A cadeira cor de imbuia

Hoje eu estava saindo de casa quando vi uma enorme caixa de papelão deitada no corredor.

A própria presença desta caixa, embrulhada como se fosse um depósito de lixo, já me pareceu meio insólita.

Mas toda a minha curiosidade migrou de lugar no mesmo momento em que vi escrito: cadeira-da-marca-tal e, abaixo, uma lista de cores, com uma suposta cor marcada com um x.

“Imbuia”.

Palavra de que nunca ouvi falar nos meus 27 anos de vida. E não só isso: havia a (ou o?) imbuia, a/o imbuia mel e a/o imbuia premium!

O que estava marcado com um x era o tal imbuia premium.

Fiquei tentando imaginar que cor seria essa, quais seriam as diferenças entre as/os três imbuias e se a premium era tão melhor, para merecer esse adjetivo.

E a cadeira com cor tão sofisticada certamente não seria do modelo da minha mesa, que me deixa sempre com frio na barriga quando um amigo mais gordinho resolve se sentar, tamanha a fragilidade.

Devia ser uma cadeira grande, maravilhosa, de design finlandês, anatomia arrojada e super ergonômica.

Algo que merecesse a cor imbuia premium.

Imaginei quanto custaria uma dessas. Uns R$ 1.000? Mais até?

Comecei a olhar diferente para meus vizinhos de corredor, que moram no mesmo tipo de apê minúsculo que eu, como todos no prédio, mas têm condições de arcar com uma cadeira mais cara que o aluguel do mês.

Alguém ali deve ter ganhado na loteria e ainda não teve tempo de se mudar de casa.

Ou então está sendo cortejado por um namorado rico, que quis impressionar com um presente desse nível. Quem sabe um casal recém-juntado não ganhou de presente pelo matrimônio, dos aliviados pais?

Ou a cadeira pode ser uma herança do tio falecido… Não, mas aí ela não viria na caixa, já estaria desgastada pelos traseiros de várias gerações de parentes cansados e certamente a/o imbuia já perdera o vivo original, dando lugar a um desbotado pastel ou cinza.

E como seria um/a imbuia desbotado/a? Tenderia à cor de bufa, à de burro fugido ou à de jeans preto muito lavado?

Às vezes o/a imbuia é como o jeans: algo tão sintético que vira uma cor por si só, já que ninguém diz que jeans é azul-com-branco. Jeans é cor de jeans, e pronto.

Imbuia é imbuia, mais respeito!

Por fim, cansada de tanto pensar besteira, resolvi saciar minha curiosidade no povoado de cultura inútil que é o Google.

Que decepção.

Imbuia nada mais é que o bom e velho marrom!

E nem há um consenso sobre a tonalidade desse marrom, como existe com o bonina, com o azul-marinho e com o grafite. É uma confusão de marrons sendo denominados, injustamente, de imbuia, vejam só.

Logo escapei do Google e fui até um dicionário. Descobri, aí sim, que a imbuia (no feminino) é uma árvore, da família das Lauráceas — não uma cor.

Mas a poesia dos marketeiros, os mesmos que chamam os olhos da moça de cor-de-jambo e a roupa do gari de cor-de-laranja, permitiu a cor-de-imbuia (premium!) à cadeira do vizinho.

Que o móvel dure muito, ao contrário da árvore que o originou…

13 comentários sobre “A cadeira cor de imbuia

  1. A imbuia foi moda durante a década de sessenta nos móveis (era imbuia quando se queria escuro e marfim quando se queria claro), daí a imbuia foi se extinguindo como madeira natural (assim como marfim) e passou a ser protegida por lei. Hoje, só se for cultivada com autorização para ser cortada é que pode ser usada em móveis, portanto, o preço subiu muuuuuito.
    Hoje vc fez um resgate nostálgico de uma época em que se via a vida cor de rosa.

  2. Na roça, onde nasci e vivi os primeiros oito anos de vida, imbuia era uma árvore de respeito. Quase tanto quanto jacarandá, outra árvore ameaçada de extinção. E bem mais que o ipê, muito apreciado para a produção de tacos para assoalhos… outra coisa que se tornou raridade. Os tacos, não o ipê. Este há muitos anos é protegido por lei, pelo menos em Minas Gerais, e sua floração amarela, roxa ou branca continua enfeitando generosamente nossos campos e montanhas a anunciar a chegada da primavera. Agora que descobriu a imbuia, Cris, talvez um dia você possa vê-la por todo lado, como aconteceu com o seu achado dos elefantinhos…

  3. Cris, na poesia dos marqueteiros há ainda a cor-de-café para o marron escuro. Sem fugir da imbuia, na poesia da vida a moça inteira é que é da cor-de-jambo e seus olhos da cor-de-mel.
    Hoje não existe mais madeira boa. Quando era menino, meu avô e meu pai cortavam imbuia para fazer tábua para bicame na mineração.

  4. Que delícia de texto! Estive pesquisando a tonalidade dessa tal cor imbuía e, por um acaso, encontrei seu site. Estou comprando mesas e cadeiras de madeira e no site da loja nos dão essa opção de cor. Enfim… Parabéns e felicidades!

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