia no meio, a ter que aturar os olhares duros de todos os demais vizinhos.

“Não sou cagueta”, repetiu, várias vezes.

Logo mais, foi pedir a proteção ao delegado, já que não tem para onde ir. Não sei o que ele disse a ela, só sei que ela saiu esbravejando alto, um monte de palavrões impublicáveis.

Deduzi que eu não veria aquela moça nunca mais.

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10 comentários sobre “Crônica da delegacia

  1. Demais, Cris! Antes de você se aposentar, acredito eu que lancará outro livro. Mas, desta vez, só de sua autoria e nesse estilo. Ou, quem sabe, um romance. Eita diacho! Seria bom demais da conta sô! Hehehe.

    Na minha nobre e simples opinião, o desfecho é a melhor parte. Fiquei curioso para saber o teor da conversa da senhora com o delegado, pq para ela sair de lá revoltada boa coisa não deve ter sido. Ou não, né? Muito bom, muito bom!

    =D

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    • Obrigada, moço! =)
      Quando eu era pequena e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, dizia “autora” hehehe.
      Autora eu acabei virando, graças ao convite da Ana, mas um dia ainda vou ecsrever um livro de ficção ou de crônicas, sim, oxalá! Ainda mais sabendo que já tenho um leitor 😉
      beijos!

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      • Que legal, Cris! Quando me faziam essa pergunta eu dizia que queria ser piloto. Hehehe. Ficava deslumbrado com aquelas aeronaves todas etc., achando o máximo, hehe. Hoje nem gosto tanto de avião. 😛

        Uou! Que ótimo, Cris! Dou total apoio de você escrever um livro de crônicas e ficção. Show! Fora esses, gosto muito de romance policial também. Ou melhor, qualquer obra, desde que a história seja interessante, boa e o/a autor (a) tenha a mão cheia, assim como você.

        Pode fazer que eu compro e envio para a Terra Cinza para você fazer a dedicatória.

        Beijos! 🙂

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  2. Não verá e a lembrança que teremos dela é… apenas mais um número nas estatísticas oficiais. Um número frio, que será lido ou dito no rádio, na TV e ninguém se surpreenderá porque…é fácil “calar os dedo duro pra sempre!”

    Talvez o delegado tenha dito “não posso fazer nada”. Talvez. Mas é o que mais ouço por estes lados, o “não posso fazer nada”.

    😦

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